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O Roubo

A sua frente, Marcos observava pela última vez o galpão, lugar que ele passou quinze dias vigiando. Era a garagem do quartel do Batalhão de Infantaria do Rio de Janeiro.

Com uns três metros de altura, feito de aço, a garagem resistia a vinte e cinco anos de construção sem nenhuma ocorrência negativa.

Marcos abriu o cadeado tamanho médio que trancava a porta encaixada no portão. Olhou para trás e viu na estrada que dava acesso à garagem um comboio de carros, já tinha sido avisado que a fiscalização estaria ali àquela noite.

Antes de abrir o portão, exigiu do motorista no primeiro carro que abaixasse o farol do veículo e que ligasse a luz interna. Ordem obedecida recebeu de um senhor que estava no lado do passageiro, o chefe da comitiva, a documentação que autorizava a entrada na garagem. Apesar de muitos, vinte e dois carros, Marcos deu uma risada de satisfeito. Girou sob os calcanhares e pela porta entrou na garagem. Os ferrolhos sem lubrificação rangem ao passo que Marcos abria o portão permitindo a entrada dos veículos.

Quando criança aprendeu ser habilidoso em seus movimentos. Sabia pegar o relógio de uma pessoa sem que essa percebesse.

Um ano antes de ali estar, ouvia de seu irmão mais velho, um tenente das Forças Aramadas no Amazonas, sobre os brasões que os carros da fiscalização tinham.

Enquanto os carros entravam, ele somava na cabeça a quantidade de ouro que estava em todos os carros. Quinze quilos de ouro dezoito quilates! Sorrio espantado. Concentrado no ouro, nem percebeu que todos os carros já estavam estacionados e que em sua direção o chefe da comitiva caminhava.

“Quero te ver amanhã soldado”, ordenou o chefe. “Sim senhor!”, respondeu Marcos já em posição de sentido.

Um ano de planejamento e agora era à hora de dar a cartada final, arrancar os brasões dos veículos.

Resolveu aguardar vinte minutos, para começar o ataque. Era quando os motores dos carros começavam a esfriar, soltando uns estalidos parecidos com passos firmes, era o momento ideal.

Caminhou vinte cinco metros, em direção ao fundo da garagem. O vento passava pelas frestas do talhado feito de alumínio em formato de arco produzindo um assovio que para os medrosos pareciam do outro mundo. Já no fundo do quartel perto da porta de um quartinho sentou-se em uma cadeira, colocando os pés em uma outra, pegou um toca fita pequeno e com o fone ouvia, para lembrar, as instruções finais de como sairia do imponente quartel.

Há um mês atrás, Marcos pagou uma pechincha pela farda e pelos documentos a um soldado. Vinte reais foi o preço pela informação do dia e horário da visita dos fiscais ao quartel. Além da farda, e dos documentos que provavam que ele era soldado, deu-lhe uma ficha, informando que o Soldado Marcos fazia uma pesquisa sobre o comportamento dos militares no horário noturno, pedindo ao chefe do Batalhão que o colocasse na garagem, já que a mesma ficava em um alto possibilitando uma visão geral do Batalhão.

A partir daí, Marcos se preocupou em adequar seu comportamento malandro a um comportamento militar, nada o podia denunciar.

Seu plantão terminava às cinco horas da manhã, como era pesquisador, não era obrigado passar pela revista na saída.

Na mão direita o relógio começou a emitir uma luz verde, que graças à escuridão iluminava o galpão. “O tempo acabou”, soluçou se movimentando para levantar. Quando avistou na porta da garagem um atirador de elite que reconheceu pela farda apesar de não conseguir ver o rosto. Preferiu continuar estático. Ele só está dando uma olhada, pensou consigo. Como o atirador de elite não lhe deu atenção, resolveu ficar como quem ouve música através do fone.

A demora do atirador, o fez suar. Esse avaliava de ponta a ponta da garagem os carros. Andava de cócoras, colocava as mãos na orelha. Marcos sem entender nada, franziu o cenho achando que tinha concorrente.

Vigiando quem atrapalhava seus planos, não percebeu a entrada de um sargento que carregando no colo uma mala. O único sargento do Batalhão era o único que o olhava atravessado para Marcos. Martins não era do Batalhão.

Percebendo a nova visita, se assustou, pulou silenciosamente em posição de sentido.

O Sargento se apresentou em voz sussurrante como Martins. Pediu para entrar no quartinho para avaliar o conteúdo da mala.

Quando viu o que tinha na mala franziu o cenho, abriu a boca e pôs as mãos na cabeça. Olhou para Martins, esse também não acreditava no que via. A mala estava cheia de pedras.

Marcos se ofereceu para ajudar tirar as pedras da mala, mas a visita indesejada resolveu tirar sozinho. Enquanto isso ele deu uma olhada para a garagem e o sujeito ainda avaliava os carros.

Uma pancada ecoou no quartinho. Marcos voltou seu olhar para o quarto, e se assustou Martins havia desmaiado “só me faltava essa” rosnou indo pegar um balde de água para acordá-lo.

Despejou a água que estava no vaso em Martins, fazendo-o acordar. Uma promoção surpresa tirou o ar do Sargento, fazendo-o desmaiar.

Cumprimentou Martins e quando voltou seu olhar para garagem, viu que estava perdido. O chefe do Batalhão tinha ido congratular-se com Martins a sua promoção.

A essa altura os motores já haviam esfriado e os ruídos acabados e o atirador de Elite já tinha ido embora. Marcos não sabia o que fazer.

Pensou em aproveitar o momento festivo no quartinho para concluir sua missão, mas dando o primeiro passo viu um grupo de militares entrando na garagem. Marcos nunca tinha imaginado que uma garagem seria palco de premiação.

Receoso, resolveu ir embora, na verdade fugir, deixando para trás seu objeto de desejo.

João Áquila
Enviado por João Áquila em 17/02/2007
Código do texto: T384211
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Sobre o autor
João Áquila
Aracaju - Sergipe - Brasil, 37 anos
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João Áquila