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A Guerra de Canudos

A Guerra de Canudos

     I- Quadro Geral da República
     
     A Guerra de Canudos, foi sem sombra de dúvidas umas das maiores tragédias sociais que houve no Brasil durante a primeira República, não que outras revoltas, como o Contestado não tenha sido igualmente brutal, porém Canudos ganhou um ar melodramático tendo sua história contada e recontada diversas vezes. Para entender essa questão temos que fazer um recorte histórico do início da República onde sua proclamação não teve nenhum feito heróico ou de apelo popular.
     A República no Brasil nasceu de diversos fatore que foram determinantes para o fim da monarquia, tais como a abolição da escravatura que deixou os grandes proprietários de terras insatisfeitos, o fato do imperador ser maçom e controlar as atuações da igreja católica e é a grande decepção por parte do exército brasileiro pós guerra do Paraguai, onde os combatentes tiveram suas pretensões de maior valorização por parte do Império brasileiro serem negado. Tudo isso formou um terreno movediço onde era apenas questão de tempo a queda do imperador Dom Pedro II.
     A República veio enfim em 15 de Novembro de 1889, onde um então indeciso Marechal Deodoro da Fonseca, manda dizer que a República estava feita. Com isso houve uma grande quartelada com canhões e tiros de salva onde o povo assistia tudo sem saber o que estava acontecendo.
     Por não ter um viés popular a República não foi bem vista por todos e em alguns lugares, como no sertão da Bahia a notícia demorou a chegar. É nesse lugar que surge um homem pró monarquia que viria a ser chamado por Antônio Conselheiro.

II- Antônio Conselheiro
     Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em 13 de março de 1830 em Nova Vila de Campo Maior, Ceará. Mais conhecido como Antônio Conselheiro, foi um homem onde tudo poderia dar errado na sua vida e, deu. Teve uma infância traumática sendo espancado por sua madrasta, já adulto se casa com uma prima que o traí com um soldado, tentou ser professor e não deu certo, vendedor e até tentou ser “provisionado” uma espécie de advogado sem formação.
     Após ver seus planos fracassarem Antônio Conselheiro passa a vagar pelo sertão do Cariri em uma peregrinação que o faria ter alguma “fama” e será visto por muitos como um missionário.
     Com a grande seca de 1877, o sertão brasileiro ganha cada vez mais andarilhos que buscam qualquer apoio para não morrerem de fome, inclusive o banditismo é comum entre essas pessoas que roubavam com a desculpa de que era por uma causa justa. Esse contingente só aumentou com o fim da escravidão em 1888, onde muitos ex escravos sem ter pra onde ir buscavam reconstruir suas vidas em outros lugares.   Foi esse tipo de pessoas que procuravam alguma ajuda, mesmo que divina viram em Antônio Conselheiro uma espécie de líder religioso. Por onde passava ele mandava reformar os cemitérios e caiá de branco as igrejas, além de pregar o catolicismo e ser um entusiasta da monarquia, visto que, segundo ele a República tinha sido feita para destruir a família por causa do casamento civil que se deu através da separação entre a igreja e o Estado.  Em 1890 ele já tinha 8 mil seguidores.
 
III- O Arraial de Canudos
 Próspera
 
     Em 1893 já havia se passado 4 anos que a República tinha sido feita. Antônio Conselheiro cria numa fazenda abandonada que se chamava Monte Belo o arraial de Canudos. Nesse arraial que chegou a ter mais de 5 mil casas e por volta de 25 mil habitantes, as pessoas viviam uma espécie de comunidade utópica onde as roças  eram coletivas. Nessas roças eles plantavam milho, mandioca, feijão entre outras plantas . O principal produto de Canudos porém foi a cabra. A cabra é um animal muito resistente às regiões quentes e tudo desse animal pode ser utilizado e até comercializado. Da cabra eles tiravam o leite que se fazia queijo e derivados, usava se a carne para o consumo e o couro do animal podia ser negociado fora do arraial. Com isso Canudos passa a se tornar autossustentável crescendo sem qualquer ajuda do governo brasileiro. O governo republicano aliás, nunca se importou com seus flagelados.

IV- Motivos Para o Conflito

     Tudo parecia ir bem em Canudos, Conselheiro administrava o vilarejo e proibia qualquer uso de bebidas alcoólicas, porque segundo ele se tratava da “ bebida do cão”. Em 1896 ele tinha a idéia de aumentar a igreja e para isso comprou uma grande quantidade de madeira com um comerciante de Juazeiro. Naquela época Juazeiro era a maior cidade da região .
    A madeira comprada por Conselheiro, apesar de paga não foi entregue. Alguns moradores de Canudos decidiram ir buscar a madeira e a elite de Juazeiro se preparou para receber aqueles que eles chamavam de fanáticos. Foram cerca de 300 homens de Canudos contra cerca de 100 soldados do exército nacional. O primeiro  conflito se deu na cidade de Uauá e teve cerca de 150 sertanejos contra 10 soldados e 16 feridos.
     Esse episódio foi visto como uma afronta ao governo republicano do Brasil, além do que Conselheiro  já havia rasgado vários panfletos do regime Republicano que ele não concordava também por causa dos impostos municipais que foram criados com o novo governo.
 

V- Segundo Confronto

     Em janeiro de 1897 os seguidores de Antônio Conselheiro já aguardavam uma nova investida do governo porque foram avisados. E com isso fizeram fortificações no caminho que levava até o arraial e por ali esperaram a segunda investida do governo brasileiro.
     Comandado pelo Major Febrônio de Brito, a segunda expedição contava com 583 soldados para atacar Canudos. No dia 24 de janeiro o grupo do Major Febrônio foi derrotado pelos sertanejos.
     Após a emboscada os sobreviventes fugiram deixando para trás suas armas e munições, ou seja, os sertanejos passaram  a ter armas melhorem das que eles tinham.
     A história virou um escândalo onde a imprensa dizia que monarquistas estavam querendo derrubar a República atacando o honroso exército brasileiro.

VI- “Vamos Almoçar Em Canudos!”
     
     Após mais uma derrota, as alas florianistas do governo começou a ver em Canudos uma grande ameaça para a República, como eram em grande maioria positivistas da Praia Vermelha esses homens faziam pressão ao então presidente Prudente de Morais. Parte da imprensa o chamava de “Prudente Demais” por ser o primeiro presidente civil do Brasil. Prudente de Morais foi acusado de não tomar as providências necessárias para acabar com Canudos.
     Diante de tanta pressão o presidente convoca um veterano do exército para a difícil missão, esse homem é o Major Antônio Moreira César, um militar que havia participado de importantes missões no exército brasileiro e era visto como um grande herói.
     Moreira César havia combatido a  Revolta da Armada, que foi uma revolta da marinha no início da República, assassinou um jornalista que falava mal do exército brasileiro e depois participou da Revolta Federalista em     Santa Catarina mandando matar várias pessoas em execuções sumárias o que lhe deu o apelido de “Arranca Cabeças”. Esse episódio ficou conhecido por ter sido o fator que determinou a troca do nome de Cidade do Desterro para Florianópolis, o nome do carrasco da cidade.
     Moreira César era epiléptico e foi para a Bahia com um grande contingente formado por 1500 homens, com 15 milhões de cartuchos e com 6 canhões Krupp recém comprados da Prússia.
     Desembarcaram em Salvador e levaram muito tempo para chegar nos arredores de Canudos. Em março de 1897 as tropas chegaram em Monte Santo onde Moreira César disse sua célebre frase: - “ Vamos almoçar em Canudos!”
     A frase de Moreira César é um retrato da arrogância que pairava a incursão até Canudos. Com um grande contingente e muita munição o militar pensou que sua vitória era questão de tempo, porém...

VII- Canudos 3x0 Brasil
   
     Estava tudo pronto para a investida quando Moreira César teve um ataque epiléptico cancelando a primeira ordem de ataque. Após se recuperar ele dá nova ordem de ataque dizendo: - “Vamos atacar com baionetas! Não precisam gastar balas com essa gente!”
     Assim sua tropa adentrou pelo arraial que era um verdadeiro labirinto de casas, ruelas e becos onde os moradores estavam escondidos podendo atacar com o fator surpresa.
     As tropas brasileiras foram severamente atingidas, tendo inclusive, sendo uma das vítimas o próprio Moreira César que morre depois de agonizar durante horas. Em seu leito de morte disse que se sobrevivesse iria renunciar o exército devido a tamanho vexame.
     Humilhação total e completa, as tropas perderam de novo. A terceira expedição do exército estava destruída. Os sertanejos arrancaram a cabeça do “Arranca Cabeças” e de outros soldados que deixaram penduradas no caminho até Canudos, tudo para intimidar novas investidas.

VIII- “Prudente Demais”

     A notícia da derrota das tropas de Moreira César chega na capital em abril de 1897. Os republicanos jacobinos ficam furiosos, chegam inclusive a destruir um jornal de viés monarquista matando seu editor. Eles exigiam a destruição completa de Canudos.
     Prudente de Morais que já tinha a fama de ser muito devagar ( O Prudente Demais), convoca o próprio ministro da guerra para combater Canudos.
     Em agosto de 1897 o Marechal Carlos Machado de Bittencourt ( que teve um fim trágica tempo tempos depois defendendo o presidente Prudente de um atentado). Ele posiciona sua tropa em Monte Santo que se torna sua base de operações.
     O conflito se torna intenso e em 22 de setembro Antônio Conselheiro morre em decorrência de uma desinteria. Esse fato leva a milhares de moradores de Canudos a se entregar com a promessa de que seriam salvos. Porém a relatos de execuções de pessoas mesmo após se renderem.

IX- Morro da Favela
     
     Uma parte da população resistiu mesmo sob forte ataque de um canhão apelidado “A Matadeira”. Esse canhão ficava em cima de um lugar chamado Morro da Favela. Este morro tem esse nome por causa da grande quantidade de uma árvore conhecida como favela, essa árvore espinhosa é típica da caatinga e é encontrada em abundância na região do sertão nordestino.
     Um fato curioso é que alguns dos combatentes tiveram como incentivo do governo uma casa própria, porém não foi bem isso o que aconteceu e muito deles tiveram que morar no Morro da Providência que ficou conhecido como a primeira  favela do Brasil. Mas essa é outra história.
     Com a ajuda do canhão, Canudos foi completamente arrasado tendo sua igreja destruída por completo.

X- Fim da Utopia

     Em 5 de outubro de 1897, quatro últimos defensores de Canudos foram mortos, acabando assim com um dos capítulos mais infames do exército brasileiro. Tanto que diversos registros são confidenciais, mesmo o povo sabendo da barbaridade que assolou as investidas ao arraial sertanejo que viveu com uma certa prosperidade até atrair para si a ira daqueles que nunca o acolheram.
     O corpo de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça foi cortada e levada para estudos científicos. O que sobrou da cidade foi incendiado ficando apenas algumas ruínas da igreja. Essas ruínas foram tempos depois inundadas pela construção de uma represa, porém em época de forte estiagem ainda podem ser vista.
     Assim como outras revoltas na primeira República, a Guerra de Canudos também tomaria seu contorno histórico, porém não sem a grande visibilidade que tomou . Essa grandeza pode ser adquirida graças a uma grande obra literária escrita por Euclydes Da Cunha em sua obra prima “Os Sertões”.
     Falar de Canudos hoje não é apenas relembrar um passado remoto e esquecido, é em certa medida fazer uma análise histórica sobre o ocorrido e fazer uma ponte até o nosso presente.

     

Sobre Euclydes  da Cunha e Sua Obra
      Euclides da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1866 em Cantagalo no Rio de Janeiro e foi morto em 15 de agosto de 1909. Foi um militar positivista formado na escola Politécnica da Praia Vermelha, se formando em engenharia. Em 1897 se tornou correspondente de guerra.
     Euclydes da Cunha era repórter do jornal O Estado de São Paulo quando foi junto da quarta expedição comandada pelo Marechal Carlos Machado de Bittencourt. Ele esperava encontrar uma grande insurreição monarquista que tentava derrubar a República. No entanto o que ele viu foi uma população sofrida que tinha conseguido uma vida melhor sem a ajuda do governo. Ele conseguiu captar bem a essência dos fatos ocorridos.
     Os Sertões é um relato muito bem trabalhado sobre a vida dos sertanejos, suas condições de vida o tipo de terreno onde vivem, fazendo um retrato do descaso do governo para com o interior do país.
     O livro Os Sertões só veio a público em 1902, por vários motivos e um deles é o fato do autor trabalhar como engenheiro na construção de uma ponte, como ele mesmo diz em seu livro.
     Ele deixou Canudos quatro dias antes do desfecho final do arraial, mas conseguiu juntar material suficiente para elaborar sua obra.
     Os Sertões foi e continua sendo um grande ápice literário, mesmo com todos os problemas que o autor tem. Sua obra valeu a vaga na Academia Brasileira de Letras e para o Instituto História e Geográfico Brasileiro  (IHGB).
     Sua obra está dividida em três partes distintas onde ele apresenta a terra e seus aspectos geográficos, botânicos e hidrográficos, o homem e a luta.
     Euclides morreu baleado pelo amante de sua esposa em 15 de agosto de 1909, quando foi confrontá lo armado . Esse episódio ficou conhecido como Tragédia da Piedade, porque ocorreu no bairro da Piedade, zona norte do Rio de Janeiro.

     

Conclusão

     A Guerra de Canudos foi uma das piores barbaridades já acontecidas dentro do Brasil, onde o exército brasileiro assassinou mais de 20 mil outros brasileiros que viviam à margem da sociedade. Esses povos nordestinos que viu uma salvação sob o comando de Antônio Conselheiro, uma espécie de ermitão da caatinga que perambulavam pelo sertão numa pregação evangélica. Após conseguirem uma vida digna onde podiam viver numa espécie de utopia evangélica esses sertanejos foram cruelmente perseguidos pelo governo que antes o ignoravam por completo. Mesmo depois de três vitórias armadas Canudos foi finalmente destroçada pelas forças militares do Brasil. Toda essa tragédia se tornaria uma grande obra literária escrita por Euclides da Cunha que ajudou a história de Canudos se tornar algo homérico e valoroso. Pena que o Brasil ainda hoje é um país que olha pouco para seus desamparados, tendo inclusive colocado um ex presidente  que lutou por essa gente atrás das grades.
Joey Rascunho
Enviado por Joey Rascunho em 04/07/2018
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