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O Cobertor

Ainda embrulhado, mas já desperto, pareço um presente que aguarda o seu dono vir buscá-lo. Cruzo os braços impacientes e peço, suplicante, que o barulho lá fora cesse – minha janela é uma porta para o inferno, e eu odeio girar maçanetas e abaixar trincos. Não há sol; apenas nuvens demasiadamente esbranquiçadas, quase inexistentes. Acho falta de respeito do céu. Como oponentes que se unem para uma vingança comum, somam-se os ruídos e, lá fora, acontece agora um festival de ofensas sonoras, não necessariamente lexicais porém estritamente lixo.
Ainda embrulhado, levanto meu corpo e o obrigo a caminhar em direção ao café com creme, ao dicionário, ao vaso sanitário, ao telefone, e aí paro. Reconheço a voz, memorizada a frase -  programação incorreta, favor consultar o manual - e desligo, oblíquo, porém contido. Raiva passa.
Ainda embrulhado, retorno ao quarto - corpo e mente já concordam com o destino – e, novamente, deito e, infelizmente, volto a dar ouvidos aos palavrões sem sentido do cachorro, dos vizinhos, das máquinas identificáveis, dos automóveis desconhecidos, do cantor que eu não tolero. Continuo a esperar meu dono, como um presente que o aguarda, desperto, que tem o seu invólucro como o mais fiel dos companheiros...
Teco Sodré
Enviado por Teco Sodré em 11/11/2005
Código do texto: T70218


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Sobre o autor
Teco Sodré
Salvador - Bahia - Brasil, 42 anos
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Teco Sodré