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Resenha Vida e Obra de Freud

       Estudar Psicanálise é estudar Freud e seu pensamento desaguado em sua obra. Não há como erguer a construção sem firmar solidamente o alicerce. E para a psicanálise não há outro alicerce a não ser Sigmund Freud.

  Estudando sobre a sua vida, as suas descobertas e acrescentando a isso o contexto histórico, o perfil dos que o cercavam, vamos descobrindo, de forma bem sólida e clara, as raízes primeiras do pensamento do mestre.

  Você sabe quem é você? Já pensou que você não é apenas quem você pensa ser? Já pensou que existe mais de um “Eu” habitando em você, formando você?

  Em pleno século XXI perguntas como essas soam como algo distante e distinto de tudo o que vivemos e aprendemos na nossa cultura, no nosso meio. Imaginar o que essas perguntas causaram às pessoas quando foram formuladas há um século atrás nos dá uma noção, uma pequena noção do impacto que foi o surgimento da Teoria da Psicanálise, criada e defendida por Sigmund Freud, ou apenas Freud, como se eternizou.

Mais atual do que nunca a Psicanálise é hoje aplicada em vários campos da sociedade, literatura e artes em geral parecem trabalhar de mãos dadas com a criação de Freud. A educação se utiliza da Psicanálise na busca incessante pela melhoria dos meios de ensino. È cada vez maior o número de entidades de ensino que apostam nas teorias freudianas para solucionar problemas em seus meios.

O mundo cresce espantosamente, a tecnologia alcança patamares altíssimos, mas o homem não recebe um retorno disso, daí o caos, a violência. O homem se conhece cada vez menos e foge cada vez mais de si próprio. E a proposta que Sigmund vem nos trazer é justamente a de enfrentarmos e entendermos nossos conflitos íntimos para depois, já harmonizados e com as dores resignificadas, buscarmos melhorar o que há ao nosso redor.

Com pouco mais de um século de vida, a Psicanálise comparada com outras ciências, está apenas engatinhando e, no entanto, já apresenta um alicerce forte e resultados positivos.

  Há um século e meio, nascia Sigmund Freud, em Freiberg, Moravia, em 06 de maio de 1856, no mesmo ano em que nascia na Irlanda o polemista e dramaturgo George Bernard Shaw, autor de Pigmalião (1913) e ganhador no Prêmio Nobel de Literatura em 1925, Sigmund é filho do segundo casamento de Jakob Freud com a jovem Amália Nathansohn com quem teve oito filhos. Freud tinha ainda dois meio-irmãos vindos do primeiro casamento de seu pai (Emmanuel e Philippe), sendo que o mais novo tem a idade da mãe de Freud, 20 anos. O sobrinho de Sigmund era apenas um ano mais velho que ele e tornou-se seu parceiro nas brincadeiras de infância.

  Amália devotava um amor imenso por Freud e foi nesse âmbito que ele cresceu. Segundo o próprio Freud, o amor de sua mãe muito lhe valeu para que ele adquirisse a sua segurança e confiança no decorrer de sua vida. A mãe de Sigmund, no entanto, não era a única que devota-lhe um amor imenso, Monika Zajic, sua governanta, era uma outra pessoa a quem Freud muito admirava. De origem Tcheca e fé católica, Nannie – como era chamada, levou Freud a conhecer igrejas e falou-lhe de “Deus”. Para Freud esse era um mundo novo que se abria, visto que sua educação era judaica, muito embora aberta a pensamentos filosóficos iluministas, sendo o Iluminismo um fator mais que influente em sua Teoria que viria por ser criada.

  Por conta do trabalho se seu pai, comerciante judeu, aos três anos de idade Freud muda-se para Leipzig, no mesmo ano em que Darwin publica “A origem das Espécies”. Darwin que mais tarde também se tornaria um dos pilares das pesquisas de Freud. No ano seguinte, 1860, um ano antes do início da Guerra Civil Americana, a família Freud estabelece-se em Viena, onde Sigmund passa quase toda sua vida. Aos nove anos de idade Sigmund entra para a escola Leopoldstadter Gymnasium, enquanto na América Lincoln é assassinado. Nesse mesmo ano Mendel descobre as Leis da Hereditariedade.

Nessa época, Sigmund já era um leitor assíduo de grandes obras literárias. O poeta inglês, William Shakespeare era um dos seus favoritos. Mais tarde Freud cita peças de Shakespeare em seus estudos, sendo que Hamlet é mais citada. Ainda nas artes, Sigmund também influenciou Salvador Dali que, usando o Surrealismo, jogava nas suas telas todo o mistério contido na linguagem dos sonhos. Dali chegou a conhecer Freud quando este já se encontrava em estado avançado de sua doença.

  Contava dezessete anos o nosso Sigmund quando se encanta ao ouvir um ensaio atribuído a Goeth sobre a natureza em que o escritor/cientista, divergindo das idéias científicas da época, concebeu a Natureza como uma totalidade orgânica e viva, em profunda conexão com o mundo espiritual, e não somente um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento. Já se percebe em Freud o fascínio  pelo novo e a não acomodação em aceitar tudo o que foi imposto até então. É nesse mesmo ano que decide estudar medicina na intenção de dedicar-se às pesquisas. Ainda que Freud nunca tivesse sentido realmente uma vocação pela Medicina, o seu desejo de contribuir para o crescimento da humanidade o fez optar por tal curso.

É mais ou menos nessa época que Freud conhece Eduard Silberstein e começa então a desenvolver uma ligação intelectual, principalmente sobre Franz Brentano, filósofo austríaco, criador da psicologia da ação ou intencionalismo. A obra de Brentano serviu de base para que Husserl fundasse o método fenomenológico, que vem a ser um método que se define como uma volta às coisas mesmas, isto é, aos fenômenos àquilo que aparece à consciência, que se dá como objeto intencional. Na  Faculdade de Medicina da Universidade de Viena, onde ingressou em 1873, Sigmund também passou a receber influência de grandes nomes que compunham o corpo docente desta entidade de ensino, entre eles destacam-se Carl Clauss (Anatomia), Ernest Brücke (Fisiologista), Hermam Nothnage (Medicina Interna) e o famoso cirurgião Theodor Bilroth.

De 1876 a 1882, Sigmund permaneceu no laboratório fisiológico de Ernest Brücke que encarregou-o de uma investigação sobre a histologia do sistema nervoso no que Freud executou de muito bom grado. E foi somente em 1882 que Freud deixou o laboratório e entrou como aspirante no Hospital Geral, onde trabalhou com Meynert. E foi Meynert que convidou Freud para se dedicar unicamente à anatomia do cérebro, sendo que logo em seguida os estudos voltaram-se para as doenças nervosas que até então eram pouco tratadas em Viena. Durante os anos em que foi médico auxiliar, Sigmund publicou várias observações casuísticas sobre enfermidades orgânicas do sistema nervoso.

  Através de Brücke, Sigmund consegue uma bolsa de estudos e ruma à Paris, por volta de 1885, para aprender com Charcot, cientista francês e um dos maiores clínicos e professores de Medicina da França, fundador da moderna neurologia, juntamente com Guillaume Duchenne. É com Charcot que Freud aprende sobre hipnose que veio a usar durante algum tempo em seus casos, sendo depois deixada de lado por não oferecer resultado mais concretos. E foi também com Charcot que Sigmund teve sua atenção reclamada pela histeria, acompanhou Charcot em seus estudos e casos.

  Antes de regressa a Viena, Freud permaneceu algumas semanas em Berlim onde estudou doenças da infância. Durante sua estadia no Instituto de Kassovitz, escreveu vários artigos sobre a paralisia cerebral em crianças.

De volta a Viena, em 1886 casa-se com quem manteve um noivado de mais de quatro anos e tem com ela cinco filhos – sendo que um deles, Anna Freud, veio a tornar-se também psicanalista. Em certa época Freud chegou a atribuir a Marta Bernays a culpa por ele não ter se tornado famoso desde cedo. É que por volta de 1884, Freud deu início a um estudo sobre a cocaína e quando estava bem aprofundado no tema, precisou viajar para ver sua noiva que há muito não via. Terminou rápido o que estava fazendo e concluiu que alguém, um dia, descobriria as grandes aplicações daquele alcalóide. Encarregou o Dr. Koenigstein, oftalmologista amigo seu, que investigasse em que medidas seriam aplicáveis as propriedades anestésicas da cocaína. Ao retornar Freud descobriu que Koller, um outro amigo a quem também havia partilhado seus estudos sobre a cocaína, tinha apresentado junto ao Congresso de Oftalmologia de Heidelberg experiências conclusivas sobre o poder anestésico da cocaína, sendo atribuído a ele, Koller, a faceta dessa descoberta. Mas Sigmund disse não guardar nenhum rancor de sua esposa por conta desse episódio. É também nesse ano que Freud firma-se como médico, em Viena.

Como Neurólogo, Freud queria colocar em prática tudo o que aprendera na sua estadia em Paris e Berlim, queria mostrar o que trazia de conhecimentos adquiridos com Charcot, mas o que recebeu foi uma resistência forte da “Sociedade de Médicos”, negaram-se, inclusive, de oferecer pacientes nos quais o Dr. Freud pudesse constatar suas teorias. E foi fora dos hospitais que Sigmund encontrou o paciente que precisava: um homem apresentando hemianestesia histérica. Após um encantamento inicial, findaram por não dar muita atenção ao que Sigmund defendia, foi vetado inclusive o uso do laboratório de anatomia cerebral, dessa feita, Sigmund se viu obrigado a deixar de lado a vida acadêmica e voltou para a “Sociedade dos Médicos”.

Para tratamento de seus pacientes Freud usava a sugestão hipnótica como seu principal instrumento durante os primeiros anos de trabalho. Isso o impossibilitava de atender pacientes com enfermidades nervosas orgânicas, mas isso não o preocupava do ponto de vista que esses eram casos em menor, bem menor número que os apenas nervosos.

  Freud passou a usar, inicialmente, o hipnotismo não como sugestão hipnótica e sim como um meio de fazer o seu paciente ir buscar a gênese do problema, informações estas que não era adquiridas ou penetradas em seu estado normal de consciência. Freud adquiriu essa nova forma de trabalhar a hipnose com o Dr. Breuer, médico vienense que tornara-se seu grande amigo – sendo que mais tarde essa amizade foi desfeita, e que tratou do famoso caso de Anna O. (Bertha Pappenheim). Junto com Breuer Sigmund escreveu Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos (1893) e Estudos sobre a histeria (1895) – onde relata o caso de Ana O.

Tratar a histeria de Bertha, buscando, através de uma “rememorização” ou “rebuscamento” dos acontecimentos (se é que assim podemos chamar) que originaram o distúrbio, e encontrando o foco causador do conflito fazia com que a paciente fosse eliminando um a um os seus sintomas atuais. Estavam sendo plantadas, de fato, as primeiras sementes que dariam frondosa árvore da psicanálise. Com o passar do tempo, Freud foi deixando de lado a hipnose, substituindo-a pela catarse e então a psico-análise.

  Em 1887 Fred conhece Willelm Fliess, médico otorrinolaringologista que vem a torna-se um de seus grandes amigos e com quem Freud troca uma infinidade de cartas. É datado de 1893 o início as correspondências entre Freud e Fliess.  Este período de troca de correspondências com Fliess foi de tamanho significado para a Psicanálise e para Sigmund. Em uma dessas cartas Freud mencionou a sua necessidade em iniciar a auto-análise. Algum tempo após Freud faz a primeira interpretação de um sonho seu que ficou conhecido como “A Injeção de Irma”.
 
Após a morte de seu pai, em 1896, Sigmund passa a analisar seus próprios sonhos mais a fundo e remetendo-os à sua infância, vai descobrindo as origens de seus próprios problemas ou neuroses. É também nessa data que surge, pela primeira vez, o termo “Psicanálise” para nomear um método específico de psicoterapia.

Em 1897, Sigmund consegue então dar início à sua auto-análise ainda em correspondência com Fliess. Por tratar-se de cartas voltadas para uma relação que não deixava de ser analista/analisando, ainda que de forma inconsciente, o conteúdo das correspondências eram de um teor íntimo visto o grau de sentimento e confiança dispensado a uma relação dessa estirpe. Talvez por esse motivo muitos atribuíssem às cartas um caráter homossexual. Nessa sua auto-análises, Freud escreveu a Fliess que havia percebido algo importante, que amava a mãe e devotada ciúmes ao pai e que, estudando casos, descobriu que esse era um “sintoma” geral da infância em determinada idade. Estava explicado então, o Complexo de Édipo.

  A descoberta do inconsciente como um sistema também data desse ano. O primeiro tratamento psicanalítico aplicado a uma criança aconteceu em 1902, no mesmo ano em que se é descoberta a 1ª Teoria das Pulsões, Pulsão Sexual e Pulsão do Eu. Dois anos mais tarde descobre-se os estágios de desenvolvimento da sexualidade infantil.

Carl Jung, médico suíço, é um outro nome que juntou-se a Freud numa forte amizade e laços de mestre e discípulo, mas essa amizade também veio a ser rompida em conseqüência de discordâncias de Jung quanto a algumas partes do pensamento freudiano. Para Jung havia interesses pessoais em questão, ele era praticante de alquimia e tinha simpatia pelo espiritismo mesclando tais coisas à psicanálise. Foi Jung o criador do conceito de “Inconsciente Coletivo”, segundo o qual haveria um fundo comum inconsciente a todos os homens, o que permitiria a compreensão da similaridade entre as mais variadas culturas.

Logo a Psicanálise começa a ganhar adeptos e a ser bem recebida  entre a área médica. São fundadas Associações e Institutos e também o “Clube das Quartas-feiras”. Vários Congressos e Conferências passam a ser realizados e a nova ciência ganha seu terreno.

Sobre a base já formada chegam novas descobertas como a do Complexo de Castração (1908), Conceito de Narcisismo, através do estudo da psicose paranóica (1911), Conceito de Compulsão à Repetição (1920) e Conceito de falo (1922-23).

Entre os anos de 1922 e 1923 é detectado em Sigmund um câncer de boca que o fez perder o maxilas, ainda que após um número de 33 cirurgias, obrigando-o a usar uma prótese que atrapalhava, inclusive a sua fala. Mesmo doente Sigmund continuou a trabalhar e a publicar seus pensamentos e descobertas.

Em decorrência da II Guerra Mundial e da onda do terror nazista, Freud emigrou junto com sua família para Londres, onde concluiu sua última obra “Moisés e o Monoteísmo”.

Quando já não suportava mais sua doença, muito embora ainda dono de seus pensamentos e lucidez, Sigmund dirige-se a Marx Schur, seu dedicado médico e amigo “Schur, o senhor lembra do nosso ‘contrato’ de não me deixar quando tiver chegado a hora. Agora é apenas uma tortura e faz sentido”.  O mestre Sigmund Freud, professor, médico, pesquisador, Pai da Psicanálise, O Grande Médico de Almas, ‘o homem que revolucionou o homem’ teve seu pedido aceito e na terceira hora do dia 23 de setembro de 1939 seu corpo recebeu o alívio do fim, do fim da uma história de uma missão, uma grande missão cumprida.

Um homem que revolucionou o mundo ao atribuir ao inconsciente um status científico. Seus conceitos de inconsciente, desejos inconscientes e repressão, com certeza, mudaram, revolucionaram tudo o que se conhecia sobre a mente e o comportamento humano até então. Freud dedicou sua vida à Psicanálise, ao seu estudo, a sua descoberta. Abriu mão de grandes amigos para manter-se firme nos seus propósitos, tinha para com a sua teoria, a sua ciência uma relação quase que sagrada. Foram vários amigos deixados à margem da estrada que ele traçou para si: defender seu pensamento e estruturar sua ciência. Sigmund tinha a psicanálise como o seu norte.

Sigmund Freud acreditou intensamente em sua teoria e por ela se submeteu a experiência que, mais tarde, vieram a colocar em balança a sua moral. Pelos estudos com cocaína, os quais ele usou seu próprio corpo como laboratório, Sigmund recebeu o adjetivo de “viciado”, pelas cartas e confidências trocadas com Filess, Freud foi tachado de homossexual.

  Para uma grande descoberta não há outra saída que não seja uma grande entrega. Freud foi (é) da Psicanálise tanto quanto a Psicanálise foi (é) de Freud. Isso não se pode negar. Toda a entrega de Fred resultou numa ciência tão rica e em pensamentos tão revolucionários.

  O mundo fez resistência. Mas, tal como na relação analista/analisando, essa resistência, até necessária, foi se dissolvendo e não teve outra saída a não ser tirar o chapéu para o homem que nascia para a eternidade, Dr. Sigmund Freud, o “Médico de Almas”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIVROS:
FREUD, Sigmund, Freud Por Ele Mesmo, Ed. Martin Claret, 2004
GAY, Peter, Uma Vida Para O Nosso Tempo, Ed. Cia das Letras, 1989.

REVISTAS:
VIVER, MENTE & CÉREBRO – Ed. Duetto.
EDUCAÇÃO – BIBLIOTECA DO PROFESSOR, Ed. Segmento, edição 01


Cinthya Danielle dos Reis Leal
Enviado por Cinthya Danielle dos Reis Leal em 06/02/2007
Código do texto: T371827
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Sobre a autora
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Petrolina - Pernambuco - Brasil, 43 anos
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Cinthya Danielle dos Reis Leal