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Plugado no Bach

     Segundo as lendas germânicas um doppelgänger é um ser fantástico que atua como réplica ou cópia de alguém. Esta criatura sobrenatural, duplicata andante de intenções demoníacas, aparece em locais e épocas improváveis trazendo confusão e mau agouro ao imitado.
Um doppelgänger escolhe, acompanha e emula outra pessoa por livre iniciativa não obedecendo ordens de ninguém. Por ser dotado de poder fora do comum, consegue ler e incorporar características mais secretas da matriz incorporando-as como sua.
     Esta introdução é necessária para explicar a passagem de um mutante assim no cenário musical dos anos 60.
Nesse tempo, nos corredores da Universidade de Columbia, um jovem pianista apaixonado por novidades musicais encontrou o Dr. Robert Moog finalizando a máquina que lhe daria fama e fortuna: o sintetizador analógico Moog. O Moog era um teclado eletrônico capaz de reproduzir notas musicais de maneira robótica e futurista ultrapassando tudo o que a música concreta havia conseguido até então.
O cientista foi breve e persuasivo ao explicar que precisava de um piloto para sua máquina musical. O jovem, que farejava oportunidades, aceitou de imediato.
     Foi assim que no último trimestre de 1968 começou a ser engendrada a obra que levaria a música clássica para as massas. A parceria Moog-Carlos.
O que o Dr. Moog não sabia é que Walter Carlos, o menino prodígio da faculdade, era o gêmeo diabólico de Johann Sebastian Bach, que todos acreditavam repousar numa cripta na Igreja de São Marcos em Leipzig. Carlos andava em pleno século XX solto por Nova York e trazia dentro de si não apenas o código genético do finado compositor, mas também a intenção de apresentar o barroco alemão para o mundo. A ocasião não poderia ser melhor.
     Walter vestia roupas esquisitas, usava na cabeça uma peruca branca que emoldurava o rosto deixando-o mais pálido e adotava uma mise-en-scéne que beirava a afetação. Quem não o conhecia poderia jurar que era um ator ou alguém ligado ao teatro. O rapaz chamava atenção, mas vivíamos os anos de ressaca do Verão do Amor com hippies cabeludos perambulando por todo o lado e bizarrices assim eram incorporadas à paisagem sem nenhum escândalo.
     Com a sala de aula parecendo cenário de filme sobre a Revolução Francesa, com o moog estrategicamente instalado no centro, a presença de eletricistas e camareiras vestidos à moda antiga e leques, divãs e porcelana chinesa decorando o estúdio, foi gravado pela Columbia Records aquele que é considerado o álbum mais bem sucedido na história da música clássica: "Switched On Bach", algo como "Ligado no Bach".
     Lançado no início de 1969, o disco provocou reações e debates acalorados. O público sedento por novidades conheceu a Arte da Fuga e os Concertos de Brandemburgo aprovando imediatamente a tecladeira do Bach redivivo: "Esse lance de música clássica é a maior curtição". Já a crítica especializada rotulou o trabalho como "A mais ultrajante peça musical já produzida por alguém em todos os tempos" e preparou a guilhotina pedindo a cabeça do doppelgänger.
O que ninguém discordava era do talento e da exuberância performática do jovem gênio chamado Walter Carlos. Walter era Bach e isso ninguém sabia.
     Com as lojas vendendo o LP como Coca-Cola em tarde de verão, não tardou para "Switched On Bach" começar a escalar o Top 40. Meio milhão de cópias vendidas, um disco de platina e três Grammys depois e eis o inimaginável acontecendo: Um trabalho erudito chegava ao Top 10.
Tamanho ineditismo não passou despercebido. CIA e o FBI começaram a investigar quem era aquele homem. Com a eminência de ser descoberto, o jovem Carlos adotou mais uma identidade e optou por uma cirurgia de remoção do pênis, mudou o cabelo, vestiu roupas "normais" e agora, com o nome de Wendy, renasceu mais uma vez. Tal estratégia despistou investigadores ao mesmo tempo que atraiu o cineasta Stanley Kubrick, curioso com todo aquele movimento.
     A leitura em voz alta do primeiro capítulo do livro de Anthony Burgess e vários copos de leite gelado selaram o acordo que resultaria na trilha sonora do filme Laranja Mecânica. Wendy trocava Bach por Rossini e Beethoven. Mas isso é uma outra história.
Alexandre Pereira
Enviado por Alexandre Pereira em 13/02/2021
Código do texto: T7183798
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alexandre Pereira
Santo André - São Paulo - Brasil
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Alexandre Pereira