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momentos

O ambiente no hospital estava calmo. Viam-se enfermeiras a deambular de um lado para o outro, preocupadas com a função que lhes fora incumbida, nada que não fosse vulgar por aquelas paragens.
O quarto de Nico encontrava-se no terceiro andar do edifício, que manifestava os seus trinta anos de existência na forma de fendas na parede e tinta a desincrustar na parte exterior, era aquele um dos andares mais calmos de todo o hospital. Apesar de se encontrar na ala de doentes terminais, Nico gostava de lá estar, de vez em quando havia alguma correria, mas tudo acalmava depois de ser pronunciada a "hora da morte".
Nico tinha feito ali alguns amigos, certo que não acreditava em milagres e estava consciente de que, mais tarde ou mais cedo, a sua existência acabaria, e dadas as suas condições de saúde sabia bem que seria bem mais cedo que tarde, mas nem isso o impedia de fazer amizade com as enfermeiras e enfermeiros que carinhosamente cumpriam as suas obrigações para com ele.
O dia amanhecera soalheiro, o céu limpo e uma brisa fresca circulava. Nico pediu a Oriana que o acompanhasse no pátio, e lá foram os dois conversando como sempre faziam, sobre política, sobre as pessoas, sobre cultura... Bem, sobre tudo.
As pessoas circulavam no jardim, tal como eles os dois faziam, cada um na sua rotina, com os seus afazeres a ocuparem as suas cabeças, nem se apercebiam dos outros, um egoísmo intrínseco a que ninguém ficava de fora. Mas naquela manhã Nico apercebia-se dos outros, tentava entender o que estavam a pensar e ficava perplexo consigo com a quantidade de hipóteses que imaginava juntar aquelas pessoas naquele local. Sentia-se uma pessoa sortuda por ter essa noção e recordava com ternura episódios da sua vida, na esperança que algum deles se encaixasse no olhar de um qualquer estranho.
A vida para ele era isso mesmo, uma repetição de uma outra vida, com tantas vidas que começaram e acabaram, milhões mesmo, parecia-lhe impossível que não houvesse repetições, não lhe era compreensível tanta diversidade de sentimentos e emoções.
"A Oriana acredita em vidas passadas?", questionou ao fim de alguns minutos de silêncio.
Oriana hesitou e esteve algum tempo a matutar na questão, a verdade é que nunca tinha realmente pensado na existência antes da existência e evitava ao máximo pensar na existência depois da existência.
"Bem Sr. Nico, eu não lhe posso responder a essa pergunta, nunca pensei nisso para ser franca", respondeu por fim.
O tempo de Nico estava a esgotar-se e como qualquer pessoa na sua situação, Nico pensava o que seria depois de acabar de ser, nunca tinha tido uma religião e as suas crenças baseavam-se nos sentidos, nunca tinha sentido necessidade de acreditar em algo mais além do perceptível.
Carlos Duque
Enviado por Carlos Duque em 18/06/2009
Código do texto: T1655091


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Sobre o autor
Carlos Duque
Portugal, 30 anos
2 textos (71 leituras)
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