Trilha

Ela sabe que está lá, nesse lugar de onde vem esse som que bate numa mesma tecla, parece um dó... uma dó. Ela sabe que, apesar da neblina, não está só, que nesse céu de um azul distante, inalcançável, se esconde uma boca que chama por ela. Ela sabe porque tem sede, tem fome, porque arde por dentro, sabe porque respira, transpira e seu corpo, na dormência dos gestos, exige vida. Ela segue a trilha e o som cada vez mais perto replica em seu coração, a cada toque desfaz um pouco a neblina... e são paisagens que não reconhece mais, vozes em outras línguas, outras salivas lacrando o seu pensamento, intocável... as folhas secas entregues à correnteza de um rio, corrente e presa, presa corrente, represa... ela guarda tudo por dentro, raiz branca revolvendo sua terra preta, água turva, mãos sujas num rosto sereno... no olhar de regresso um calor na superfície fria, um inverno, um verão, um sol que chora por trás da neblina, por trás da janela, depois do último apito, da última curva, uma estação depois, depois da manhã com gosto de chuva.... ela está lá, além da neblina a menina tocando a trilha e o corpo pequeno curvado e liso, no mesmo andamento, mal toca o chão.