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UMA PROSA ALENTEJANA!



E é no mais raso do chão que verdeja o verde da erva, que se aquece
ao sol, quando a vedes a perder de vista, por entre reconhecidas planícies
e por entre estames de flores fugidias, aqui e ali subindo e descendo, alguns declives.
Mais lá para o fundo, algumas folhas teimam, em riachos escondidos, por entre as
sombras das árvores, em armar vela, imitando barquinhos de verdade, tendo
como marujos algumas rãs, barulhentas e ainda mais para o desafinado,
aquele seu som tão característico, que delas ecoa e perdura, pelas campinas.
Porém, se buscardes o silêncio, deixando que os sons se vão distinguindo, vede que,
no cimo das poucas árvores, há cantos distintos, que nos maravilham, a cada fechar de
olhos, para ouvir melhor o cantar alegre dos verdelhões, pardais e pintassilgos, e um pouco mais, para dentro dos galhos, as cigarras que encantam, no seu canto repetitivo e
adoravelmente bem conhecido, quanto mais longe de tudo, que as cidades tendem a roubar aos campos.
E como aonde há riachos e rios, há lezírias encantadas, em fôlegos repentinos, de névoa e orvalhada, vindas detrás de amendoados arbustos - e alguns caniçais, é no levantar-se do sol  (ainda apenas miragens, enganando a quem repara), que ainda assim breve se vai assomando,
a imagem, com resquícios de algo, que vem veloz, e eis vão surgindo, ante nossos olhos, negros cascos no galope, de negros cavalos lusitanos, levando e deixando, por onde passam,
numa insubordinação colectiva, mas onde a hierarquia é quem mais ordena, o que a liberdade passando já passou e segue alegre, adiante no correr dos terrenos marginais, daqueles tão
nossos e tão portugueses, riachos alentejanos.
Em cada casa, caiada de branco e de azul, com suas chaminés altaneiras, há heras nas paredes, por entre múltiplos e coloridos vasos, e outras peças côncavas, onde bem ordenadas
se compõem as flores, trazendo adivinhações aos chás, das tardes sem par, que passam bem devagar, até que caia a noite, onde cada um pode sorver, soprando a brisa quente, a aproximação do pôr-do-sol, que vai desenhando silhuetas e promovendo conjecturas, nos chãos de terra batida. Tudo aqui tem seu tempo: o tempo para cuidar dos animais, das terras, levar e trazer a água, aos mais sequiosos; tempo onde tudo se aproveita, até uma bela sesta,
depois do almoço tardio, aqui por estas bandas. E quando a noite cai, recolhem a casa as
pessoas (guardados os animais) e põe-se o caldo ao lume, da lareira de pedra enegrecida,
com umas couves e umas batatas, enquanto se depõem, por sobre a mesa, os enchidos de
carne, o pão caseiro e o jarro de vinho tinto, enquanto perpassam pelos olhos, mais um dia
que ficou lá atrás. Faz-se tarde na lezíria; escutam-se os grilos lá fora, e com os meninos
já deitados, depois dos estudos feitos, desligam-se as luzes do tecto, apaga-se a fornalha, e,
o casal amigo, algures numa casa isolada, no meio da planície alentejana, prepara-se para
se deitar, por entre colchas de bordados, correndo as bambinelas, para que as sombras tragam
o descanso e os segredos, próprios de quem vive em plenitude e feliz, com o que tem,
das conquistas de uma vida, preservada e vivida por meio à natureza.

Jorge Humberto
01/05/15





Jorge Humberto
Enviado por Jorge Humberto em 02/05/2015
Código do texto: T5227739
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jorge Humberto
Portugal, 53 anos
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