Afogado
 
Era um naufrago a tentar me agarrar a minha âncora. Sem conseguir, a agonia me tomava e  imerso no furor das águas abissais e profundas, sob os meus olhos via toda a eternidade de minha vida naquela instante, trêmulo, sem conseguir mais alcançar a margem, estava vencido pelo grande organismo e preste a sucumbir e a submergir. Naquele instante senti a agonia dos afogados, tomado  de pavor e desespero. Tentava navegar até a bóia de sinalização... Mas ela sumia e cada vez mais era arrastado com força para dentro do alto mar, em definitivo estava a esmo e já não tinha forças, a correnteza me conduzia indiferente rumo ao destino final.  O céu azul, terrivelmente azul e um mar verde infinito e ameaçador era as únicas visões ainda tinha; A água salgada já penetrava os orifícios de meu corpo, estava a mercê das correntes, agarrava-me a nada, era nada, um minúsculo ser que saiu dali a milhares de anos e que retornava a contragosto  aos domínios do Oceano... Ainda avistava ao longe  a praia e pontos minúsculos era a última visão de seres terrestres que até pouco fui, agora como um ser aquático a contragosto estava distante da terra firme e do mundo que me era familiar ... Ensaiava um grito de socorro  mas estava longe e já não tinha forças , descia lentamente e subia ... não tinha mais consciência .... Em definitivo era presa desse imenso sarcófago que um dia foi tão meu... Tão familiar... Mas que agora me era estranho, totalmente estranho, ameaçador e assustador e indiferente ao meu desespero, cada vez mais me levava pra dentro de suas abissais entranhas...  Eu um morto-vivo me estrebuchava, me mijava, via  seres passarem em minha frente, arraias, , peixes outros que nunca vi, via como num filme o rosto de todos os afogados que conheci, já definhava e cada vez mais descia, mas de repente voltava a subir em louca agonia... Já não via a praia, já não via nada, nem a bóia nem a mim mesmo... Era apenas mais um afogado a desejar apenas que a morte acabasse de vez com aquele sofrimento, desejava apenas que o grande organismo me engolisse de uma vez... o pânico de querer salvar-me foi substituído pela vontade  de que aquele desespero tivesse um fim...já não tinha como me salvar, a salvação já não existia...era mais  um afogado condenado a morrer, sem salvação.  
 
Labareda
Enviado por Labareda em 19/03/2018
Reeditado em 21/03/2018
Código do texto: T6284891
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