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CAIXA DE FÓSFOROS - parte 7

          A alegria me fez algo raro: dormir cedo com expectativas boas pro dia seguinte.

          Os fósforos não se apagaram.

                    ***

          Pela manhã, já quase de partida, recebi uma mensagem:

          - Te amo, filho. Depois fala com a mãe.

          Qual Bento Santiago, ainda estava um pouco abalado pela suspeita da voz de homem do outro lado da linha, mas ignorei isso. Pelo menos ali:

          - Sim, senhora, mãe. Espero que a senhora esteja bem. Hoje o pai vai me levar pra praia!

          - Que bom, filho. Ele nunca te levou pra lugar nenhum mesmo. Já tava na hora.

          Essa frase doeu com o peso da realidade.

          - Vamos, filho! O transito estará pior se demorarmos mais. - meu pai gritava do lado de fora.

          - Tá bom, mãe. Beijos. Bênção.

          - Deus te abençoe, filho. Mãe ama.

          Ela desligou primeiro. Não esperava por isso.

          Pegamos a estrada. Eu, meu pai e a caixa de fósforos em meu bolso.

          Quando estacionamos o primeiro mar que vi foi de automóveis. Descemos com nossas coisas e fomos andando em direção a praia.

          - Pai, quantas vezes o senhor já veio aqui?

          - Ah. Várias vezes. Foi antes de sua mãe ficar grávida. Depois as coisas ficaram um pouco mais corridas. Você entende…

          As vezes os pais dizem coisas que ferem, sem desejo de ferir. Filhos dão trabalho, eu sei. Mas se ele me trouxe aqui ganhando menos do que quando eu era criança, o que o impedia de me trazer antes?

          - Que cara é essa, Júlio?

          - É que eu nunca vim a praia, pai. Então pra mim é tudo meio novo.

          Meu coração era pura poesia.

          - Que isso! Com o tempo você acostuma, filho. Mas é bom vir de vez em quando. Fico feliz por te ver tão entusiasmado. Me lembra eu quando mais novo.

          - Pai, nem passamos protetor.

          - Ai, meu Deus! Sua mãe que tinha essas frescuras. O calor que faz aqui é quase igual a quentura de encher uma laje em dia de sol. Tô acostumado. Além do mais, eu até trouxe, mas deixei no carro. Um só dia não faz mal.

          - Pai, não inventa. Eu vi na internet sobre câncer de pele. É perigoso.

          - É sério que você vai me fazer andar isso tudo outra vez?

          Falar sobre carcinoma e melanoma não iria convencê-lo. Só abaixei a cabeça. Ele entendeu:

          - Tá bom. Eu pego. Deixa achar um lugar primeiro.

          Sorri.

          Enquanto caminhávamos cheguei a ver outro mar. Um mar de areia. Barulhento. Onde os peixes eram humanos, com seus guarda-sóis, sungas, biquinis, maiôs, corpos, cor de pele; passavam e ficavam.

          Foi então que o vi. O grande... azul… tão cheio mar.

          Meu passo diminuiu diante daquele enorme pedaço de céu deitado em terra. E ele se movia. Onde as espumas flutuantes pareciam nuvens de chuva. Meu pai gritou:

          - Júlio, filho! Acelera o passo!

          Corri. Achamos um bom lugar.

          - Pronto! Agora organiza tudo aí. Vou lá no carro e já volto.

          Armei duas cadeiras e me sentei. Fixei meus olhos no mar.

          O enorme pedaço de terra azul se movia como um enorme monstrengo prestes a se levantar. Dançava e fazia os banhistas dançarem. Na verdade a música era dele mesmo.

          Era belo… áspero… intratável.

          Qual Rainha de Sabá no Reino Salomônico, parecia que eu voava. Sem prancha, surfei nos meus pensamentos:

          "Camões dizia dos 'mares nunca antes navegados'. Talvez eu seja um Lusíada. Tudo é tão novo. Sou como um… sonho."

          Fui além:

          "Talvez Noé não sentisse o que sinto, mas para ele as ondas foram sinais palpáveis de promessas cumpridas. E aqui as vejo. Com uma nitidez que me cega."

          Meu pai demorou. O sol, como uma tocha, iluminava todo o mar celeste. Estava quente. Mas eu fervia por dentro:

          "Tudo aqui muda de nome. Asmo é insosso. Marasmo é vida sem sabor. Terremoto é terra que abala. Maremoto é mar que abala. Mas o mar engole. Azia de mar é maresia…"

          E à deriva num fluxo de consciência, me deixei levar:

          "O ser humano é boa parte água, assim como o planeta. Sem água nem um dos dois vive. Já ouvi dizer que viemos dos peixes. Então esse momento não poderia faltar pra ninguém. Todos precisam disso. Das águas se tira vida, alimento, sal."

          Levei a mão ao queixo. Suspirei naquela confusão lúcida. Tão minha:

          "Mar é verbo no infinitivo, pois desse lado ele parece infinito. No verbo AMAR tem mar,  em AMARGAR... E a palavra MARROM? parece o MORRAM quando o mar traz Tsunamis. MARTELO é água mole em pedra dura. Terra firme não reflete o rosto. O Mar reflete. Ele reflete a nossa profundidade ou a dele? Um espelho só reflete o corpo. Mas o mar se move, como a alma."

          Meus olhos estavam bem abertos. Quase monomaníacos. Meu sorriso era bobo… largo. Qual mar.

          - Eh, Júlio. Tá tudo bem?

          Como que desperto de um transe respondi:

          - Ah! Sim! Claro. Eu… Eu só tava… vendo o mar mesmo.

          - Tá. Sei. Vem cá. Passa um pouco em você.

          - O senhor também, hein.

          - Aff. Tá bom. Tá bom. Tá com fome? Quer comer alguma coisa agora?

          - Não pai. Eu queria chegar mais perto da água.

          - Vai lá. Só toma cuidado pra onda não te puxar de supetão.

          A solicitude excessiva do meu pai combinava muito bem com um fósforo aceso.

          Caminhei até a beira da praia. Senti a primeira onda nos pés. E nenhuma epifania de Lispector descreveria o que senti.

          Não era como uma piscina. Era muito mais intenso. Como quem chupa uma manga, assim eram os lábios do mar na terra.

          Outra vez a água passou por mim.

          Lembrei do Lava-Pés com os discípulos. O mar era um bom discípulo, que diferente do fariseu de Lucas, já me recebeu bem em sua casa.

          Tirei o chinelo. Pela primeira vez pisei em solo "praiano". De Júlio fiz-me César e vibrei ao experimentar os grãos molhados se mexendo na pele.

          Fui um pouco adiante. A água já estava nos tornozelos.

          Fechei os olhos. Quis ouvir o marulho, o som do mar.

          Como chiado de vitrola, páginas de uma bíblia virando ao vento, farfalhar das folhas de uma árvore,  a brisa nas persianas e rabiolas de pipa nos fios elétricos… difícil descrever o seu barulho único de mar. Era um cicio tão bom… tão suficiente. Meus ouvidos obtiveram a cócega marítima.

          Outra onda. Meu coração batia no compasso das ondas. Segui até onde as águas me davam pra cima dos joelhos. Virei-me:

          "Pai, posso mergulhar?"

          Meu pai estava falando ao celular. Imaginei ser a amante. Desisti da pergunta.

          Outra onda. O mar me chamava.

          Antes de ir mais além, a caixa de fósforos me veio a mente. Peguei-a e acendi mais um. Ele sustentou a chama.

          "Não vai apagar! As muitas águas não podem…"

          E joguei o fósforo aceso no mar. Não se apagou. Afundou com sua centelha brilhando viva. Ele seria minha vara de medir.

          Olhei pra trás. Meu pai me olhou e sorriu e fez "jóia" com a mão.

          Meus olhos lacrimejaram. No salgado das lágrimas, sussurrei:

          "…O rio Pajeú vai despejar no São Francisco.
          E o São Francisco vai bater no "mei" do mar…"

          Francisco é "francês livre". Minhas lágrimas corriam quais franceses gritando por liberdade.

          Agora era minha vez. Se era sonho, não importava mais. Fui entrando mais na água… mais alguns passos… fechei meus olhos, e mergulhei.

          Mesmo sem saber nadar…


          Continua…
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 24/10/2019
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
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