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Dança, Sexo e Gênero

Dança, Sexo e Gênero – (Signos de indentidade, dominação, desafio e desejo), texto de Judith Lynne Hanna.
Tradução de Mauro Ganna

A dança compartilha de outras artes uma hierarquia de prestígio relacionada com o papel sexual.
Nos Estados Unidos, a dança era uma opção para os que buscavam fugir dos constrangimentos econômicos e sociais.
São variáveis as razões pela busca da dança. Alguns, buscam-na por puro prazer, outros, por egocentrismo, exibicionismo, narcisismo. Tem a relação da auto-estima, em virtude da simpatia e aprovação da platéia. Mas da mesma forma que a platéia pode aprovar o indivíduo que dança, também o meio em que esse indivíduo vive, pode reprová-lo por terem uma raíz que possui um estigma à dança.
A dança oferece mais emprego sazonal do que integral, e aceita pessoas com estilos de vida alternativos, que lidam com suas diferenças, inclusive a homossexualidade, através do meio artístico. Mas da mesma forma que a dança aceita todos os gêneros, também ela os classifica em melhores remunerados os homens heterossexuais, e a pior remuneraração normalmente cabendo às mulherres.
A dança, entre as artes, tem o particular aspecto de ser uma carreira de execução curta, o corpo envelhecendo já não atende as exigências físicas rigorosas. Assim, outro aspecto, é que não se tem dela promessas de sucesso profissional ou financeiro, é preciso estar envolto de puro desejo para mergulhar nela.
Com a Revolução Francesa (séc. XVIII) e Revolução Industrial (séc. XIX), para a elite sócio política, as atividades do corpo passaram a ser associadas à frouxidão moral e embaraços à produtividade econômica. Dirigentes dessas revoluções analisaram negativamente a dança masculina como uma distração diante de seus objetivos. Até porque, o corpo que dança chama a atenção para a sexualidade e desperta as emoções.
Também a igreja ao deparar-se com a sexualidade na dança, à considerou profana. O cristianismo teve uma relação de amor e ódio com a dança, que é o corpo, uma vez que Cristo era carne e a carne foi negada.
Assim, o corpo era inimigo da alma, pois esta era prisioneira daquele. Já envolto de pecado, e condenado como inimigo da vida espiritual, o corpo tornou-se o antagonista da produtividade econômica.
Não bastasse a opressão social da mulher, também esta, ao seguir a carreira de bailarina, era julgada prostituta, pois as bailarinas foram rotuladas com o estigma das origens na classe trabalhadora e pela inconveniência sexual, pois os bastidores do Ópera de paris eram envoltos de envolvimentos íntimos.
Quando em 1830, Maria Taglioni estabeleceu um ponto de apoio para as mulheres com a apresentação das sapatilhas de pontas, foi que a mulher pode viver toda a sua supremacia, pois as pontas permitiam à elas, dançarinas, uma extensão de movimentos, de posições e de estatura impossível em outro tipo de calçado.
Com o movimento romântico, o palco foi tomado por sílfides, que talvez simbolizassem a idealização da mulher como “senhora”, compensação para a perda de um papel decisivo econômico familiar para as mulheres de classe média com início da revolução industrial.
Mas há um ícone com relação ao espaço ocupado pelas mulheres na dança, os dirigentes e administradores são todos homens. Assim, como a esposa estava para o marido, também a bailarina estava para o coreógrafo. E apesar das companhias de balé fundadas por mulheres, a dominação masculina permanece até hoje.
O balé começou a firmar posição social respeitável nos Estados Unidos, com a era Diaghilev, com a exibição de seus magníficos bailarinos e coreógrafos, e é claro, em uma parte por uma diminuição do puritanismo. Com isso também, vieram patrocínios e apoio da alta sociedade e das grandes fortunas, por onde se ergueram e sustentaram companhias de belé americanas. Em 1965, aconteceu o Programa de Dotação nacional para as Artes – Dança, e a dança, foi mais legitimada.
Na década de 1920, mulheres de classe média, educadas e de personalidade forte, já preparavam o que seria o advento da dança moderna, assim como a criação dos programas de dança na universidade também tiveram seu papel. A carreira de bailarino ainda era discutível e seria por muito tempo (até hoje).
Mulheres corajosas dos séculos XIX e XX, souberam tirar proveito do comportamento sexual atribuídos a seu papel sexual, simplismente atuando com grande emotividade através do veículo físico da dança, e recorreram ao que os estudiosos documentariam como sendo “sua sensibilidade superior à comunicação não verbal”, assim como sua emotividade, enquanto os homens se utilizavam de artes “mais intelectualizadas” como a literatura, para se expressarem.
Foi por meio da dança moderna que a mulher com a afirmação de sua feminilidade escolheu ser mais agente do que objeto, controlar e sublimar sua sexualidade.  Paralelo à isso, também os ganhos sociais femininos se fizeram realizar.
Em 1980, pós-modernos reagiram contra a dança moderna que homens e mulheres vinham desenvolvendo desde a década de 60, e trouxeram a inclinação a não conferir importância ao papel sexual.
A arte oferece aos gays isolamento da sociedade que os regeita, e possibilita a chance para expressarem-se em sua sensibilidade estética, emocional e erótica. Portanto,  a arte é um espaço que pode ser a possível realização pessoal e profissional. Pois embora alguns americanos considerem a homossexualidade imoral, ou doentia, as profissões artísticas marginais por sí próprias, são tolerantes com as também marginalidades.
Oa homossexuais indentificam-se com a idealização romântica do balé, que não possui um posicionamento em prol de um sexo ou de outro, mas pela graça e valor de ambos.
O mundo da arte, também possibilita o aouto-conhecimento, pois dá-se justamente pela expressão e a busca do abstrato para a concretização, além do que, o reconhecimento heterossexual por artistas gays promove neste, a realização de aceitação e eleva sua auto-estima.
Mas o número de homens heterossexuais na dança é pequeno em relação aos gays, isso, também pelo fato de que esta carreira, de bailarino, não remunerava o suficiente para um indivíduo que desejasse constituir e manter uma família.
No que diz respeito ao lesbianismo, é claro que ele sempre existiu, mas enquanto a homossexualidade masculina era severamente punida, discriminada, o lesbianismo era e é freqüentemente estimulante sexualmente para os homens heterossexuais, além do que, os homens estavam convecidos de que a maior parte das mulheres não tinha qualquer conhecimento sobre o assunto e que isso nunca seria de qualquer ameaça para o poder masculino.
A dominação das mulheres na dança moderna catalisou uma reação dos homens. E nasceu o desejo de se recuperar e restaurar a dignidade que se acreditava ter esta possído na antiga Grécia.
E os bailarinos de Graham vieram a determinar a dominação masculina na segunda fase da dança moderna. Hawkins tornou-se um dos mais notáveis bailarinos e coreógrafos dos Estados Unidos. Ele pesquisou  á cerca das culturas não americanas para modelos de papel masculino em cena.
Com grande promoção da dança no mundo dos espetáculos televisivos e cinematográficos, também a dança pôde oferecer um bom rendimento financeiro, e com isso, muitos homens heterossexuais encorajaram-se a ingressar na dança.
Maurice Bèjart, grande coreógrafo do século XX, preferiu a imagem masculina na dança, fazendo com isso, uma dança vigorosa, e criando assim um antídoto para a supremacia feminina.
Com o tempo, a dança foi ganhando (e vem ganhando) seu prestígio. Foi importante escrever sobre ela e apresentá-la como tão fisicamente excitante e sobretudo exigente e perigoso quanto qualquer atividade esportiva.
A mulher teve sua luta social e artística. O gay lutou contra o preconceito e se firmou na sensibilidade artística, achando seu escapismo e revelação na arte. O heterossexual lutou contra o velho tabu da homossexualidade ligado à dança e conquistou seu status, e com ele, a evidência histórica lastimável de que uma atividade só é reconhecida e admirada quando os homens a praticam e a apreciam.
Caroline Natalie Stroparo
Enviado por Caroline Natalie Stroparo em 20/10/2008
Código do texto: T1237643

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Sobre a autora
Caroline Natalie Stroparo
Curitiba - Paraná - Brasil, 31 anos
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Caroline Natalie Stroparo