Eu escrevo mau?
 
Por desejar tão somente esta resposta:
— Sim, você escreve muito bem! Não há muitos dias, lembrou-me fazer àquelas pessoas que dizem estar a viver bem no mundo dos homens, e no das letras afirmam se sentir à vontade, a seguinte pergunta:
   
Eu escrevo mau?
 
Respostas divergentes houve, e houveram, apoiadas em palavras evasivas; com efeito, fui perdendo a graça ao ouvi-las, uma a uma, pois houve algumas que me deixaram muito embaraçado, logo, nenhuma me trouxe alento; por ter sido assim, não consegui dissimular o meu desapontamento diante daquelas pessoas; então para encontrar algum alento, a mim — para quem não deixo de inclinar olhos complacentes — fiz a mesma pergunta, ou antes, depois de uma pausa à reflexão, fiz a seguinte indagação, que “mais bem” apropriada seria para ensejar respostas melhores e desejadas:
 
Eu escrevo bem?
 
Para tal questão houve esta resposta:
— Às vezes, ou para melhor dizer, muita vez o fazes por excesso de confiança nas letras, ou por não distinguires bem o perfume da última Flor do Lácio...
Depois desse confuso alento, mais atento, de contínuo, continuo a deixar no papel, entre letras e outros signos, as pegadas dos meus erros, contudo, por conhecer as minhas limitações, para suportá-las, a duras penas, da pena não desisto...
Naturalmente, não gostaria de escrever mal, logo, logo, ou o quanto antes, para evitar este mal, o já escrito, revejo; e por tantas vezes, o faço, que depois de fazê-lo, por vezes, apesar de tanto rever depois de escrever, reescrevo mal; mas esta consciência tenho:  por todas as vias, todavia, não passou as minhas revisões, mas, ao fazê-las, tanto fiz bem, que mal não reescrevi, com efeito feito, para ficar mais bem escrito, deixei no lugar do mau o mal...
Mal ou bem continuo escrevendo, embora saiba: aqueles que bem me leem me bendizem menos, e mais me criticam, e até, com maior frequência, desprezam os meus escritos; entretanto, entre tantos que mal me leem, a maldizer-me menos, há mais... Mas, daqueles e desses, por escrever, ou até por simplesmente querer criticar, recebo críticas várias; entre essas, poucas me trazem algum incômodo, contudo, entre essas, há pouquíssimas que, sobremaneira, me incomodam, quais sejam, as construtivas, pois, por minha deficiência, não consigo entendê-las como tais...
Nessa situação, só de falar ou de me lembrar das minhas eivas, eivo-me mais, pois ao tentar me esquecer daquelas críticas — as tais pouquíssimas — mais escrevo mal, pois repito palavras palavras, ou até, troco suas eltras; portanto, por tanto ser rica e grande a língua de Portugal, com muita dificuldade, a deito no papel, e não com menor esforço, a mantenho de pé, nesta tela, deixando-a, quase sempre, órfã daqueles seus adjetivos...  
Pelo dito acima, posso dizer o que abaixo, haverá de ficar:
Algumas pessoas me criticam, pelos meus textos; outras, sem nenhuma pena, os desprezam; poucas, quando não, pouquíssimas apoiam a minha faina ao me envolver com as letras. Isso eu sei, por que sei, que de outrem, amiúde, desprezo os escritos. Se tenho liberdade para aceitar ou desprezar os escritos de outro escritor, não poderiam quaisquer leitores de igual forma, tratar os meus escritos? Sim, poderiam! Mas, não poderiam me criticar, pois, criticar, bem sei que bom efeito não traz; assim penso! Entretanto, nem sempre — embora não devesse fazê-lo em tempo algum — não consigo cultivar os meus próprios preceitos, pois, ainda que vez ou outra o faço, algum tanto, critico o trabalho alheio; porém, não com menor zelo, muito tenho me empenhado para não mais fazê-lo.
O ideal é que não houve críticas, ainda assim, devo desprezar o escritor mau?
— Sim, e às pressas.
E com os escritos dele, o que devo fazer?
— Hei de desprezá-los sempre; uma vez que, o mau por se opor ao bom, o bem jamais urdirá, com efeito, mal feito sempre fará.
Devo acolher sempre o escritor bom?
— Nem sempre; nem mesmo por gratidão, ainda que grande fora o favor recebido, pois, não por deliberada maldade, boa obra poderá não conceber.
E quanto à obra do mau escritor?
— Antes de julgá-la, note bem! Algo de bom poderá escrever o mau escritor.
E quanto à obra do bom escritor?
— Toma tento! Algo de ruim poderá ela encerrar.
Quanto a mim, julgaram-me bem nascido, tanto é verdade que sob a sua própria luz, o próprio Sol, assistiu, sem poder se eximir, darem-me à luz, e em seguida, deram-me Eugene por nome próprio. Por ser verdade, devo repetir a contragosto: fui bem nascido, mas, mal criado fui, e por essa falha, sou malcriado, e mau criado seria, se me tomasse por servo, algum imprudente senhor, logo, logo, ou em qualquer tempo, não terei dúvida: nem sempre escrevo bem; mal não desejo fazê-lo, com efeito, entre os meus escritos, há sempre quem despreze um ou outro, ou interesse tem até para mais de um.
Vê bem! Se houver dúvidas entre aqueles que têm bons olhos para ler o que estou a dizer por escrito, proscrito deixem este texto, pois, o escrever bem ou mal, não está apenas, sob as minhas rédeas, mas, tenho sob o meu jugo, o querer, e até para o meu próprio bem, escritor mau, não quero ser; logo, ou desde antes, penso: se por ser mau escritor, for esquecido, esquecer a desfeita tentarei, mas, ainda que não seja muito afeito aos gerúndios e às rimas, a escrever continuarei, com a esperança de que jamais, um escritor mau serei.
 
Agora sim, não tenho a menor dúvida!
Desta vez, e de vez, tornaste-te incauto.
Nesta página, há tantos títulos seguros sob teus olhos, e nenhum deles, em ti suscitou algum interesse?
Creio que não, pois, por menos cautela que estavas a ter se ater lá, quiseste mais. 
Navegavas a esmo?
Sabe! Ao ancorares em um porto desconhecido, entre os males que por lá há, podes encontrar uma ou outra causa de tenesmo...

 













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Eugene Garrett
Enviado por Eugene Garrett em 09/02/2020
Reeditado em 09/02/2020
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