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                               FRAGMENTOS E CISMARES 12



              [RESPINGOS E UMA GARRAFA AO MAR]





Lancei uma garrafa ao mar. Mar de Ilha Bela. 
Faz muito tempo, mais de quarenta anos. Praia dos Sonhos.
No papel de pálido azul e decalcomanias de miosótis, escrevi uma mensagem:


             "Só teus abraços me abraçam, só teus beijos me beijam".


Era meu primeiro amor e acreditava nas palavras que escrevera para o rapaz que eu adorava!
Foram verdade por quase cinco anos, duração daquele jovem amor. Faz tanto tempo e ainda hoje é acalanto.


Será que alguém a encontrou? Repetiu a frase da mocinha apaixonada?
Gosto de pensar que não... que ela ainda repousa no fundo do oceano junto aos cardumes coloridos, cavalos-marinhos, seres fluorescentes, cipréias, estrelas-do-mar, baleias, pequeninos animais disfarçados de flores aquáticas, esponjas incrustantes, relíquias de navios  e, quem sabe, sereias azuis abraçadas a Netuno.  Sendo ele filho de Cronos, o Tempo deve ser outro no mundo submarino, ter dimensão especial, diferente intensidade do que parece ser breve no mundo terrestre... Gosto de pensar que um dia aquela mensagem chegará às mãos do antigo namorado.

Há gotículas oceânicas em meu olhar, a nostalgia... claro aspecto de ressaca, de noite mal dormida, grãos de areia incomodando os olhos. 
Mergulho no conhecido enredo, como a buscar  minha garrafa ou algum outro tesouro que ornamente melhor a vida neste estágio de outono.


Baixo as pálpebras.
Sopra o vento marinho do passado, eternizado e vivo.

Ao coração saudoso de jovialidade misturam-se muitas águas profundas, respingos salgados que chegam ao descascado ancoradouro. 
Foi tudo tão bonito, não foi?
Faltou-nos urdir aquele tempo, tecer nossa teia.


A bruma desce no fim de tarde e eu espero.
Talvez o deus de negra cabeleira e tridente na mão erga-se das águas e num ato de benevolência pouse minha garrafa numa onda, a boiar de volta até a areia, com abraços que me abracem e beijos que me beijem. 

A fantasia navega em ondas.
E não é bom?
Se até o mar nos respinga, por que não os que nos amam, aqueles que nos amaram e que amamos um dia?
Acontece.




           
[para Luiz Roberto de Souza Pires, onde quer que esteja.]





 Imagem:  Google

KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 05/10/2007
Reeditado em 19/05/2015
Código do texto: T682046
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
KATHLEEN LESSA
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