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                              O MENINO.

                                                            
.
O menino, apenas 12 anos, ajudava o pai a carregar pesado feixe de lenha.
Tropeçando, apressado, pois seu pai já havia tomado a dianteira, seguia o menino.
Gorro surrado pelo uso, enterrado até as orelhas, narizinho vermelho pelo frio, o menino pensava.
- Mamãe nos espera com uma bela tigela de sopa quentinha.
Seu estomago vazio desde o almoço, ansiava um prato bem cheio da sopa deliciosa que sua mãe fazia com as hortaliças que ele ajudava cultivar. Tinha o pão, caseiro que sua mãe preparava... Huuum que delicia.
Já avistavam a casa humilde, dois cômodos grandes, onde se ajeitavam seus pais, seu irmão Paulo e irmãzinha Neiva com apenas dois aninhos.
O quarto era dividido por uma cortina, o que transformava o aposento em dois. André e Paulo tinham seu quarto!
Neiva dormia com seus pais no outro lado da cortina.
Dona Jacira senhora robusta, um pouco obesa, honesta e trabalhadora, era mãe exemplar, Queria muito que seus filhos estudassem, “para ser alguém na vida.” Dizia.
André sabia ler,escrever, pois sua mãe com muito carinho passava-lhe seu conhecimento, mas ele sabia da preocupação dela quanto ao seu futuro.
As vezes antes que o sono viesse, André ouvia sua mãe conversando sobre o futuro incerto de seus filhos.
-Antenor... Como fazer para que André estude, aqui no mato, os recursos são poucos, a Vila é longe, como mandar André estudar?
-Calma Jacira... Deus há de dar um jeito.
-Sim Antenor, mas você também tem que se espertar, não pode ficar esperando que Deus dê jeito pra tudo homem.
_ Tá... amanhã conversamos, to tão cansado...
_André queria muito estudar, “ser alguém na vida”, quem sabe seria médico, ou dentista...levaria seus pais e irmãos pra cidade, compraria uma televisão...
Embalado pelos pensamentos pegou no sono.
A manhã estava radiante. O sol penetrava pelo pequeno orifício, um nozinho da madeira que se desprendera com o tempo.
Seu pai queria concertá-lo, mas André lhe pedira para deixar, gostava de colocar a mão em concha sobre a claridade que entrava nas manhãs de sol,
ou espiar pela fresta as galinhas,os patos no quintal, bem ali perto da horta, apenas separada das aves por uma cerquinha de bambu, muita vezes via sua mãe na horta, ela sorria sentindo o olhar de seu filho, André sorria também.
Pulava da cama quando sua mãe entrava, a pequena mesa estava posta, pão caseiro, mel, queijo, no fogão de lenha, o café, o leite que vinha do sitio do seu Manoel, visinho um pouco distante, mas que passava sempre por ali, trazendo o leite, levando o queijo que dona Jacira e seu Antenor faziam e que era vendido na aldeia.
-Se lave e escove os dentes André... Hoje seu pai vai te levar pra Vila, é bom você ir conhecendo as pessoas, quero que estude, quem sabe nos mudamos pra
lá pra você começar a estudar. Ponha essa roupa, ta- limpinha.
Ir pra Vila, que maravilha...
-Cadê o pai, mãe?
- Ele ta vindo, se aprume menino, é bom sair cedo, anda com esse café.
O menino mastigou com gosto, tomou o café com leite a grandes goles.
 -To pronto mãe, cadê o pai?
- To aqui filho, já vamos.
Os dois saíram alegres.
–Vão com Deus.
-Fiquem com Ele, responderam juntos.
A Vila era linda mesmo, tinha açougue, padaria, farmácia, escola.
-Olha pai que bonita a escola.
-Pois não é? É mesmo uma belezurra!!
Seu Antenor fazia as compras para a casa e André acompanhava tudo, maravilhado, primeira vez que ia à Vila, parecia sonho.
-Venha menino, vamos sentar ali pra comer o almoço que sua mãe preparou, ta com fome?
-Tô pai.
-Antenor, ôô  Antenor!!!!, home de Deus que desgraça...
-Que foi seu Manoel???
-Antenor, dona Jacira..., ta morta... morreu cuidando da horta, passei lá pra buscar o queijo...
-Meu pai ficou branco, de sua boca não saiu nem um gemido, pegou-me as mão e me guiou até a carroça, o caminho de volta foi muito sofrido.
Os cavalos iam mais devagar que nunca, meu pai mal tocava as redias.
De uma certa altura pudemos ver nossa casa. Havia algumas pessoas no lado de fora, a nossa espera.
-Que desgraça seu Antenor, que será de oceis, sem Jacira...
-Menino,vai lá com seus irmãos vai?
Que dor atroz eu sentia, não é verdade meu Deus, não pode ser verdade...
Já anoitecia, puseram mamãe num caixão que fizeram, a mesa no quarto, perto da cama do casal. Aquele cheiro de velas, ficaria pra sempre comigo.
Meu pai, abobalhado, não chorava, não falava, até que seu Juvêncio lhe trouxe uma garrafa de pinga.
-Beba Antenor, vai te fazer bem.
Mamãe sempre dizia que bebida faz mal, nunca vi meu pai beber. até aquele dia.
Mas ele bebeu e muito. Passou a noite bebendo.
Logo de manhã, levaram mamãe pra ser enterrada debaixo das árvores.
Meu pai, não conseguiu acompanhar o enterro, eu fui com dona Corina, que não desgrudou de mim e meus irmãos nem um minuto.
Vez ou outra chorava e dizia, Deus toma conta dela, que será dessas crianças? Seu eu pudesse ficava com elas, mas bem sabe Senhor...
Olhava pra mim e se calava. Eu não tinha pensado o que seria de nós, mamãe ia fazer tanta falta, mas tinha nosso pai, com certeza tomaria conta de nós.
Chegamos em casa.
- Olha seus filhos Seu Antenor, a vida precisa continuar. Para de beber homem.
Dona Corina se foi, papai entrou no quarto.
Ficamos ali, parados meus irmãos e eu.
Tá com fome Neiva?
-Tô, respondeu, cadê a mãe?
_Tá no Céu, disse Paulo olhando rapidamente para mim, foi dona Corina que disse!
-Ta no Céu sim...
-E quando vai voltar? Quero a mãe.
Choramos juntos.
Papai transpassado pela bebida estava alheio à tudo.
Dormimos todos no nosso quarto aquela noite.
Aquele cheiro de vela...
De madrugada, com os olhos ardendo pela noite mal dormida, ouvi barulho, meu pai tropeçara no banco.
-É o sr. Pai?
Me levantei as pressas.
Meu pai acabara de sair. Pude ver que ele levava uma corda na mão.
Foi a ultima vez que eu vi meu Pai.
Cuidei de meus irmãos da medida que eu podia, meu pai não voltava...
Passou um dia, uma noite outro dia, sei lá quantos depois, chegou em casa dona Corina.
Olhos vermelhos chegou chorando e dizendo:
-Tadinho de vocês...Que será de vocês meu Deus.
Então eu soube que meu pai havia se enforcado e tinha sido enterrado por lá mesmo.
- Chorei muito, sem mãe sem pai...
Minha dor era tamanha que nem pensei o que seria de nós, só queria minha mãe meu pai ali por perto.
Dona Corina nos levou para a casa dela, mas foi logo dizendo:
-È por pouco meus filhos eu não posso criá-los.
-Eu gostava da dona Corina, fazia tudo para ajudá-la, cuidava de meus irmãozinhos, da horta, dava de comer às galinhas, mas um dia...
-Sinto tanto meus queridos, muito mesmo...
Vou leva-los à Vila tem umas famílias lá que cuidarão de vocês.
-Neiva logo agradou seu José da farmácia e sua esposa Isaurinha, casal novo mas sem filhos, Paulo fora levado pelo seu Seu Antonio, só me lembro o nome.
E Eu? Ninguém me queria... Era velho demais, como pode? Eu era criança.
Dona Corina me explicou:
_ Você espera um pouco que alguém há de te querer. 
-Mas esperar onde?
-Na casa do carroceiro, ele vai te dar emprego. 
-Mas e a nossa casa?
-Vendi, foi com esse dinheiro que cuidei de vocês.
-Mas e meus irmãos?
-Haa meu filho, eles estão amparados.
-Mas eu vou poder vê-los?
-Já isso eu não sei, acho que as famílias não vão gostar.
-Mas...
-Fica com Deus filho, tenho que ir, tá tarde.
_E lá eu fiquei na Casa do seu Geraldo, homem rude mas, bom. Deu-me um quartinho nos fundos, cheio de arreios e cordas, de vez em quando me lembrava do pai, Eu via-o segurando uma daquelas cordas.
-Vou estudar...A mãe queria tanto...
-Seu Geraldo... quero estudar...
-“Eita menino, cê num tem tempo não”.
- Deixa seu Geraldo, estudo de noite.
-“Vamo vê, vamo vê”..
O tempo passava e nada .

Estava já com quase treze anos, não podia nem chegar perto da nova casa de Neiva que me ameaçavam com policia, Paulo, sabe Deus onde anda mais seu Antonio...
Vou estudar nem que tenha que fugir, a vou.
E foi o que eu fiz.
Esperei o dia de Santa Rita.
Tinha um festão na Aldeia, vinha gente da cidade pra visitar a santa, romaria e tudo, coisa mais linda.
Fiquei por ali e como quem não quer nada, segui um pessoal que eu sabia era da cidade.
- Hei menino...
Gelei.
-Euu??
-Você mesmo, onde estão seus pais?
_Logo mais ali adiante.
-Por que você não está com eles?
-Minha família é muito pobre, fiquei por aqui pra ver se me oferecem o de comer.
-Pois eu te ofereço, mas depois procure seus pais.
 Não é bom ficar sosinho.
-Ta bom moço, obrigado.
-Aquele pão com mortadela e o suco de caju era a melhor comida que eu já provara, huuuum muito bom.
-Agora que já comeu...
Um desespero tão forte  apoderou-se de mim. Comecei a chorar, lembrando na mãe, no pai nos irmãos, eu estava só...
-EEEE menino que é isso, por que o choro?
Não agüentei mais e entre soluços contei tudo ao moço. Logo senti suas mãos em meus cabelos, igualzinho a mãe fazia pra me consolar de alguma coisa.
-Por hoje vamos acampar aqui, amanhã voltaremos para a Aldeia. Quero conversar com seu Geraldo.
Uma grande paz invadiu-me.
-Seu Geraldo, bom dia!
-Bom dia moço, vejo que trouxe o pirralho fujão.
-Pois é... Quero ficar com o menino.
-“Pois inte pode, se acerta as dispeza”
-Pelo que eu soube ele trabalhava para o sr.
-‘Lá é mai... num cubria os gasto, esse pirralho come.
-Pois vou levar o menino e o sr. se quizer vá se queixar para o juizado de menores.
-“Num carece, leve o minino...”
Meu coração parecia que ia sair do peito de tanta felicidade, ia ter um lar, estudar. Ó bom Deus...
Vinte anos se passaram. Hoje sou Dr.André, bom médico, visito sempre meus irmãos que também estudaram e vivem bem.
Cada dia de minha vida eu agradeço, a Deus por ter me mandado pais adotivos, tão maravilhosos.Minha mãezinha, meu paizinho, aonde que que estejam sei que estão nos vendo e torcendo por nós.
Muita paz!
































RoseRolim
Enviado por RoseRolim em 30/11/2007
Reeditado em 27/11/2010
Código do texto: T759830

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Sobre a autora
RoseRolim
Manaus - Amazonas - Brasil, 71 anos
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