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Cismeira

Às vezes eu cismo com umas coisas e perco a hora e a rima. Fico na fila só pra dar vez pra quem está atrás. Pego o trem e corro sentar só pra levantar pra algum tiozinho. Às vezes eu cismo. Viro pedra. Estanco. Não vou pra fila, não pego trem e ainda me sinto espremida, oprimida, pisada e rolo ladeira abaixo levando tudo que encontro. Pedra grande.
Nos dias de cisma eu perco a fantasia, a tara e até aqueles desejos foras da lei ficam estancados. Não serei presa.

Des-cismo e invento palavras. Fico comedida, controlada e calmamente zen. Invento outras palavras, mas elas não têm encaixe. Procuro umas das minhas múltiplas personalidades e dou todos os nomes a elas com as palavras desencaixadas. Elas detestam. Não se movem e eu cismo de novo com solidão. Ando disfarçada de mim para não me notar. Coloco uniforme e me misturo à multidão. Viro parede de grafiteiro. E aí já sou voz. Muda, mas voz. - Alguém me ouviu? - Alguém me ouviu?

Maldita cidade silenciosa onde a única palavra gritada é a da barriga do mendigo. Mas de nada adianta. Todos estão surdos. Cismo com a cisma e fico cismada e cismando com toda essa cisma que me assombra e é minha sombra eu corro pela cidade. Sempre tem um poste com luz queimada. Bom esconderijo. Espero tudo passar. O escuro da noite me acoberta e quase passo incólume. Quase, porque um absurdo vaga-lume cisma comigo também e vem piscar ao lado do escuro do meu escurendijo. E-s-c-u-r-e-n-d-i-j-o. Palavra nova. Gostei. Maldito pirilampo.

E o trem passa e o velhinho senta e eu volto pra casa com a certeza do dever cumprido. Nada fiz outra vez. Perfeito para qualquer dia de cisma. E tome botão de elevador. Aperto todos só para irritar quem está esperando lá embaixo. Tung. Tung. Tung. Todos os andares fazem tung, não sei como o elevador sabe qual o tung que eu devo descer. Nem eu. Mas cheguei. O quarto é o mesmo que deixei de manhã. Será que as coisas não saíram pra brincar nem um pouquinho? Que dia triste para elas. Eu gosto quando as coisas ficam fora do lugar que deixei. Sei que elas se movem, saem pelo quarto para cismarem umas com as outras e se esquecem onde estavam e se atrapalham. Adoro dar esse flagrante nelas. Tontas!

Quase morro de susto ao me reconhecer no espelho. Sou obrigada a ter uma certa intimidade comigo mesma, acabo conversando e até me divirto. Às vezes sou engraçada sem rima e fico sensibilizada com esse meu contato humano. Hora de centrar. Dormir é sempre um tédio, mas necessário. Todo o necessário é entediante? Penso depois. A sexta-feira já é e eu também sou e nada de cismas nas sextas-feiras. Traz má sorte.


[Antigas Óperas de momentos sempre atuais]

http://versosprofanos.blogspot.com/
Maria Quitéria
Enviado por Maria Quitéria em 24/08/2007
Código do texto: T622055

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Sobre a autora
Maria Quitéria
São Paulo - São Paulo - Brasil
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