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Conto 8




A cordilheira recolhia os rápidos onde a água se convertera da neve. Por detrás, um clarão repercutia-se do céu ou prenunciava a noite a explanar-se pelo estuário, sugerindo o oceano extinguir-se na planície.
Antes, muito antes, ainda distante da foz, de um pequeno barco que acostara a estibordo, só o luar fora testemunha. Talvez não fosse um barco; o real, em determinadas circunstâncias, assume contornos misteriosos, e das referências na noite não há precedência.
A mulher, que decidira viajar para lugares apenas possíveis no propósito a que se oferecia, escutava o rio, e as suas atitudes afiguravam-se como actos de moderação. Os velhos temores: o medo, o pasmo, o poder e a morte confrontavam-se dentro de si ante o desconhecido e o maravilhoso, conferindo à existência o carácter mágico.
Da margem, o encantamento estava nas árvores ao sabor do vento. Uma flor nascera no areal e a mulher, que poderia ter passado e não a ter visto, dirigiu-se-lhe. Da antiga casa em madeira, o homem entrado nos anos assomou-se, observando aqueles seres com ternura.
Dias antes do roçar do rio, onde o leito acolhe as aluviões, o velho dissera-lhe saber segredos intermináveis. Contou-lhe que muitas coisas lhe tinham acontecido ao longo da vida, e que o mar lhe revelara segredos únicos. Já não sabia a idade, mas era, sem dúvida, menor do que os segredos a que tivera acesso.  Por detrás da noite e dos dias, do tempo em que os deuses não existiam, os homens precisaram de criar metáforas para revelar tempos ulteriores, e assim as histórias descreveram factos que se revelariam através dos hábitos, na esperança de que o homem olhasse para si mesmo e se revelasse.
Mas isso era um caminho senão o destino de cada ser. Agora, comentava o antigo homem como só uma força ininteligível a teria impulsionado para junto da flor. Poderia portanto falar, conversar com ela, acariciá-la, destituindo-se da importância que a si própria atribuía como pessoa. O sentimento era tudo o que importava quando se dialogava de igual para igual com uma flor e, se precisasse de a usar, de a colher, teria de lhe solicitar permissão, pois haveria de chegar o tempo em que o seu corpo também seria para as flores o alimento.
A mulher desajeitadamente assim fez. Primeiro hesitou, depois articulou alguns sons, não obstante a voz prendia-se-lhe. Estranha e ridícula. Ignorar o mundo civilizado ou entender o real não era tarefa fácil. Falar com as plantas exigia simplicidade, sentir o que elas lhe diziam exigia pureza de coração.O  homem sabia o quanto cada gesto, cada acto, provinha dessa força inexplicável, e olhou-a de catadura como quem olha o rio que à frente se espraia, disponível a todos os homens.
Que poder era esse que, sem nome, era a origem de todos os seres e no entanto, capaz de se conceber a si próprio?
Àquela hora, a brisa que se fazia sentir era para a mulher como um costume da memória; porém diferente, diferente na sua maneira de estar e sentir, o que lhe permitia reunir esse poder e dele tomar consciência. Na fresca aragem, adivinhavam-se as nuvens sob o céu à medida que o final da tarde se aproximava e a cordilheira perdia os seus contornos. Uma névoa descia branca, revestindo a floresta, as enseadas, os desfiladeiros. O vento, o frio, a paisagem, eram a sensação que se mesclava com a beleza, com o assombro e a existência. E ainda que um dia ela tivesse possibilidade de usar esse poder a seu bel prazer, só conseguiria doá-lo a quem o empregasse na busca pessoal.
Da enseada, o pequeno barco partia rio acima. Uma ave fez um voo raso, subindo aos céus. Assegurou-lhe o velho homem, talvez por ver o voo da ave, que a força ou poder a que se referira era uma sensação que se tinha sobre algumas coisas. A mulher, que caminhara através da planície, porventura tão somente pressentira a sua existência, mas com certeza necessitaria de se familiarizar com aquela força indescritível, numa constante vigia, já que cada árvore, cada flor, cada ave, poder-lhe-iam contar os seus segredos.
Sentados à porta da velha casa, aludia ela ao mundo de onde viera, porque dantes essa sensação não fora compreensível, se bem que de algum modo não lhe fosse estranha. Sequer sabia o que acontecia dentro de si e como acontecia. É verdade que outrora não o entendera, pois tudo o que fizera jamais tivera significado, transformando-se em mera rotina ou em algo pessoal.
Quando o nevoeiro envolveu o rio, o barco fazia parte do rio distante. A luz vinda da janela da pequena casa de madeira concedia ao areal um quê de acolhedor, de presença, da tépida brisa, do largo luar, da ondulação das águas nas noites de verão. Depois, observaram o fiorde sob a luz que o sol doava à lua. Ao raiar do dia, já estavam no planalto que se estendia a uma vereda, a qual os levaria na direcção da cordilheira; e se não se soubesse o acto preciso de olhar o mundo tal como a mulher o via, a cordilheira jamais seria a cordilheira ou o homem, o homem.
Então, quando na caminhada se sentaram para descansar e uma pequena pedra rolou na suave inclinação do terreno, anichando-se junto a eles, o velho homem apanhou a pedrinha, que só era uma pedrinha porque a mulher sabia um conjunto infindável de coisas que permitiam à pedrinha sê-lo e não outra coisa. E pediu à mulher que a observasse de perto nos mais pequenos detalhes. A reentrância rugosa da pedra ganhava, à medida que ela se concentrava, proporções de um mundo real: cada particularidade era um mundo perfeito, tal como o fiorde, a escarpada rocha, os penhascos ou as fragas ao redor. Primeiro sentiu-se deslumbrada com o que via, depois, percebendo o alcance da visão e a dimensão que a pedra atingia, ficou sem acção, atemorizou-se, maravilhada! – Penetrara num mundo inconcebível de existir.
Não soube quanto tempo demorou aquela experiência, mas quando olhou à volta, numa diminuta inclinação do relevo, nascera uma flor. O velho homem olhou a mulher de tal forma que ela entendeu como reduzindo o mundo, aumentara-o. E lembrando-se de um poema, compreendia, por fim, o significado para além das palavras:
Ver um mundo num grão de areia,
E um paraíso numa flor selvagem,
Segurar o infinito na palma da tua mão,
E a eternidade numa hora.*
*Augúrios da inocência, de willian Blake


José Pais de Carvalho
Enviado por José Pais de Carvalho em 14/08/2019
Código do texto: T6719949
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Pais de Carvalho
Queluz - Lisboa - Portugal, 59 anos
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José Pais de Carvalho