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Desdobramentos e epifanias

[...] justo seria que ninguém viesse ao mundo, incompleto, doente, sem juízo ou qualquer sentido e de todos, a visão, e ainda, ao menos um resquício de memória de quem se era, a quê se veio, e qual o sentido...

[...] nem sempre na dor aprendera, outrora remediada e nem tanto, nunca soube nada direito, apenas seguia repetente aos trancos e barrancos, tropeçando nos próprios erros, na mesmíssima mediocridade disfarçada de persona resolvida.
Sustando choros ante a artilharia sem trégua, nem revide, nem arrego, lambia as feridas e continuava... valendo-se de placebos psicológicos em doses homeopáticas de crenças e saberes que nem sempre entendia. [...] autoajuda, religião, filosofia em aldravias autoministradas em tirinhas, absinto lenitivo entre ritos e passagens.
Acalcanhada, forçosamente iam ficando por terra aquelas crenças infantis de quê com fé, pensamentos e palavras de efeito, o universo proveria... coisas que achava que precisava, e desejava, e merecia. [...]

Não por acaso, só mais tarde  entenderia, que o milagre em si já se mostrava enquanto sonhava, e, a cada instante se cumpria entre a monotonia e o frisson do dia a dia. E, se num fatídico despertar qualquer, tivesse-lha notado falta dos pés e mãos, tería ainda seu milagre - a visão e a ciência - a ciência de "ser" mesmo não sabendo quem era, e ainda outra ciência, o poder de transformar tudo em seu torno, de tornar um tanto mais aprazível sua existência, até o último e único episódio fatal e inalterável da vida efêmera...

[...] Daí então passa a pensar universos - como parte e não todo (macro infinito que tudo concentra, absorve, e esconde eternidade de segredos e dimensões inimagináveis e inatingíveis)... e, dentro destes, outros sistemas complexos... e, entre estes, o sistema do qual era parte, e que tanto admirava seus astros, estrelas e planetas... e, entre estes sistemas desconhecidos, a Terra - nem que quisesse, com a sapiência de primata falante malcriado, poderia dissertar sobre tal diversidade de mundos que habitara a Terra um dia - admirada da lua e das estrelas em alta noite avançada adentra sua casa, pensando-a como o universo que ora criara para abrigar seu avatar temporário, universo outro, abrigo de órgãos, e cada um, universos outros que abrigavam outras microorganizacões que trabalhavam freneticamente dia e noite trocando entre si no sentido original de corporativismo biológico...

[...] assim pensando, não seria mais o "universo" uma entidade espiritual que viesse a fazer juízo qualquer de suas ações ou de qualquer organismo que coexistisse em favor daquele um todo - o macro infinito... e, portanto, aquele "universo" que outrora entendia não mais a puniria, não a absolveria, não a recompensaria, não se comoveria e nem se dobraria às suas vontades...

[...] àquela altura já entendia que oração e pensamento positivo apenas, não blindariam-na contra os tombos e infortúnios que a vida lhe guardara, que somente suas açãoes concorreriam definitivamente para êxito e eventuais fracassos, a depender do movimento, reações, contrações e contrapartidas... e, tudo bem, já não surtava e nem adoecia; não havia nada de errado lá fora, era tudo dentro, coisa mesmo da cabeça...

[...] pensava nos oprimidos, os bem aventurados, os trabalhadores, pobres e ricos honrados, e tantos escróques engraçados, e pósteros depositários da boa fortuna, e legiões de devotos e justos vivendo sem a minima graça. [...] Seriam os primeiros os últimos, e os últimos os primeiros? - Como assim? - se perguntava.
Infinitas questões, narrativas,  afirmações, metaforas e equações; aquela mentalidade excêntrica não concebia... e, concluia que nada enfim teria fim, que tudo era pausa e movimento, caos e caminho... que acasos, acidentes e milagres, na forma como muitas cabeças entendiam, para aquela não mais existia... contudo, dentro ou fora, no raso ou no fundo, não conseguia negar a existência do extraordinário diante da sua obra, a Grande Alquimista.
Todavia, a idéia de "ser" autônoma, sem fio condutor ou controle remoto, causara-lha grande fascínio àquela entidade que arquejava enquanto dormia.
Edvan Souza
Enviado por Edvan Souza em 23/02/2021
Reeditado em 25/02/2021
Código do texto: T7191018
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Edvan Souza
Lauro de Freitas - Bahia - Brasil, 51 anos
29 textos (247 leituras)
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Edvan Souza