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Tamarindos

Hoje sonhei que estava indo à casa de um amigo muito especial. Era preciso chegar rápido, mesmo que eu não soubesse o porquê. O caminho pelo qual eu dispunha era selvagem. Por vezes era preciso atravessar pequenos riachos com pedras; outrora eram cipós que atravancavam meus passos; galhos secos caídos; subidas e decidas; barro e mata fechada. E como se não bastasse, alguma coisa me pedia para correr. Correr com toda a força que eu tivesse. Busquei no mais profundo do meu ser a força inspiradora para aquela corrida que me parecia vital e talvez definitiva.
Sentia passar nas minhas veias um sangue mais quente que o normal. Era como se fosse o sangue dos mais fortes dos animais; da mais veloz e furiosa criatura feita por Deus. Meu corpo se transformara numa fera que era capaz de tudo para proteger os da espécie.
E por fim a casa se descortinou por entre a mata. Ela ficava num morro, cercada de árvores em pleno outono. Uma casa de portas, janelas e contornos disformes, porém, belamente envernizados. Tudo era limpo. A não ser pelas folhas de tamarindo... Sim, um enorme tamarindeiro com seus longos galhos que se retorciam por entre os cômodos e a mobília.
A luz se intersticiava por entre as folhas e frestas fazendo crer que a casa não possuía telhado. Uma clareza surpreendente! Por todo o tempo em que fiquei na casa choviam folhas de tamarindo, que caiam dos galhos carregados de favas no ponto de serem colhidas, descascadas e comidas.
Os tamarindos sempre me fizeram salivar, mesmo sem saboreá-los. A sua acidez e o seu gosto rebelde é algo que, ao mesmo tempo, seduz e repudia. Não agüentei. Me coloquei a descascar e a comer as frutas, que para o meu deleite, estavam divinamente doces. Um sabor inigualável, que fazia a pôpa da fruta escorrer pelas mãos e pelos cantos da boca.
Mas, e o meu amigo especial? Onde estava? Afinal, para que eu haveria de ter me apressado tanto? Tudo naquele lugar era paz. Uma beleza particular confundia os meus sentidos. Meu coração estava tranqüilo. Mas eu sentia falta do meu amigo. Ele devia estar ali. Foi para encontrá-lo que eu estava lá.
Acordei deste sonho sem encontrar com o meu amigo e sem respostas para tantas perguntas. Sejam perguntas sobre minhas habilidades para a corrida; sejam sobre os tamarindos incrivelmente doces, sejam para as folhas que sempre caiam do tamarindeiro...
Penso que este sonho seja uma metáfora da saudade: onde o coração e as lembranças vivem a correr sem se cansar, em busca daquilo que nunca está, e que, nem por isso, desistem.
Acredito que este sonho, também seja a metáfora da amizade: que é realmente ácida como o sabor das frutas silvestres; suavemente poético como as folhas que chovem ao outono; absolutamente doce como amor das pessoas que você, mesmo sem encontrar, acredita existir.
Mauro José Ramos
Enviado por Mauro José Ramos em 05/10/2007
Código do texto: T681581
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Sobre o autor
Mauro José Ramos
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Mauro José Ramos