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    Sabe, Maria Eunice, eu acredito que não existem bons resultados que sejam obtidos pó acaso. E nem que acontecem para pessoas que não acreditam neles. Um mau resultado, para um espírito sem fibra significa que ele perdeu; para um espírito de fibra, apenas que ele fez errado e deve tentar uma nova forma de fazer. É uma estratégia que deve ser eliminada e não declaração de desistência. O homem de coragem aprende com seus erros; assume-os e estuda os passos errados que deu para não repeti-los na nova empreitada. Com isso reforça suas chances de sucesso na próxima tentativa. Já o homem sem fibra senta-se na calçada, chora e se lamenta pelo leite derramado. Com isso bloqueia sua energia, incapacitando-se para novas ações. Isso quando não assume definitivamente uma condição de fracassado, se anulando para sempre. Gente assim costuma atribuir seus maus resultados aos outros.
Eu, pelo menos tenho isso de bom. Faltou-me ao longo da vida, uma melhor capacidade de discernimento para identificar as respostas mais eficientes que eu podia dar à vida, por isso acho que tenho errado mais que acertado em minhas escolhas. Mas, como dizia, o que tenho de bom é que nunca atribui qualquer mau resultado que tive( e eu tive muitos) aos outros. Sempre achei que a culpa de alguma coisa ter dado errado é minha mesmo. Acho isso porque não posso esperar que as pessoas se comportem da maneira como eu quero que elas se comportem. Penso que as pessoas agem  motivadas pelos próprios desejos e necessidades, e se eu quiser me dar bem com elas tenho que saber o que elas querem e precisam e tentar  compatibilizar minhas próprias necessidades e desejos com aquilo que elas querem.
É eu sei disso hoje e sabia disso naquele tempo em que nós estávamos juntos. Mas saber é uma coisa, aplicar a sabedoria é outra. Eu sabia, por exemplo, que você queria casar, ter uma família, um marido que pudesse lhe dar uma vida melhor do que aquela que você vivia. Alguém que lhe permitisse deixar aquela fábrica de tecidos, que lhe desse condição para não precisar sair de casa todos os dias quase de madrugada para ir à escola e depois ser obrigada a voltar para casa à noite depois de uma estafante jornada de trabalho. Mas essa era uma opção que eu não tinha para lhe dar.Pelo menos achava que não tinha.
 
É. O mundo talvez se pareça mesmo com um conjunto de paralelas que se cruzam em diferentes pontos no universo, e em cada ponto dessa imensa teia de relações, um resultado diferente é obtido. Isso é o que hoje chamamos de Efeito Borboleta, ou seja, a descontinuidade dos fatores espaço-tempo, que nos impossibilita de prever qual será o exato resultado da ação que vamos empreender no momento seguinte. Assim, cada coisa que fazemos gera um resultado que só pode ser obtido naquele exato momento em que o fazemos. Em qualquer outro momento não, por que sempre haverá, para cada instante vivido pelo universo uma diferente conformação. Isso é o que eu chamo de descontinuidade.
Pois é, Maria Eunice. Quando a minha paralela cruzou com a sua havia uma diferente conformação no universo, bem diferente da que existe hoje. Por isso, No estágio espaço- tempo em que nós nos encontramos, os nossos encontros sempre terminavam em frente ao seu portão, com um beijo do qual eu ainda sinto o gosto. Levei meses para fazer você entrar no meu velho fusquinha, o Joca. Se fosse hoje, no estágio espaço-temporal em que estamos agora, teríamos ido a um motel, no terceiro ou quarto dia do nosso namoro, e eu não teria no espelho da minha mente a imagem daquela moça assustada e arrependida de ter entregue a sua virgindade no banco de um fusquinha, para um cara que ainda não era seu marido e nunca tinha dado certeza de um dia vir a ser. E isso lhe parecia ser um pecado sem perdão.

Você se lembra,Maria Eunice, de que eu, uma vez lhe falei daquele conto escrito por um argentino chamado Jorge Luís Borges, chamado O Aleph? Aquele conto onde ele dizia que o universo inteiro, tanto o que já passou, quanto o que existe agora e o que ainda vai acontecer pode ser contemplado em uma esfera de pouco mais de três centímetros de diâmetro? É. Ele estava falando do pensamento de Deus, é claro, pois é só na cabeça de que quem criou o mundo é que ele pode ser descortinado dessa forma, mas Borges acreditava que esses fragmentos do pensamento divino podiam ser encontrados flutuando no espaço, e para quem tivesse uma certa capacidade de visão, ele se tornava visível, como se fosse uma estrela, um cometa, um meteoro ou coisa parecida.
Sabe, Maria Eunice, lembrei disso agora porque eu lhe disse um dia que dentro do Aleph estavam a minha e a sua vida, em suas formas passada, presente e futura. O Aleph é uma espécie de software do universo e ainda bem que não é todo mundo que tem a capacidade de contemplá-lo. Eu, por exemplo, se tivesse esse dom, teria visto você na fila de um Pronto Socorro do SUDS, no futuro, com uma menina no colo e mais dois meninos do seu lado. E você não parecia muito feliz. Certamente teria feito alguma coisa para evitar que aquela visão se concretizasse.
Mas também não sei se o resultado seria melhor ou pior do que esse estamos vivendo agora, voce e eu. Afinal, quem sou eu para dizer se você é feliz ou não? Eu tento justificar com a minha posição sócio-econômica superior a tremenda dor de cotovelo que ainda sinto quando penso que você me trocou por um policial idiota que só queria um emprego público para poder encher uma mulher de filhos.


Eu também, Maria Eunice, me tornei funcionário público. Poderia, se quisesse, encher uma mulher de filhos, porquanto o meu salário é suficiente para criar bem um punhado deles. Mas eu não tive filhos. Como dizia o Machado de Assis, não transmiti a ninguém o meu legado de miséria. Mas não me entenda mal. Eu não sou pessimista como o Machado. Não acho que viver seja uma coisa tão ruim assim. A vida é o que nós fazemos dela. Não precisamos pensar se ela tem um sentido ou não. É melhor pensar que ela tem o sentido que nós lhe damos. A vida é um arco, do qual partem inúmeras flechas, que são as nossas ações. Se elas tem um alvo, é para lá que elas se vão, se não têm, se perdem no vazio. E é isso mesmo que somos, Maria Eunice: eterna setas á procura de alvos. Você tinha um e disparou todas as setas na direção dele. Se valeu a pena, só você pode dizer. Eu continuo disparando as minhas. Quiçá um dia tenha a certeza de ter acertado em algo que realmente vale a pena. Talvez, nesse dia eu não tenha mais vontade de ficar nesta janela, de madrugada, especulando em noite de lua nova. (...)                 
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João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 27/01/2012
Reeditado em 03/02/2012
Código do texto: T3465161
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Anatalino
Mogi das Cruzes - São Paulo - Brasil
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