CINZAS

Para não perder o ponto,
Na paisagem que me espia,
Num faz de conta, acendo o cigarro.
São iguais, a noite, o dia.
Verdadeiro é o pigarro.
Nem o café me salva do trabalho.
Barganho a morte, escondo cinzas
Na caneca de caveira.
Ao meu redor, flores descoram,
Cigarras silenciam.
Tigres no tapete bocejam a metro.
Pirilampos se confundem com os faróis dos carros.
Pés no vácuo.
Mãos ao alto.
Pintaram vermelho o asfalto!
Nas ruas, só os gatos, humanizados,
A cobiçar os pássaros em fuga da cidade.
De malas prontas, as árvores acenam.
Direita. Esquerda. Coturnos. Soldados.
Num raso volver a setembro.
Já nem me lembro do frio no rosto,
Do minuano uivando finados.
Mas isto é novembro...
Antes de outro fim.
O ônibus passa reto e troncho.
Cadê a placa que me indicava o destino?
Rente à cabeceira, o relógio imita o galo.
Sacudo as cobertas e os retalhos da noite.