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[Conversas pela Casinfância...]

[É assim comigo: quando menos cuido e espero, brotam os sentires e vêm as palavras... Foi bom escrever isto; foi amenizante da angústia. No breve instante da escrita, eu estive mais uma vez em busca de mim nalgum lugar deste, e daquele tempo úbere!
Dou adeus a estas palavras no próprio instante em que as lanço na Grande Rede — adeus palavras que partem de mim, adeus!]

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Ah, aquelas conversas pela casa... Era um tempo úbere, como é naturalmente próprio de todo tempo em que se vive. Tempo de intensa criação de imagens; sim, imagens eram fabricadas pelos sons das palavras em sua faina de nomear as coisas e suas funções de ser. E era assim, todos os dias, e todas as noites também, que, das estrelas, sempre alguma inspiração vinha para o contar dos fatos, ou das histórias de outros tempos úberes. Inspiração que era, por vezes, trasladada para a névoa dos sonhos, e assim, magicamente fruída, e depois, levada pelas brancas asas do amanhecer...

Palavras, palavras vivas, vibráteis... trêmulos seres invisíveis que transitavam da cozinha para a sala, e, depois do levíssimo tremor causado nos objetos da velha cristaleira, deixavam recortes de silêncios no rangente assoalho da sala, e adentravam os quartos. Pairavam, nos instantes da captação sonora, sobre a minha sonolência, despertavam-me para o aroma de guardado das cobertas de tear, e só então, elas, as palavras caminhantes, escapavam pelas janelas, ganhavam o pátio da casa, e por fim, a rua...
 
Mas no aberto da rua, chegavam já amortecidas, sem ímpeto, pois haviam passado deslizando pelas folhas-guardiãs do pé de guiné, e pela lisura de se lamber das folhas e das flores das moitas de alamanda. E no aberto da rua, perdiam-se, missão cumprida!

Assim era o viver na minha casa de descobrir o mundo, assim era o nascente dos meus dias, assim era o meu tempo úbere...

De minha mãe, as doces palavras cuja sonoridade está viva em meus ouvidos transcendentes do Agora; palavras que trafegavam pela casa num afã de desvelar e de instituir sentidos. Palavras que engendravam em mim os primeiros modos de eu me sentir, de eu apreender os nascituros aconteceres da vida.

De outra feita, eram palavras que uma tia, vinda de longe, falava enquanto placidamente amaciava uma folha de alface, quebrando-lhe as já tenras nervuras ao calor das chamas do fogão de lenha — vejo ainda [e agora] o fogo brilhar opacamente através da folha da alface, e sinto o caminhar de sua fala tranquila, ensinadora de suas vivências, indo, ao modo de se derramarem, da cozinha para os meus ouvidos atentos, lá no terreiro de chão batido.

...Ou então, era um primo risonho e falastrão e suas palavras afetuosas, troadas na sala, a narrar para a minha mãe, suas peripécias de laçador de cavalos errantes... ah, outra vez a cristaleira a repicar sons de conversas pela casa!

Palavras... palavras caminhantes pelos inolvidáveis cômodos da minha casinfância; palavras tramadas e guardadas lá, aonde não mais toco senão em ânsias de lembranças, ou em sonhos. Para toda a minha vida, palavras guardadas em algum lugar do tempo úbere que me criou, que me cria...

[Penas do Desterro, 10 de agosto de 2011]


* "Casinfância" - palavra que me foi revelada pelo poeta português Herberto Helder
Carlos Rodolfo Stopa
Enviado por Carlos Rodolfo Stopa em 11/08/2011
Reeditado em 11/08/2011
Código do texto: T3152776
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Rodolfo Stopa
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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Carlos Rodolfo Stopa