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SE EU AO MENOS PUDESSE
Lilian Maial


 
 
Se eu ao menos pudesse te dizer da maldade que se apoderou dos homens...
É como se subitamente fosse autorizado liberar o que vive de pior nos recônditos de cada um, colocar em prática os sentimentos mais mesquinhos , deixar aflorar a selvageria.
Aquela linha que define a humanidade, a tênue linha que separa o que se pode fazer e o que não se deve, essa linha parece que se soltou, que foi apagada, que arrebentou.
De repente, não se sabe mais o que esperar do outro, até onde ele seria capaz de chegar. Os impulsos, os desejos, os recalques, as vinganças, os bodes expiatórios, tudo misturado, bailando num oceano de aflições.
O mundo está repentinamente dividido.
Uma bruma sufocante foi baixando e se embrenhando nos grupos familiares, nos grupos de amigos, nas vizinhanças. As diferenças passaram a soar como espinhos incômodos, e os que pensam de maneira diferente, como inferiores descartáveis.
Não há mais certo e errado, tudo é relativizado, na medida dos interesses dos privilegiados, que não enxergam o próprio privilégio.
Eu queria te contar das artimanhas, das intolerâncias, dos regozijos com a desgraça alheia. Mas não me cabe explicar o inexplicável.
Inadmissível o olhar de desprezo sobre o destino do irmão diferente.
Impraticável a agressão aos defensores da simples igualdade de oportunidades.
Não falo de religião, fé ou facções. Falo de seres humanos que deveriam se sentir como um só, filhos da terra que todos somos, fraternidade adquirida ao nascermos humanos.
O que foi feito do ser humano, que incentiva o sofrimento do seu semelhante, que se alegra com a derrota dos direitos dos menos favorecidos, o que aplaude o extermínio da compaixão, o bom moço que vira o rosto diante da miséria e da exploração do seu igual?
Onde foi parar o invisível código de ética, a intrínseca moral, a civilidade?
Não sei o que esperar do futuro, com o homem querendo dizimar o homem, com o desrespeito aos velhos, aos pais, às mulheres e às crianças, com a midia incentivando e promovendo o ódio, a perseguição e a manipulação.
Eu queria te trazer boas notícias, que voltamos a sorrir com todas as cores, que a liberdade nunca esteve ameaçada, que o povo está unido pelo bem comum, que as mulheres estão lado a lado lutando, conquistando seu direito de ser, parindo ou escolhendo não parir. Que as crianças estão crescendo saudáveis e protegidas, que a verdade lidera as pesquisas, que a terra devolve, em alimentos, o respeito que recebe de seus habitantes.
Queria te entregar um novo ano com a volta aos caminhos do amanhã. Que as grades se dissolvessem, que as algemas se abrissem e que o sol pudesse novamente ser sentido livre pelas ruas.

 
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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 19/05/2019
Código do texto: T6651362
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lílian Maial
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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