ENSINAMENTOS DE PAI


Onde quer que esteja, sua bênção, Meu Pai!

"Era silencioso o amor. (...) Lia-se o amor no corpo forte do pai, no seu prazer pelo trabalho, em sua mansidão com os longos domingos.(...) Experimentava-se o amor quando, assentados no calor da cozinha - pai e mãe - falavam de distâncias, dos avós, das origens, dos namoros, dos casamentos. E, quando o sono chegava, para cada menino em cada tempo, era o amor que carregava cada filho nos braços para a cama, ajeitando o cobertor por sob o queixo." (Bartolomeu C.de Queiroz, in INDEZ)
 
     Meu pai, tão pouco afeito a demonstrações de afeto, me ensinou coisas fundamentais na vida, principalmente a amar a delicadeza e a sinceridade dos gestos, muito mais que as palavras.
     Ensinou-me ver a vida com leveza, com desprendimento, com a lucidez necessária para tentar ser justa. Ensinou-me que é possível viver a vida a cada dia, sem grandes planos para o futuro, vivendo apenas...
     Ensinou-me a não temer, a falar alto quando necessário, mas também a ter compaixão e a ser solidária com a dor e a necessidade alheia. Ensinou-me a montar um cavalo e a tomar as rédeas de minha vida e assim me fez compreender a vida, a ver beleza na simplicidade, perceber a delicadeza do rústico.
     Ensinou-me o amor incondicional aos bichos. Quantas vezes não o vi sofrer com a agonia dos animais na seca, lutar para salvar um bezerrinho que nascia numa noite de chuva, realizar o parto difícil de uma vaca! Nunca esqueço: quando um dos nossos cavalos foi roubado, moveu céus e terra para reencontrá-lo! A imagem de meu pai recebendo aquele pangaré rosado de volta, o favorito de suas filhas e filhos é uma das lembranças mais felizes que guardo da minha infância.
     Ensinou-me o respeito ao trabalho, o afeto para com os nossos e a lição da bravura, sem medir as consequências. Quantas vezes não rezei quando saía com alguns trabalhadores para ajudar a apagar as queimadas que pipocavam durante as secas, nas terras dos vizinhos! O quanto não me assustei quando soube que se jogou no rio, já não tão jovem, para salvar um vizinho, pego de surpresa, por uma enchente!
     Ensinou- me a alegria das coisas boas e simples. Gostar de comer bolo de festa, leite cru e coalhada em jejum, tomar banho de açude, ouvir aboios e moda de viola... Lembro que acordávamos ouvindo o rádio ou com ele cantarolando aboios, mal o dia raiava.
     Ensinou-me que viver pode ter essa simplicidade. Ser honesto, franco, cumpridor de seus deveres e atento para ser respeitado em seus direitos nunca foi problema nenhum para quem fez opção por todos esses princípios e valores.
     Onde quer que esteja, sua bênção, Meu Pai. Quero continuar aprendendo com o senhor a lição de ser feliz a cada amanhecer. Continuar aprendendo a ver o mundo com os olhos encantados da simplicidade, do respeito ao meu semelhante. Continuar aprendendo a ser gente, Meu Pai.
 
*reedição