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Sobre a Inevitável Leveza das Horas (ou Em Movimento)

Passeia afiada. Precisa. Lisa sobre a aspereza. Leva consigo tecido, células e perfume. Passeia irracional, repetitiva e insistente. Brutal e sensível, como eu. Maquinal e fria. Desumana e sociável. Impiedosa e útil. Passeia em dança antiestética. Antiestática. Superficial. Decepa o que a é alcançável, lâmina. A fronte, então, brilha. Reluz. Lisa. Pronta. Barbear-se é, definitivamente, um ritual.
Olha-te, agora. Repara-te, mas repare-se além. Tente em progressão romper o virtual e conectar-se ao teu eu superfície. É este um ritual diário, que atrapalha este movimento; mas é também diurno, o que ajuda. Nunca somos tão nós quanto quando nos primeiros minutos. Decerto, tu não te lembras do ontem. Decerto, tu não te lembras nem do agora. Decerto, tu presenciaste, mas não notaste o nascimento das tuas primeiras rugas. Nem das mais moças. Quantas vezes não foi se barbear pensando no sonho que agitou teu sono? Mas não se lembra agora de nenhum.
Faça o seguinte: espalma tua mão ao nada. Afasta os dedos em suave prosa. Deslize, plane, tateie a massa do ar. Subjugue por alguns segundos a gravidade do mundo. Mergulhe à tua frente, em pequenez, mas precisão. Que tu vês? Repare: são as horas imedidas e desmedidas. É o passar do tempo brincando nas tuas mãos. Pelas tuas mãos. Gozando, despretensiosa, da tua vaidade. Pois é tudo uma questão de vaidade. Não?
Vê tuas veias. Saltitantes. Teus pelos. Teus poros. Perceba que, um dia, nada foi. E que, um dia, ao nada voltará, e será. Que tu farias com uma máquina do tempo? Que tu farias se tivesse que viver tudo outra vez, exatamente como antes? Devaneie pelas bactérias da tua carne. Pela imperfeição do teu desenho. Teu contorno imaginário.
Há quanto tempo tu te barbeias, da mesma forma, com os mesmos movimentos, todos os dias? Que passava pela tua mente ontem, enquanto cumpria, religioso, teu ritual? Quando foi que passou fazê-lo todos os dias, e não em duas, três vezes à semana? Qual era o dia da semana quando, orgulhoso, tu o fez pela primeira vez? Que tu, em passado arquivado, queria ser quando crescer?
Pensamentos, enfim, passageiros. Neblina distante sobre a qual tem-se alguma impressão, algum cheiro. Pensamentos, enfim, transeuntes. Escorrendo assimétricos e constantes pela inalcançável cama do tempo. Reclinando-se, sem conforto, na ingratidão transcendental.
Nossos dedos, nossas janelas, nossos pelos. Nossas camas, mulheres e manhãs. Todas as coisas que nos faltam, em ciranda perversa. Sem mãos e de mãos dadas girando em sentido horário. Perverso relógio.
Nossos rituais, carnavais e cervejas. Nossas calças diárias, orgasmos e cigarros. Temperos e condimentos, e ingredientes sem sabor. Entrechocando-se em harmonia estranha no caldeirão da vida, do mundo, do espaço-tempo. A mão invisível da fortuna nos há de preparar. Mas quem há de comer? Quem há de nos saborear e saboreia neste cruel e infindo devir? A mão gorda da fortuna nos girando em... sentido... horário... zunindo, altiva, Ode To Joy.
Então, caro caminhante, estás pronto? Estás preparado? Melhor que não esteja. Melhor não provar da tal maçã, que nem é maçã. Olha-te ao espelho outra vez. Reluz? Desliza? Estás pronto? Então vá por as calças. O dia te espera, ou não.
Diogo Nunes
Enviado por Diogo Nunes em 08/11/2007
Reeditado em 15/11/2007
Código do texto: T728887

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Sobre o autor
Diogo Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 33 anos
48 textos (2580 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/12/17 11:41)
Diogo Nunes