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A partida.

Naquele dia choraram desesperadamente. Choraram porque não restava mais tempo. E se tempo não havia... Não era lamentação. Era medo. Medo de um futuro  tão próximo e despreparado. E distantes... Medo de não mais ver; medo de sentir tanta ternura que um suspiro transformasse em vento todos os anseios e saudades. Choraram porque se amavam.

A névoa negra invadiu a casa, balançou as cortinas e disse suavemente que trasnformações viriam. O futuro os testava...brincava com sua sorte, com suas convicções, balançava o amor e a firmeza de cartaér que os unia. O futuro desmoronava céus e tetos... O futuro previa coisas que chegariam... mas ainda, ainda...

Ele recostou as mãos sobre seus ombros fatigados, limpou uma lágrima que, teimosa, tratou de cair. Viu a lágrima desmoronando dos olhos e pensou num prédio de possibilidades, implodido no auge dos corpos e hormônios. Sentiu seu cheiro indeciso, como se quisesse guardar seu rosto no rótulo e o aroma num frasco. Balançou seus cabelos como sempre fez, bagunçando-os. Queria-a bagunçada; não desmazelada. Era uma forma de dizer "adeus", sem dizer....

Era uma forma de dizer a Deus que ali estava: tatuado em marcas elípticas no corpo, em rabiscos na alma ainda menina daquela mulher já apaixonada. Deixou que os olhos, enfim, camaleões, ficassem verdes. Deixou que os olhos, então se manifestassem... Primeiro: medo. Depois, uma lágrima ausente que teimava em não cair, por masculinidade. Um abraço, apenas... Um aeroporto, umas malas poucas, a geografia que teimava em os separar e os unir... a geografia.

Olhou os aviões subindo... o céu nublado e fresco... a brisa aconchegante que lhe enlaçava como amiga e confidente dos próximos dias. Olhou os olhos dela, as bolotas negras e os cabelos curtos, louros, desbotados pelos sóis de dias intensos e felizes...

Sentiu-se junto. Sentiu que seu coração não se partia - se repartia. Era agora um pedaço de homem dentro de uma mulher no mundo... Era agora um pedaço de coração de mulher perdido em todas as suas partes, concentricamente. Eram agora: um homem, uma mulher, um avião, dois corações remendados por hipóteses e incertezas... Eram agora o amor distante... mais unido que antes. Eram eles... Sim, eram pedaços unidos por um gostar flutuante, nas nuvens de um céu rasante.


[Inês Martins]
Inês Martins
Enviado por Inês Martins em 14/10/2007
Reeditado em 14/10/2007
Código do texto: T693874

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Sobre a autora
Inês Martins
Goiânia - Goiás - Brasil
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