O Galo de Havana

A forma como ele o adquiriu, ninguém sabia. Simplesmente Aurélio um dia saiu, como de praxe às 13h, para dar uma volta. Porém, naquela segunda-feira ele havia demorado um bocado. Consigo trouxe, embaixo do braço, um galo amarronzado que parecia a encarnação de instrumentos heráldicos.

O bicho observava a tudo e a todos dentro daquela minúscula casa, a parecer curioso. Curiosos também estavam os pais de Aurélio e suas irmãs: como criariam aquele galeto dentro de um lar de um banheiro, dois quartos, uma cozinha e uma sala? O que passara na cabeça de Aurélio em simplesmente pegar aquela criatura?

Os dias com o galo foram passando. Em pouco tempo ele tornou-se parte da casa. Até sentava-se à mesa com a família e assistia ao futebol com o pai de Aurélio.

- Ele veio direto de Havana - disse Aurélio, a prestar atenção no bicho, impávido e altivo a ciscar em frente de casa. - Veio de Cuba para o nosso lar!

Ninguém entendia o que queria Aurélio dizer ao referir-se à Havana daquele modo. Por que diabos colocara ele aquilo na cabeça? Será que, de fato, o galo havia sido extraditado do país da revolução comunista?

Pensava Aurélio que ao galo também lhe apetecia a leitura. Este punha-se em frente a um livro de Georges Bataille e observava cada letra - ora a virar a cabeça de lado, para ver com o olho esquerdo, ora fazia-o para ver com o direito. Também se esbaldava a ler Juan Rulfo. Aurélio pensava que, desta forma, o galo podia exercer sua suposta língua materna: o espanhol.

Ao galo lhe encantava vislumbrar as palestras de Demétrio Magnoli na tevê. Fixava-se em frente ao aparelho e dali saía quando acabavam. Era um galo intelectual que muito impressionava Aurélio.

Um dia, a falta de dinheiro impossibilitou a entrada de insumos à casa. Enquanto a barriga de todos apertava, o altivo galo ali ficava - a ler seus livros e a assistir televisão. Certo domingo, entretanto, dona Odila, mãe de Aurélio, na ausência deste, puxou o galo pelos pés e soprou-lhe a cloaca. Rendeu o galo, pô-lo sobre um tablado amadeirado e, a puxar seu afiado machado, desferiu-o ao pescoço do bicho - que mesmo após ser decapitado, ainda se debatia.

Aos poucos os movimentos do galo de Havana foram se esvaindo. Dona Odila depenou-o e o cozinhou.

O galo, contudo, morreu sem nome.

Guilherme Zelig
Enviado por Guilherme Zelig em 31/05/2023
Reeditado em 31/05/2023
Código do texto: T7801763
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