MÃOS VAZIAS

– Por que a senhora não pode ler as minhas mãos ?

Perguntou o homem, vestido de languidez, à calejada profissional.

A leitora dos destinos e trajetórias manuais, assim respondeu:

– Em suas mãos não existem linhas, apenas um ponto opaco, quase invisível.

– É que sempre tive uma vida reta, certo?

– Não! É sinal que nunca vivestes. Nunca percorrestes as linhas da vida, derrapastes nas curvas, tropeçastes nas pedras, contemplastes as paisagens. Apenas ficastes parado no tempo e na estrada.

– E isso não é bom? Alguém que nunca errou?

– Não percebes que cometestes o maior erro de todos?

– E qual seria?

– Deixastes de viver!

Disse–lhe, sentenciosa, a senhora. Em seguida arrematou:

– Vais e procuras percorrer a estrada, pois ela se constrói todos os dias, a cada novos passos que deres. Mas é necessário que dês o primeiro.

Então, o estacionado homem percebeu.

Por ter apenas vazios nas mãos, não poderia exigir um retorno da vida pelo tanto que não lhe dera.

Envergonhado, quis pagar.

A senhora recusou.

Sua dívida não era para com ela.

Agradeceu.

Entre desculpas e constrangimentos,

ainda houve tempo de lhe fazer uma ingênua pergunta:

– A senhora disse que não pôde "ler" as minhas mãos, mas fez uma leitura de mim. Como é possível se és uma quiromante?

Ela, em tom didático, completou sua lição:

– Minhas habilidades me ensinaram a decifrar as linhas das mãos.

– Minha experiência, a ler as suas entrelinhas.

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Leonardo do Eirado
Enviado por Leonardo do Eirado em 08/04/2022
Código do texto: T7490641
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