A violência como metáfora no conto Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca

*ANA KARINE BITTENCOURT C. ANDRADE

ERIDAM DE SANTANA COSTA

A VIOLÊNCIA COMO METÁFORA EM FELIZ ANO NOVO, DE RUBEM FONSECA

O conto Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, está revestido de uma violência e miséria que não são apenas sociais e econômicas, mas atingem o ser humano de forma tal, que sequer importa quem protagoniza essa violência: se os “marginais” que promovem o sangrento assalto ou os altos executivos que compõem uma sociedade opressora em que a lei do mais forte prevalece. A violência e a miséria retratadas nos contos de Rubem Fonseca seriam, deste modo, inerentes ao próprio ser humano, não importando o posicionamento individual nos valores hierárquicos de uma sociedade alicerçada, ela própria, sobre bases econômicas perversas. Os valores sociais subvertidos, no conto “Feliz Ano Novo”, apresentam a sociedade brasileira a partir de um ângulo que expõe unicamente a visão dos marginalizados, dos desprivilegiados, em detrimento do ponto de vista da classe privilegiada.

Acima de qualquer outra evidência, Feliz Ano Novo visa mostrar um mundo que fingimos não existir, talvez por não querermos nos deparar com a nossa responsabilidade. O grande trunfo de Feliz Ano Novo é tratar a violência com frieza, naturalidade, como se fosse algo bastante corriqueiro, o que a torna ainda mais cruel. Tal violência é perceptível na seguinte passagem do conto: Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão (FONSECA, 1989, p. 19).

Nesse trecho é possível perceber a crueldade dos assaltantes ao atirarem no peito do homem rico pelo simples fato de que desejavam testar a capacidade da arma e, também, para ter certeza de que, com o impacto dos tiros, o corpo ficaria preso à parede. É notável, também, a insensibilidade dos autores do assalto no momento em que, ao disparar os tiros contra o homem rico, um deles observa que no peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone (Ibidem, p.19). A selvageria evidenciada através da violência gratuita, do matar por matar, mostra que aquele não é um simples assalto, mas os primórdios de uma revolução. Eles não ambicionavam apenas o dinheiro e as jóias daquele povo rico, mas queriam, acima de tudo vingança, por anos de opressão e privação, estuprando as mulheres, matando por diversão.

Rubem Fonseca justifica as atitudes de seus personagens através da necessidade que estes têm de (sobre)viver, ou seja, seus personagens, segundo Silva (1983, p. 64), têm seus crimes justificados porque, na verdade, “o que querem, quando praticam qualquer ação armada, é comida; e satisfação de necessidades sexuais, basicamente. (...) Matam sempre em legítima defesa, em nome de continuar a viver, melhor dizendo, de sobreviver.”

A linguagem presente em Feliz Ano Novo é estilisticamente seca, cortante, para contar a história de seus personagens envolvidos em situações de extrema violência, valendo-se de metáforas para retratar violência de toda ordem: sexual, assassinatos, assaltos, estupros e, ainda, a violência policial. Esta última pode ser observada na seguinte passagem:

A barra ta pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! Crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago – pegaram ele e jogaram dentro do Guandu. Todo arrebentado. (FONSECA, 1989, p.14-15)

Faz-se presente, neste trecho, os termos de baixo calão, a linguagem vulgar, exageradamente usada na forma de falar dos personagens, quando um deles descreve a maneira brutal com que foram assassinados seus companheiros pelos policiais. Esse tipo de violência, policial, praticada contra a “bandidagem” provoca uma espécie de reação semelhante ao processo “estímulo-resposta”, isto é, a plena consciência da classe oprimida no que tange à coerção social praticada pela classe opressora, leva-os a (re)agirem contra essa opressão, em busca da própria sobrevivência. Tal reação, é novamente justificada por Rubem Fonseca, quando este afirma que “à violência da polícia, os marginais respondem também com violência. Viver para eles, é matar. Matar é o seu ofício. As armas são chamadas de ferramentas.” (SILVA, 1983, p.64).

Com referência, ainda, à linguagem, é notável a utilização de metáforas para citar a violência policial, com expressões do tipo “a barra tá pesada”, “a maré não tá boa”, “os homens não tão brincando”, bem como a satisfação imediata do desejo sexual ou do simples desejo de matar a fome. Neste sentido, Silva afirma que não são os personagens de Feliz Ano Novo os desencadeadores da violência, eles apenas respondem a ela quando coagidos. Por isso, ainda nas palavras de Silva (1983, p.63) “matar é uma esplêndida metáfora neste conto: matar a fome (o limite da sobrevivência), matar a fome sexual (o limite do desejo). Eles matam para continuar vivendo, ou sobrevivendo; e sobreviver significa também satisfazer o desejo”.

Também é perceptível uma grande metáfora no que concerne à maneira com que os personagens centrais se referem ao armamento, comparando-o a uma lata de goiabada, momento em que se faz presente a idéia de matar a fome, limite de sobrevivência. Observemos a seguinte passagem: “Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar.” (FONSECA, p.15).

Em suma, Rubem Fonseca, com Feliz Ano Novo, lança mão de um novo modelo, cruel de evidenciar toda a sujeira, a violência, a miséria, enfim, tudo que há de mais desagradável no mundo, para compor sua literatura, indicando que a violência é, por muitas vezes, a única saída para a solução de problemas de ordem social posta pelo autor em seus contos. Partindo desse pressuposto, Silva (1983, p. 63-4) afirma que “a solução para os conflitos será sempre o recurso à violência”.

REFERÊNCIAS

FONSECA, Rubem. Feliz Ano Novo. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 13-21.

SILVA, Deonísio da. O Caso Rubem Fonseca: Violência e Erotismo em FELIZ ANO NOVO. São Paulo: Alfa-Omega, 1983, p. 60-105.

*Autoras.

Dam Costa
Enviado por Dam Costa em 03/10/2008
Reeditado em 06/10/2008
Código do texto: T1210135
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