Epílogo

É como uma parte grande e longa que se encerra, que se deslonga, fecha. Não sei se tenho certeza se vai durar, se não vou mudar de ideia amanhã, mas hoje aquilo volta para a cama numa cúpula de vidro, adornada com ouro, lençóis de seda e travesseiros de penas. As vírgulas perdem a necessidade, já não há nenhum assunto a ser adiado, amaciado, acrescentado, porque tudo é então lentamente pensado de novo sem pressa ou esforço. A vida se revela como uma dança colorida, mas que está agora no fim de um ato, pronto pra começar outro.

Vou até aquela loja de coisas vermelhas. Pois é, lá só vendem coisas vermelhas, abajures, molduras, cristais, portas, cinzeiros. O que for. Tudo vermelho. Fiz o que sempre faço quando isso acontece: comprei algo.

A da vez foi uma caneca. Uma caneca vermelha. Não tem nada de especial nela, a não ser o fato de que é vermelha, de que é o fim de um ciclo. E tá tudo bem assim.

- Só a caneca?

- Só

- Mas temos aqui essa espada. Uma espada com um rubi na empunhadura, bem embaixo, veja.

Vi. Rubi. Vermelho. Bem embaixo.

- Pois é, tem mesmo.

- E só pra que você saiba, essa espada nunca perdeu, nunquinha. Ela viu o fim dos maiores adversários, reis, guerreiros, espadachins, e tudo isso sem perder o fio. Vamos, toque na lâmina.

Toco. Corte. Sangue. Bem no dedo.

- Afiada mesmo. Obrigado, mas só quero a caneca.

Ele tentou me convencer a comprar mais algumas vezes, mas o que eu ia fazer com uma espada? Onde ia colocar? Imaginem só se minhas visitas chegassem o que eu ia dizer, como explicar?

Além do que, como é boba. Como é boba uma espada que nunca perdeu. Que nunca falhou em se defender, que nunca falhou em atacar. Não.

Tá, é bem verdade que se isso fosse uma semana atrás talvez eu levasse a espada, só pra te mostrar ocasionalmente que era linda, bem acabada, terminada num esmero sem tamanho, mas que, coitada, nunca chegaria a ver a luz da violência de novo. Que talvez servisse melhor na bainha, para sempre, ou então como peça, como observação. E aí você ia rir por algum tempo, achar curioso tudo aquilo.

Mas hoje não. Hoje a caneca vai servir.

Saio da loja com a caneca embrulhada em Jornal. A manchete dizia algo como "Nada acontece no reino em forma de elefante". Eu me dei o direito de rir bem muito. Imaginem só, gastarem papel, tinta, trabalho, tempo, dinheiro, noticiando então o nada. Eu admirei a coisa.

Está tudo cheio de algo, que quando vejo coisa sem caso ou caso sem causa, é até de recortar, de guardar.

Lá fora, compro um algodão doce. O vendedor é velhinho, simpático. O açúcar gira na máquina. Os critaiszinhos vão se esfiapando, amontoando, emaranhado-se até virar quantidades cavalares de açúcar no palito. Alegria por apenas quatro reais.

- Faz tempo?

- O que ?

- Que vende algodão?

- Depende

- Como assim depende? O tempo é o mesmo pra mim e pra você.

- Pois é, mas eu ganho tempo cada vez que alguém vem aqui, me compra um desses, me entrega um pouco do seu dia.

Na entrada da loja, um sapo de um amarelo lindo me fita. Ele é grande, quase de assustar, quase que de outro lugar que não esse. No lugar dos olhos, jóias igualmente amarelas que eu não soube quais eram. Ele enche a parte inferior da glote,do queixo, ou sei lá como é o nome disso nos sapos, no que eu pensei ser um coaxar bem alto, mas não. Ele apenas se vira, suas pedras oculares reluzem, e então faz uma coisa que eu não sabia ser possível para um sapo, ou sequer para um anfíbio.

Ele sorri pra mim.