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UM MESTRE MAÇOM RENASCIDO DEPOIS DE 200 ANOS

Um grupo de maçons sergipanos, em um ágape após a sessão no Templo da Grande Loja Maçônica, começaram a tratar de história da maçonaria no Brasil, principalmente após a brilhante palestra do irmão Hermínio, um dos grandes maçons brasileiros da atualidade, em sessão de aprendiz no Rito Escocês Antigo e Aceito, apensar da importância deste irmão para a difusão do Rito de York neste Estado.
Vários temas foram abordados e ensinados pelo Mestre e trazidos por outros irmãos da Ordem, entre eles, qual seria a primeira loja fundada no Brasil, já que existe uma divergência entre o pioneirismo das Lojas Commercio e Arte (esta, a mais antiga entre as três cariocas), União e Tranquilidade e Esperança de Niterói, fundadas e consagradas entre 1815 a 1822, na cidade do Rio de Janeiro ou da Loja Cavaleiros da Luz, levantada no ano de 1797, na cidade da primeira Capital do Brasil, a bela Salvador. Foi trazido relatos, por um aprendiz estudioso e neófito, de uma loja de nome Areópago de Itambé, que teria sido fundada no ano de 1796, no Estado de Pernambuco. Citou ainda, um companheiro, que alguns estudos revelam que uma Loja já havia sido fundada na Bahia bem antes de que todas estas e que inclusive o inconfidente Tiradentes teria chegado ao veneralato no ano de 1788, ou seja, muitos anos antes da fundação do próprio Grande Oriente do Brasil, que ocorreu em 1822.
Várias abordagens foram feitas sobre o tema e a noite foi muito rica em debates, para os poucos que ali ficaram.
O irmão de nome Querubin trouxe à tona uma questão de fundo, o fato de hoje, os maçons serem muito diferentes do que os daquela época. E argumentou que em seus estudos, pelo que abstraiu, o rigor no ingresso e no respeito pela instituição era muito grande. Todos os presentes concordaram. Chegaram até a dizer que em muitas lojas, praticamente existem apenas por conta do interesse no debate profano, como se fosse um clube privado. Em pleno ano de 2021, em meio a uma pandemia com características peculiares (mais voltada para uma terceira guerra tendo apenas como vitoriosa, a própria causadora), a maçonaria está longe de ser protagonista no processo de manutenção das liberdades, independente de que forma seja transmitida.
A noite ficou curta, porém, todos seguiram para as suas casas, tendo em vista as obrigações do dia seguinte e para evitar problemas com as cunhadas. Marcaram todos que, o tema continuaria na semana que vem e foram para casa após desfrutarem do jantar servido pelo irmão “Alemão”.
Algumas lojas já realizavam sessões virtuais (novidade para muitos), porém algumas ainda persistiam nas reuniões presenciais, apesar do número reduzido de obreiros. No entanto, face ao aniversário do irmão Querubin e por ser ele muito querido, vieram até dois visitantes de Itabaiana, do agreste sergipano.
Foi uma noite atípica, com quase trinta presentes, vez que, a loja, apesar de ter muitos filiados, estava praticamente funcionando com o número de sete.
O irmão Hermínio foi chamado para fazer uma palestra sobre temas históricos e Landmarks, objetivando abrilhantar a noite.
Todos se prepararam para adentar o templo, como de costume, devidamente seguindo a ritualística, momento em que o irmão Querubin começou a suar frio e este chegou perto do irmão Petrúcio, narrando que estava se sentindo estranho. Tudo isto ocorreu no momento em que todos estavam entrando no templo. Hermínio percebeu e segurou o irmão Querubin pelo braço e o conduziu até a sala administrativa da loja.
Lá, Querubin disse que por conta daquela conversa da semana passada, havia sonhado com uma pessoa, que se apresentava como Hiran e que pertencia à Loja Cavaleiros da Luz e este disse que gostaria muito de visitar uma Loja depois de 200 anos. Em sonho, Querubin disse que ele estava convidado. E desde então não mais sonhou com o irmão já falecido. Hermínio o tranquilizou e disse se preferisse pediria para um irmão levá-lo em casa, já que infelizmente não poderia fazê-lo em razão de ser o palestrante da noite.
A sensação desconfortável passou e os dois foram em sentido ao templo, onde todos o aguardavam. Antes de entrarem, por um instante, Querubin parou na porta, segurou no braço de Hermínio, e com um olhar sério, o corrigiu na forma de entrar ao templo, até com o pé de forma correta. Todos riram, e disse que ainda não tinha sido iniciada a sessão e por isso, não precisava a formalidade.
Querubin tinha um olhar de espanto, Hermínio notou, mas não quis comentar. A todo o instante, Querubin olhava para suas roupas, e para todos com total desconfiança. Ficou espantado com muitos de balandrau, bem como as conversas no templo, mesmo antes de ser fechada a porta.
A posição de Querubin era a mais fiel de todas em obediência ao ritual. Era como se estivesse perdido naquele ambiente do qual conhecia muito bem. Ele repetia os gestos dos demais, pois olhava para todos e repetia as palavras, como se fosse tudo novo para ele. Até a voz que usava era mais alta do que os demais. Ao ponto de conseguir um sorriso isolados de vários que estavam na loja.
Toda a ritualística seguiu e em muitas vezes ele fuzilava alguns irmãos com o olhar, face a postura incorreta e pelas conversas em loja. Também olhava para os irmãos que estavam ao seu lado, pois sempre que podiam olhavam o celular, este por sinal, era visto com um sinal de estranheza e desconhecimento.
Na leitura de ata, Querubin demonstrava total insatisfação com as narrativas. Ouviu o secretário ler editais de iniciação, sem qualquer manifestação sobre profanos e ainda ouviu que naquela loja precisava de mais obreiros, e que deveria haver um empenho de todos para chamar mais profanos. Ele olhava como se não acreditasse no que estava ouvindo. Ficou abismado quando em uma determinada prancha foi solicitada a participação em um evento filantrópico e percebeu desinteresse de todos, e ainda ouviu um comentário de que maçonaria não tem como finalidade principal, a filantropia.
O expediente foi brilhantemente aproveitado por Hermínio, fazendo uso de slides no power point, traçando um paralelo histórico até os dias atuais na maçonaria brasileira e mundial. Quando a palavra foi passada às colunas, alguns irmãos presentes, fizeram perguntas tolas, elogios sem fundamento, apenas para agraciar o palestrante. Trouxeram questões envolvendo a condição da maçonaria atual no campo político, econômico e social, e ouviram do palestrante uma visão coerente do momento vivente.
Atentamente, Querubin analisava o comportamento e a posição de todos aqueles que se manifestavam ou não. Em determinado momento, a porta do templo foi batida e foi anunciado ser uma das luzes da Grande Loja, representando o Grão Mestre. Foi autorizada a entrada sem formalidades pelo Venerável e este ainda sentou no oriente, porém, não ao lado do trono de Salomão. Inclusive não houve proposta de entrega do malhete. Pelo contrário, o representante entrou brincando, cumprimentando a todos e sentou ainda conversando com aqueles que estavam ao seu lado.
A face de Querubin era só admiração, pois uma autoridade entrou e nem se quer os aprendizes se levantaram ou foi feito qualquer cortejo de honra.
Entre perguntas e respostas sobre o tema, risadas, sonolências, desconhecimento de problemas sociais e políticos, ausência de traquejo com normas maçônicas e landmarks, toques desenfreados num instrumento que emitia luzes. Assistiu alguns dos presentes fazendo discurso de temas totalmente diferentes daqueles propostos, como se quisesse chamar a atenção para si. Escutou alguém dizer que era dia de jogo e seria bom que fosse adiantado o debate e encerrado com toque de malhete a sessão e o pior, foi o aceite do Venerável àquela proposta em total acolhimento por todos.
A expressão de Querubin era como se ele não mais desejasse estar ali. Era nítida a demonstração de descontentamento dele. Assim que todos falaram, o Venerável disse que a noite precisava terminar com as palavras do querido irmão e aniversariante. E então, passou a palavra para que ele se manifestasse.
Todos, meio que sorrindo e desejosos pelas palavras daquele irmão sempre sorridente e querido, esperavam a sua manifestação. Mas o olhar dele era estranho. Ele olhava para todos como se fosse a primeira vez que os via.
O Venerável insistiu para que ele dissesse alguma coisa, pois a noite só estaria completa com as suas palavras. Querubin, após a insistência de todos os olhares contra si, disse, maçonicamente e como de costume, após saudar a todas as luzes, dignidades, autoridades e demais presentes, que aquele tinha sido o seu maior pesadelo.
Apresentou-se como Hiran, e disse que nenhum daqueles que ali estavam eram dignos de serem chamados de maçons. Houve um intervalo de silêncio, mas depois, seguiu-se com muitas gargalhadas e elogios ao aniversariante, no sentido de dizer que ele tinha um excelente senso de humor e que chegaram até a acreditar que ele estava falando sério.
Em seguida, Querubin citou em latim, o salmo 133. Ato contínuo, afirmou que um dia, lutou pela independência do Brasil. Ajudou a fundar a primeira loja na cidade de Salvador, da qual tinha orgulho de ter participado daquele processo. Que viu muitos amigos morrerem pela liberdade do povo brasileiro e dos escravos. Acrescentou que a loja que ajudou a edificar já existia dentro de cada um dos irmãos da Cavaleiro da Luz, muito antes dela existir fisicamente. Que foi perseguido. Que tiveram que abater colunas, mas o ideal persistiu até que o Brasil ganhou sua aparente independência. E pelo que havia ouvido naquela noite, a coragem, a honra, o patriotismo, a família, a liberdade, a fraternidade, a crença do Grande Arquiteto do Universo, o respeito ao próximo, já não era mais pilares da maçonaria que ajudou a construir e que morreu defendendo.
Neste momento, alguns irmãos começaram a ficar sérios e assustados, pedindo para Querubin parar com a brincadeira, pois já estava ficando sem graça. Querubin não só continuou, como pediu silêncio aos profanos de transvestidos de maçons. Registrou que ouviu relatos de uma ditatura que se apresenta e ao invés de indignação, reconheceu aquiescência e subordinação, fraqueza e falta de amor ao país e a todos os landmarks.
A voz de Querubin era e não era a dele. O comportamento era totalmente diferente daquele que estavam acostumados a ver e ouvir. Não havia sorrisos e massagens de egos, as palavras eram duras. Chamou a todos de covardes e hipócritas. Mandou que saíssem daquele templo do qual não eram dignos. Disse que um templo maçônico verdadeiro é construído com luta e sangue. Com o ingresso de irmãos verdadeiros e não com primos e conhecidos. Uma casa que só pode ser levantada com virtudes e não com vícios.
Disse que ali se tratava de uma taberna da pior espécie, com os piores cocheiros. Repleta de escravos de coração. Traidores da pátria. Que antes de morrer desejou ver um dia a maçonaria que ajudou a construir e em sonho foi acordado pelo desejo de Querubin em ver como era no passado a maçonaria. Vocês não respeitam não só a sociedade, como também as suas famílias, e este templo que não foi devidamente preparado para ser trabalhado simbolicamente, bem como, as autoridades aqui, são se portam como se deve, ou seja, como forma de mostrar que cada degrau deve ser ovacionado por quem galga e por quem deseja chegar nele um dia.
Ímprobos, indignos, vocês envergonham a maçonaria. Se muitos dos nossos fossem vivos hoje, vocês nunca usariam o nome maçom ou pisariam num templo maçônico. Covardes. A liberdade sendo tolhida e vocês preocupados com diversão. Pessoas sofrendo sem empregos e fome e vocês sorrindo. Não consigo acreditar que estou vendo e ouvindo isto referente ao meu futuro, dos meus descendentes. Todos vocês são uma vergonha. Nunca irão construir nenhum templo, apenas masmorras. Ouso dizer, que muitos de vocês devem ser incapazes de saber um iniciar e fechar uma loja sem ler o ritual escrito, que ajudamos a escrever e traduzir do inglês e do francês. Aposto que muitos nem leram nenhum livro sagrado, principalmente a bíblia.
A maçonaria é um lugar de homens livres e verdadeiramente aceitos por seus irmãos, não um espaço para homens degredados e frequentadores de becos de portos. A coragem e a união são presentes na vida de um maçom. Maçons escrevem e leem muito. Constroem e trabalham muito. Divertem-se com irmãos e suas famílias, e presumo que poucos saibam o que é família. Deixamos as regras bem estabelecidas para o ingresso na maçonaria, mas pelo que vejo, todas elas foram descumpridas e esquecidas.
Olhou para o representante do Grão Mestre e perguntou o significado de Iod. E obteve como resposta o silêncio. Questionou o Venerável sobre o seu entendimento dos nomes das colunas. Também recebeu o silêncio. Perguntou se algum irmão, em especial, os vigilantes, conheciam o motivo de um dos Hirans que tinham contato com Salomão, ter se tornado lenda. Também restou um absoluto silêncio. Perguntou o que eles faziam em cada sessão maçônica ou se pelo menos estudaram o que foi trazido pelo irmão palestrante naquela noite, pois registrou que os estudos maçônicos exigem prévio conhecimento de todos.
Quanto mais Querubin falava ou perguntava, gerava um total desconforto e uma sensação de estranheza de tudo que estava acontecendo, pois ali realmente não era o irmão que eles estavam acostumados a ver e ouvir. O pior é saber que tudo que ele estava dizendo era a pura verdade e já motivava alguns a abandonarem a instituição.
Pelo nome Hiran, dito por Querubin, alguns até pensaram em uma encenação, mas a prontidão nas respostas e forma enfática com que elas eram ditas, em nada parecia com uma cena teatral.
O arremate final, veio quando o Querubin disse, que se eles não lutarem por seu país, por seus labores, suas famílias e pela instituição, iriam se arrepender e com certeza morreriam, mas não por honra e sim pela covardia.
Fez o sinal de ordem, sentou-se e aparentemente desfaleceu. Alguns estavam assustados, outros impressionados e outros se levantaram para segurá-lo, pois parecia que iria cair da cadeira. Herminio chegou a sair para pegar um copo com água e outros ficaram tentando reanimá-lo.
Aos poucos ele foi retomando a consciência e reconheceu a todos e deu de logo um sorriso. Questionou o que tinha ocorrido, pois disse ter esquecido de tudo o que tinha passado no momento em que estava com Herminio no lado de fora do templo. Perguntavam se ele não lembrava de nada e ele apenas disse que entrou num sono e sonhou ter visitado a loja Cavaleiros da Luz, em pleno século XVIII. Com regozijo, disse que a sessão era muito mais rígida., porém sentia uma grande egrégora entre os irmãos. Todos sabiam o ritual de cabeça, ninguém lia nada. Só se falava em lutar pela liberdade dos escravos e do Brasil colônia. O tempo todo tratavam de maçonaria como nunca viu na vida. Os sinais, toques e palavras eram perfeitamente tratados. As cunhadas e sobrinhos eram reportados com respeito de todos, uma preocupação comum. Falavam das perseguições e mortes que estavam sofrendo em nome da liberdade, mas em nenhum momento sentiu medo por parte deles. Não ouviu nada a respeito de marcarem festas ou momentos de lazer, e sim como deixar um país melhor para os seus filhos e netos.
Que tudo parecia real e o chamavam de Hiram. Que nunca tinha sentido uma sensação tão boa em estar entre aqueles irmãos maçons. Porém, deixou bem claro que não passava de um sonho. A energia era maravilhosa, apesar das lutas que narravam e das dores pelas perdas.
Verdadeiros exemplos de maçons. O nível deles era alto demais, pois sabiam e discutiam detalhes bíblicos em grego e hebraico, apesar de alguns deles serem pessoas muito humildes. O conhecimento de astronomia, história, política, filosofia, engenharia, direito, era muito grande, pois eles disseminavam conhecimento entre todos, como se cada um fosse responsável pela lapidação do outro. Ouvi explicações sobre a lenda de Hiram que nunca imaginei ser como foi-me ensinado.
Um sonho rápido e maravilhoso. Agora só achei uma coisa estranha ao final. O Hiram disse algo que me deixou intrigado. Ao falar comigo no final do sonho, disse para destruir o templo e reconstruí-lo, mesmo que isto custasse a própria vida. E que para isso, procurasse verdadeiros pedreiros e despedisse os falsos operários.
Espero saber interpretar esta mensagem. Após narrar o seu sonho, perguntou o que tinha ocorrido. Neste momento, todos demonstraram vergonha, como se não justificasse estarem ali. Hermínio, com sua sabedoria, disse a ele que não aconteceu nada. Apenas ele desmaiou e que entende, e em razão do seu estado de saúde, achava por bem encerrar aquela sessão. Todos em silêncio, com telefones celulares desligados, e cabisbaixos, deram por terminada a reunião e a grande maioria foi embora.
Querubin ainda insistiu para que ficassem, mas o desânimo era geral. Assim, que todos foram embora, hermínio contou-lhe o que tinha ocorrido e disse que este sinal, melhor, esta mensagem, era para todos nós e que já tinha passado o momento de lutarmos pela nossa pátria, liberdade, trabalho, família e pela verdadeira maçonaria. Unidos.
Os dois se abraçaram e ao se despedirem, lembraram que a lenda de Hiram possui vários ensinamentos, e a verdade sempre liberta e por ela que devemos trilhar os nossos caminhos. E chegaram à conclusão, que o momento de lutar é hoje, por honra aos antepassados e em prol da geração futura. Que Grande Arquiteto do Universo nos ilumine e guarde.



ABCOUTO
Enviado por ABCOUTO em 31/03/2021
Reeditado em 31/03/2021
Código do texto: T7220093
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
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Aracaju - Sergipe - Brasil, 47 anos
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