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RENGA : Chuva de verão                   
                                                            Condução Benedita Azevedo
***

01
Chuva de verão –
Barulho de água na calhas,
no mais, o silêncio.
----------Carlos Martins
02
Dormem juntinhos na gruta
o rebanho e o pastor.
-----------Regina Alonso
03
Guardando a entrada
a cadela de vigia --
Estronda o trovão.
------------Benedita Azevedo.
04
"O relâmpago ilumina
as casas na noite escura".
------------Carlos Martins
05
Tempo nebuloso
risca o céu de colorido –
Duplo arco-íris.
-----------Sandra Hiraga
06
No pontilhão da cidade
sorri casal de mendigos.
------------Regina Alonso.
07
Voluntário chega
com uma sopa quentinha
após o toró
------------Clara Znifer
08
Na frente da Catedral
os moradores de rua.
------------Nilza Azzi
09
Bando de andorinhas -
O céu por alguns instantes
no olhar do mendigo
------------Rose Mendes
10
Uma ponta de saudade
passa pelo pensamento.
-----------Sandra Hiraga
11
Revoada de pombos
em torno do coreto ---
Manhã de verão
----------Carlos Martins
12
A criançada na creche
corre na recreação!
----------Benedita Azevedo.
13
As folhas ao sol
lembram a arte da Criação
por puro Amor...
---------Antonio De Jesus Anjes
14
Caminhantes continuam
pela alameda em flor.
----------Regina Alonso
15
O sol ardente
plácido corre o riacho
homens conversam
---------Antonio De Jesus Anjes
16
Dois pescadores com anzol
enchem a cesta de peixes.
---------Benedita Azevedo.
17
Tarde preguiçosa ―
Em uníssono as cigarras
na mata do rio.
---------Carlos Martins
18
voa, voa um passarinho
sobre o mistério da tarde
----------Rose Mendes
19
Apenas silêncio
e o arrebol de verão -
Olhar para o céu...
--------Marco Aurélio Goulart
20
Lá sobre a Serra do Órgãos
a cachoeira murmura
---------Benedita Azevedo
21
Uma gota d’água
Pinga, pinga persistente
Perfurando a rocha
---------Pedro Caluchi
22
a tarde vai se esvaindo
e esta chuva que não cessa.
---------Elisa Campos
23
vai chegando a noite
cantam os pássaros pretos
entre o bambuzal
---------Severino José
24
num farfalhar de folhas
meus passos seguem a trilha
---------Elisa Campos
25
Noite silenciosa...
só o grito da coruja
rasga a escuridão!
--------Benedita Azevedo.
26
Passa, na noite sem lua,
o jovem casal em juras.
-------Carlos Martins
27
Silêncio na noite
aves pousadas nos ramos
anjos sobre a terra
--------Rose Mendes
28
Nem passarinhos verão
a morna chuva de estrelas.
--------Marco Bastos
29
Chia no fogão
a comida preferida
pescada frita
---------Regina Alonso
30
a mesa posta pra dois
e um som suave no ar.
---------Benedita Azevedo.
31
por todo o quintal
sinais visíveis de chuva
ah!, a brisa fresca!
---------Severino José
32
ao arrepio do sabiá
horas passam no telhado.
33
amoroso encontro
a noite cai na cidade
não há solidão
--------Rose Mendes
34
Ao sopro do vento frio
um abraço aquece o casal.
--------Marco Aurélio.
35
crianças brincam
com um enorme cipó ―
Campo de verão.
--------Carlos Martins
36
Sombra de corpos no chão
e lá se vai a manhã... 
-------------Regina Alonso
***
Praia do Anil, Magé - RJ
14-01-2018, antes do Fantástico, terminamos nosso fantástico RENGA! Às 20h 41m.
-
Benedita Azevedo.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Referências

RENGA : Chuva de verão

* Inspirado no haiga de Carlos Martins.
* Conduzido por Benedita Azevedo
* Comentários de Regina Alonso.

* Participantes: Carlos Martins, Regina Alonso, Benedita Azevedo, Sandra Hiraga, Clara Szanifer, Nilza Azze, Marco Bastos, Rose Mendes, Antonio de Jesus Anjes, Marco Aurélio Alencar, Pedro Caluchi, Elisa Campos, Severino José.

Um trabalho coletivo é feito uma engrenagem onde todos as peças são imprescindíveis. Obrigada a todos que aceitaram o convite de caminhar conosco pelas estações deste RENGA. Só mostrar um já realizado não daria a dimensão das dificuldades de encadear as várias ideias do grupo participante.

Já houvera falado com o Carlos Martins sobre realizar um renga neste grupo. A oportunidade aconteceu com a chegada da Regina Alonso. O desafio veio com a postagem do haiga do Carlos "Chuva de verão". Regina pediu licença e juntou um dístico ao haicai dele, formando um belo tanka.

Vi no título semelhança com o renga do qual eu participara, em 2010, sob a orientação do Professor, Paulo Franchetti, na (Lista Haicai, comandada por ele e Rosa Clement).

Arrisquei a 3ª estrofe e perguntei se poderia dar sequência ao tanka. Tive o incentivo dos dois. Foi uma experiência incrível. Numa semana completamos as 36 estrofes.

Foi uma experiência fantástica de grande aprendizado e ousadia, de aprender fazer... fazendo!

Obrigada Carlos Martins, pelas palavras sempre positivas, leves, zen!
Obrigada, Regina Alonso, pelo apoio e colaboração. Pelo fantástico comentário que moatraremos a seguir, fechando assim, nosso primeiro renga com a participação dos membros dos três grupos de haicai virtual: Haikai & Seus Ascendentes e Descendentes, Grêmio Haicai Sabiá e Grêmio Haicai Águas de Março.
*********************************************************************
                                    COMENTÁRIO

RENGA : Chuva de verão         
                                                            Comentários: Regina Alonso       


Chuva de verão –
Barulho de água na calhas,
no mais, o silêncio.
Dormem juntinhos na gruta
o rebanho e o pastor.
............Carlos Martins e Regina Alonso
           

          Os primeiros versos trazem com sensibilidade e maestria a chuva de verão, forte e rápida: resta apenas o barulho sutil da água nas calhas. No dístico, o silêncio prevalece na quietude do sono do pastor (homem que cuida, tal qual a mãe) junto ao rebanho (a lembrar os filhos) na gruta (útero primevo).  O renga é prática antiga usada muito antes de Bashô (séc XVII): considero este início muito feliz e adequado ao renga, pois os versos se encadeiam numa cena, ritmo e silêncio que traz  a natureza (homem, chuva, animais) no tempo de hoje (agora) mas que nos permite sentir o outro tempo (distante, anterior) longíquo quando começou o renga.
 


Dormem juntinhos na gruta
o rebanho e o pastor.
Guardando a entrada
a cadela de vigia --
Estronda o trovão.
------------Regina e Benedita
           
          Mudança do ambiente com sutileza, da quietude para o movimento/barulho: o verso 'a cadela de vigia' sugere que algo pode acontecer... E o silêncio é quebrado com o barulho do trovão.
 

Guardando a entrada
a cadela de vigia --
Estronda o trovão.
"O relâmpago ilumina
as casas na noite escura".
-----------Benedita e Carlos Martins
           

          As casas estarão à escura por que é noite ou faltou luz com o estrondar do trovão? O que importa é o contraponto do clarão com o escuro da noite, trazendo o belo mesmo diante do perigo... 'do homem que vive o risco de viver', apenas viver é o que vale! Contrapondo também ao guardar (remete à vigilância, em silêncio e com atenção) a entrada da gruta, o barulho do trovão. O encadeamento se faz por esses contrapontos...
 
"O relâmpago ilumina
as casas na noite escura".
Tempo nebuloso
risca o céu de colorido –
Duplo arco-íris.
----------Carlos e Sandra Hiraga
           

          Ainda é verão (o kigo arco-íris é típico de verão, quando  apresentam arcos bem  nítidos e grandiosos), mas o renga é levado para outro lado, da escuridão/negror, do barulho e talvez medo, para o arco-íris em cores duplicadas, trazendo luz, alegria com muita sutileza: nada é explícito...


apenas sugerido.
Tempo nebuloso
risca o céu de colorido –
Duplo arco-íris.
No pontilhão da cidade
sorri casal de mendigos.
------------Sandra Hiraga e Regina
           

          A alegria da luz e da cor é ampliada até aos mendigos, que sorriem, esquecidos talvez das agruras da vida de privações diante da vivacidade (que bem caracteriza o verão) sugerida. Achei muito adequado ao andamento do renga, o 'casal' numa relação sutil com o 'duplo' arco-íris, reforçando a sensação de que os sonhos efervescem nesta estação.    


No pontilhão da cidade
sorri casal de mendigos.
Voluntário chega
com uma sopa quentinha
após o toró
--------------Regina e Clara Znifer
           

          Oportuna não só a chegada do voluntário com a sopa quentinha, amarrando bem com os mendigos num clima de solidariedade, mas também 'o toró' que quebra o andamento anterior, mais suave...  A sopa foi servida 'após o toró', que 'fecha' inesperadamente o momento, o acontecer. A gente sente que tudo se alterna em diferente andamento, quase como a lembrar 'depois da tempestade vem a bonança'.


Voluntário chega
com uma sopa quentinha
após o toró
Na frente da Catedral
os moradores de rua.
---------------Clara e Nilza Azzi
           

          Antes os mendigos, agora os moradores de rua compõem a cena talvez numa praça onde está a Catedral. Confesso que tive medo de que o renga corresse o risco de 'parar', prender-se na mesma situação (pessoas em estado de risco).


Na frente da Catedral
os moradores de rua.
Bando de andorinhas -
O céu por alguns instantes
no olhar do mendigo
--------------Nilza e Rose Mendes
           

          As andorinhas (de verão, assim eu sinto) mudam a situação, desviam da cena anterior, embora haja a volta ao mendigo que já está longe e talvez devesse se distanciar, isto é, não ser citado tão proximamente.  Mas... eis que a expressão 'por alguns instantes' salva o renga desse risco e dá um certo afastamento, pois tudo acontece num átimo de tempo.



Bando de andorinhas -
O céu por alguns instantes
no olhar do mendigo
Uma ponta de saudade
passa pelo pensamento.
----------Rose e Sandra Hiraga
           

          As andorinhas em bando dão o clima de partida ou chegada, propício à saudade, que dá continuidade ao renga levando-o com harmonia.
 
Uma ponta de saudade
passa pelo pensamento.
Revoada de pombos
em torno do coreto ---
Manhã de verão
-------Sandra e Carlos Martins
           

          Os pombos voam, geralmente fazem barulho, afinal é verão e é manhã, o horizonte se alarga... A saudade parece ir embora, como se o movimento da revoada limpasse a cena anterior, sem perder o encadeamento, pois podemos imaginar que há pessoas no coreto: mendigo?morador de rua? outros?...
 

Revoada de pombos
em torno do coreto ---
Manhã de verão.
A criançada na creche
corre na recreação!
----------Carlos e Benedita Azevedo.
           

          Tudo é movimento, a vivacidade é típica do verão: pombos (aves) e crianças (gente), todos seres vivos, alegres na claridade e calor desta estação. Encadeamento se dá pela evolução da agitação da revoada dos pombos 'livres' em volta do coreto para a correria das crianças 'presas' (num espaço fechado) na creche. Essa contraposição entre os espaços "aberto/fechado" foi sutil e movimentou/'levou' o renga com presteza.
 

A criançada na creche
corre na recreação!
As folhas ao sol
lembram a arte da Criação
por puro Amor...
-----Benedita e Antonio Anjes


            O haicai prestigia a natureza, ou melhor, é a natureza que 'fala' ao haijin. O homem é natureza e sabe que o Amor é o fulcro do convívio em harmonia com todos os seres vivos. O mistério da Criação trazido pelo brilho/luz das flores ao sol, parece iluminar também o haijin, que sutilmente (sem explicitar), coloca-se com humildade e nos passa gratidão pela vida.
            Oportuno lembrar H. Masuda Goga: Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô. Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo, de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte se tornado cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo (o trecho grifado por mim, acredito, remete ao que comentei anteriormente).
            As crianças correm (movimentam-se) no seu viver, mas as folhas imóveis (supõe-se) recebem direto a 'luz'(criação), sem fazer qualquer movimento/ação. Encadeamento pelos opostos 'movimentoXimobilidade'.
 

As folhas ao sol
lembram a arte da Criação
por puro Amor...
Caminhantes continuam
pela alameda em flor.
---------Antonio e Regina Alonso
           
           

          Gosto da ideia do caminhante (cada homem no caminho, no seu viver) continuar apesar das vicissitudes, isto é, apenas viver. Entregar-se ao que é traz as flores que me remetem à leveza, ao belo... e o renga caminha 'naturalmente', sem ficar 'engessado' na imobilidade das folhas (imobilidade? talvez entregues à luz natural, dádiva - do Sol; ser criatura por arte da Criação... por puro Amor).
 

Caminhantes continuam
pela alameda em flor.
O sol ardente
plácido corre o riacho
homens conversam
-------Regina e Antonio Anjes
           
           

          E o renga continua , mas percebemos que o andamento muda:  da leveza para o sol ardente, talvez dezembro (início das férias de verão) ou quem sabe fevereiro (quando terminam as férias de verão), dois meses bem quentes. Gostei da placidez do riacho contrapondo-se ao calorão que 'abate', mas o riacho está cheio devido às chuvas típicas dessa estação... as águas correm seguindo seu curso natural... e parecem levar os homens para o encontro com o outro, quem sabe sentados nas pedras ao redor do riacho... e a conversa 'rola' espontânea como as águas.



O sol ardente
plácido corre o riacho
homens conversam
Dois pescadores de anzol
enchem a cesta de peixes.
-------Antônio e Benedita Azevedo.
           
           

          O encadeamento se dá pela água do riacho que leva dois homens à pescar. Tudo é harmonia, a conversa cessa e faz-se  silêncio, podemos supor, quando os  homens ficam atentos a escolher e prender iscas. Depois, imaginamos o silêncio interrompido pelo lançamento do anzol nas águas e quem sabe até pelas expressões de espanto, alegria (ou decepção) com o peixe que vem preso ao anzol e vai para a cesta.


Dois pescadores com anzol
enchem a cesta de peixes.
Tarde preguiçosa ―
Em uníssono as cigarras
na mata do rio.
-----------Benedita e Carlos Martins
           

          Agora o encadeamento se faz por similitude de sons: antes, ruídos, expressões  quase barulho 'leve' (permitam-me para ser mais clara); agora o zunir inconfundível das cigarras rompe com força, quebra de vez o silêncio e nos leva mais longe, adiante... para a mata.



Tarde preguiçosa ―
Em uníssono as cigarras
na mata do rio.
voa, voa um passarinho
sobre o mistério da tarde
----------Carlos e Rose Mendes
           

          Percebo que a tarde finda, pela agregação da palavra 'mistério' ao último verso.          O renga segue no voo do de um só passarinho. Talvez a intenção seja passar do zunir de muitas cigarras (em uníssono) para a tarde que se vai, sem pressa, no voo de 'um só' passarinho. Da tensão forte do canto estrídulo das cigarras afrouxamos para o voo do pássaro em solidão e provável silêncio, ao entardecer. Gostei da mudança de 'muitas' (cigarras) para 'um', solidão que sempre perpassa o entardecer (embora no verão haja a alegria das cores, do dia/luz que se alonga... porém, na mata, a solidão ao entardecer é mais  'visível/sentida', mesmo nessa estação).


voa, voa um passarinho
sobre o mistério da tarde
Apenas silêncio
e o arrebol de verão -
Olhar para o céu...
----------Rose e Marco Aurélio
           

          Encadeamento sutil. Sinto que o silêncio 'arde' ao sol poente, quando o vermelho intenso, vivo e brilhante cobre o céu, que parece em chamas...  E quase intuitivamente, erguemos os olhos ao céu e contemplamos algo que é 'fogo', beleza do fenômeno natural. Há contemplação e movimento da cabeça para o alto que conduzem com muita sutileza, o renga.
 
Apenas silêncio
e o arrebol de verão -
Olhar para o céu...
Lá sobre a Serra do Órgãos
a cachoeira murmura
------Marco Aurélio e Benedita
           

          O encadeamento traz cena de extrema beleza. A cachoeira, no verão, abundante, devido às chuvas. O curso do rio, em queda vertical. A denominação do local coloca o renga 'no chão', no real acontecer e sai do clima de silenciosa contemplação. Agora a cachoeira murmura e os sons despertam, cortam a quietude e conduzem o renga.


Lá sobre a Serra do Órgãos
a cachoeira murmura
Uma gota d’água
Pinga, pinga persistente
Perfurando a rocha
--------Benedita e Pedro Caluchi


            Excelente a passagem da abundância de água para um pingo e sua força. O pingo, na persistência de seu fazer/ser, perfura a rocha... Os versos me fizeram lembrar de Bashô em sua viagem pelo Japão inóspito e longínquo, especialmente ao norte. E ele continuou, enfrentando o árduo caminho para levar a poesia, praticar com os que o recebiam... e exultar ao encontrar, compartilhar e ouvir/colher tão belos poemas, sem saber que precisaria vir longe, tão longe para encontrar a beleza! Esse encadeamento (e andamento do renga) para mim é de extrema sensibilidade e percepção.
 

Uma gota d’água
Pinga, pinga persistente
Perfurando a rocha
a tarde vai se esvaindo
e esta chuva que não cessa.
--------Pedro Caluchi e Elisa Campos


            A chuva está de volta ligando-se perfeitamente ao pingo persistente. Tudo se esvai, o tempo (a tarde)... e faz sentir a impermanência, o transitório viver, eterna mudança, tempo inexorável. Só a chuva teima em permanecer: o último verso ('e esta chuva que não cessa) dá sensação de impaciência (nostalgia?) do homem, talvez até cansado de esperar por uma trégua (mudança meteorológica). A tarde passa, só a chuva fica, o contraditório no inabalável (tarde e chuva): tarde inexorável passa e chuva, também inexorável, parece ter vontade própria e permanece, apesar da vontade do homem consciente de que não pode mudar o que é. Este sentimento de impossibilidade, tempo e espera da mudança (nova estação?) é que,contraditoriamente conduz o renga.
 

a tarde vai se esvaindo
e esta chuva que não cessa.
vai chegando a noite
cantam os pássaros pretos
entre o bambuzal
-------------Elisa e Severino José.


            Oportuna a chegada dos pássaros pretos (vivem em pequenos bandos, fazem muito barulho) – indica mudança de estação: verão para outono (talvez se iniciando e nos livrando do calor abafado). Conhecido como graúna, assum-preto, melro... é inteiro negro, o que origina seu nome popular. A noite está chegando: ainda há luz e podemos vê-los no lusco-fusco do anoitecer. É um dos pássaros de voz mais melodiosa, o que nos faz imaginar a beleza da canção que passa entre as hastes e folhas do bambuzal e conceber ainda o arrepiar das penas da cabeça e pescoço, enquanto canta.  Até a fêmea canta.  O canto dos pássaros avisa sutilmente, que a chuva passou. O renga é levado (e nos leva) à passagem da tarde para a noite pelo canto harmonioso. O movimento dos bambus (podemos pressupor que são novos, com hastes flexíveis e folhas viçosas) completam o andamento, encadeando e levando o renga numa composição de cena cheia de formosura, diminuindo  a sensação de monotonia e melancolia do outono.


vai chegando a noite
cantam os pássaros pretos
entre o bambuzal
num farfalhar de folhas
meus passos seguem a trilha
---------Severino e Elisa Campos


            A chuva cessa, os pássaros cantam e o homem (o próprio poeta?) pode seguir a trilha, o caminho que a natureza lhe aponta. O encadeamento sutil se faz pelos sons (do forte ao leve): do canto intenso dos pássaros pretos ao farfalhar (rumorejar, ciciar) de folhas.



num farfalhar de folhas
meus passos seguem a trilha
Noite silenciosa...
só o grito da coruja
rasga a escuridão!
--------Benedita Azevedo.


            O tempo vai com os passos do caminhante, tempo que se amplia, alonga pelo caminho (vida?) sem fim... e o  grito da coruja na escuridão, lembra a 'morte' do verão e do outono, pois tudo passa na roda do viver-morrer, recomeçar no novo tempo (estação/inverno) anunciado pelo grito que rasga a escuridão. A coruja procura abrigo e alimento? O que importa é o círculo do tempo inexorável, que faz um encadeamento forte pela 'quebra' do cicio das folhas ('quase' silêncio) ao grito da coruja. E leva o renga
pelo caminho (tempo  inabalável do homem).    


Noite silenciosa...
só o grito da coruja
rasga a escuridão!
Passa, na noite sem lua,
o jovem casal em juras.
---------Benedita e Carlos Martins


            Sim, contraditório é o tempo: transitório pelas estações, em constantes mudanças e inflexível diante do mistério 'vida-morte' (nascer para morrer... morrer para nascer). É inverno (coruja é kigo de inverno), e o encadeamento se faz pela 'noite sem lua', que reforça o escuro da cena anterior, mas sem 'colar' no negror, pois aparece 'o jovem casal em juras', o que 'ilumina' o poema de 'outra luz '(do amor? do convívio?). O que vale é o andamento e mudança de tensão intensa para afrouxamento pela cena de aconchego.

 
Passa, na noite sem lua,
o jovem casal em juras.
Silêncio na noite
aves pousadas nos ramos
anjos sobre a terra
-----------Carlos Martins e Rose Mendes.


            Confesso que me fiquei um pouco perdida no último verso. Senti necessidade  de saber um pouco sobre o que são os anjos: mais poderosos do que os humanos,  vivem no céu. Seres espirituais, sem um corpo físico real, mas têm inteligência, emoções e vontade. O fato de não terem corpos não muda o fato de terem suas personalidades. Criados como uma ordem superior de criaturas no universo, em comparação aos seres humanos, é de sua natureza possuir maior conhecimento, adquirido através da longa observação das atividades dos humanos.
            Podemos imaginar no frio da noite sem lua, o casal em juras. E vem o silêncio das aves em pouso nos ramos... o casal em juras seria a personificação dos anjos sobre a terra? Sinto-me confusa e apreensiva - o renga vai ficar paralisado? Ou será conduzido pelos seres espirituais que adquirem conhecimento observando o casal em juras e neste caso não haveria personificação? Seriam anjos mesmo sobre a terra, mesmo sem corpo físico, mas personificados pelas aves em pouso nos ramos?


Silêncio na noite
aves pousadas nos ramos
anjos sobre a terra
Nem passarinhos verão
a morna chuva de estrelas.
---------Rose e Marco Bastos.


            Lindo e oportuno o último verso, 'a morna chuva de estrelas', que condiz com o clima anterior, mas traz a renovação do renga, ao propor um caminho novo, surpreendente. A chuva é morna, tépida e real, mas só vista pelos que contemplam, pelos que erguem os olhos às alturas? 'Nem passarinhos verão'  reforça a natureza  das alturas (céu, estrelas) a acontecer inexoravelmente, diante ou distante de qualquer olhar
Parece-me que intuitivamente a primavera se insinua.


Nem passarinhos verão
a morna chuva de estrelas.
Chia no fogão
a comida preferida
pescada frita
-----------Marcos Bastos e Regina Alonso.


            Pescadinha é abundante em setembro, e assim passamos para a alegria da primavera, cores, sons (chiados do peixe na frigideira).  O renga é levado para outro lado, isto é, o acontecer passa do lado de fora (céu, estrelas) e conduz o renga para o lado de dentro (cozinha da casa) onde se dá o encontro  jovial em volta da mesa... o cheiro atrai (todos? alguns?) para mesmo lugar, onde a refeição é feita com júbilo, e dá a sensação de confirmar o renascimento (do homem e do próprio renga), afinal o 'peixe' também foi o primeiro alimento oferecido ao homem na travessia do mar.
 
Chia no fogão
a comida preferida
pescada frita
a mesa posta pra dois
e um som suave no ar.
---------Regina e Benedita Azevedo.


            A alegria pode ser compartida por apenas um casal (a mesa posta sugere... ) e o som suave insinua clima de romance, de paz, de harmonia. O renga caminha com sutileza e permite leve reflexão sobre a alegria como um estado de ser, estar e que independe da quantidade de pessoas...(reflexão sobre o mundo de hoje, redes sociais...)
 
a mesa posta pra dois
e um som suave no ar.
por todo o quintal
sinais visíveis de chuva
ah!, a brisa fresca!
--------Benedita e Severino José


            Adorável e pertinente esta brisa, que nos faz perceber que ainda caminhamos pela primavera... e a chuva (que já passou) faz 'liga' tênue com os versos anteriores e  aprofunda o renga, com o sentido de que o que já aconteceu (a chuva de primavera, silenciosa e constante, sugerindo desprendimento, despreocupação) possa trazer outros benefícios ao findar. Assim, podemos imaginar que a chuva, ao cessar, traz o frescor, ventinho gostoso que sopra , entra pela janela e refresca o local onde está a mesa posta... talvez o casal (namorados? amigos?não importa!) se aproxime da janela e converse, sentindo o vento de primavera. Lindo sentir que o renga é encadeado pela chuva (que cessa!) e levado suavemente pela refrescante e agradável brisa.


por todo o quintal
sinais visíveis de chuva
ah!, a brisa fresca!
ao arrepio do sabiá
horas passam no telhado.
--------------Severino José e Elisa Campos.


            O sabiá se arrepia à brisa refrescante, e horas (muito tempo) passam no telhado. Encadeamento pelo arrepio e quem sabe, até pelo canto, às vezes nostálgico, da ave. O telhado nos aproxima do alto, do céu de primavera e seu brilho menos intenso que o de verão. Certa imobilidade do tempo, dando sensação de quietude. 

ao arrepio do sabiá
horas passam no telhado.
amoroso encontro
a noite cai na cidade
não há solidão
----------Elisa Campos e Rose Mendes.


            A noite vem, noite de primavera, mais suave e clara, trazendo o encontro propício que encadeia e conduz o renga pelo convívio amoroso - não há solidão, ainda que haja nostalgia do canto de um só sabiá no telhado.



amoroso encontro
a noite cai na cidade
não há solidão
Ao sopro do vento frio
um abraço aquece o casal.
---------Rose Mendes e Marco Aurélio.


            Sinto que é vento frio de primavera, frio menos intenso que o de inverno... um abraço dá o calor necessário aos corpos e leva a solidão embora. O andamento do renga se faz pelo abraço que 'leva' o poema, o frio e a solidão embora. Aqui também me parece que o fim da primavera se insinua, ou melhor, que o abraço sugere certa vivacidade/energia que indica mudança de estação.



Ao sopro do vento frio
um abraço aquece o casal.
As crianças brincam
com um enorme cipó ―
Campo de verão.
-------Marco Aurélio e Carlos Martins


            E do recolhimento no abraço, o poema passa para a amplitude no movimento de balançar de crianças penduradas no cipó. Muito interessante esse encadeamento pelos opostos: 'fechar'(movimento de abraçar, abrigar) para 'abrir', 'ampliar' (movimento de balançar no cipó). A primavera finda, a estação é outra: é verão (de volta à estação do início do renga – o ir e vir das estações, do círculo viver-morre... renascer) – tempo de vivacidade, atividade, energia... trazidos pelo viço e frescor do verdejante campo de verão.
 
As crianças brincam
com um enorme cipó ―
Campo de verão.
Sombra de corpos no chão
e lá se vai a manhã...
---------Carlos Martins e Regina Alonso


            Aqui é nítido e ao mesmo tempo sutil o encadeamento entre os três primeiros versos e os dois últimos. Gosto da sensação de que tudo anda, passa, se transforma – 'sombra de corpos no chão/ e lá se vai a manhã' – no instante (tempo fugaz) que é o acontecer (a razão) do próprio haicai. Acho que o fechamento do renga é forte por trazer o sentido de transitoriedade do tempo, vida-morte que sustenta (ou leva adiante?) o renga que se movimenta como a vida-morte, no círculo inexorável do tempo, da existência.
 
          Obs sobre o título do renga: 'Chuva de verão', bem de acordo ao desenrolar do renga, onde a chuva provoca o primeiro poema e também é reiterada em outros.

verão/2018
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Praia do Anil, 19/01/2018, às 17h:57m
EMI Benedita Azevedo.
Carlos Martins
Regina Alonso
Benedita Azevedo, Carlos Martins e Regina Alonso e ouitros
Enviado por Benedita Azevedo em 19/04/2021
Reeditado em 19/04/2021
Código do texto: T7236234
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Sobre a autora
Benedita Azevedo
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 77 anos
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Benedita Azevedo

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