“Contágio” (Contagion)

“Contágio” (Contagion)









Nos 90 Dustin Hoffman protagonizou uma chatice intitulada “Epidemia” ou algo no gênero. Erraram feio.

Agora, atenção ao relógio: do minuto 1 (dia 2) até o minuto 50 e poucos faz-se plausível afirmar que Contagion é o avesso do chato, anda que nem uma locomotiva, tem uma trilha sonora a la “Rede Social”, uma pá de astros e à medida que o relógio avança conclui-se que Contagion funciona – tudo o que se espera de um filme, especialmente se for dirigido por Steven Soderbergh. Como se não bastasse, ainda é possível adquirir algumas informações úteis (?), tipo quantas vezes o ser humano toca o próprio rosto no período das 24 horas – cerca de 3.000 vezes.

Matt Damon, Marion Cotillard, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne e Kate Winslet estrelam.

Como há um vírus medonho se espalhando o roteiro lança mão do artifício dia 2, 3, 4, 5, etc., até eles perderem a conta. Quem estrela a última cena é o dia 1.

Matt Damon perfaz um dos personagens mais dispensáveis da Grande História dos Roteiros. Alguns sujeitos deveriam apertar o pause na carreira e tirar umas férias nalgum paraíso, não por falta de competência ou coisa que o valha e sim pelo simples fato de que semblantes se desgastam com o uso excessivo.

Laurence Fishburne, o médico coligado a uma dessas grandes instituições que unem gobierno&outrosmédicos&atitude. Ele analisa dados e toma decisões. Uma delas consiste em mandar a hiper competente doutora Kate Winslet para a linha de frente, a fim de ver de perto quem são esses infectados e porque eles insistem em morrer tão rápido. Kate vai contrair o vírus.

Jude Law é o blogueiro (por hora com 2 milhões de seguidores) que vê teoria da conspiração em todos os lugares, teve acesso à câmera de segurança que filmou a morte 2 num ônibus em Tóquio, para ele há algo errado, ele circula pelas redações, entrevista fulano e sicrano, aborda um dos médicos do alto escalão (Elliot Gould), que lhe diz: blog não é literatura e sim grafite com pontuação.

“Contágio” abre sem créditos, com a Gwyneth Paltrow tendo uma conversa infiel ao telefone, estamos no dia 2, ela vai morrer espetacularmente algumas horas depois nos braços do marido, Matt Damon, uma cara que está procurando emprego e ainda inconsciente de que a esposa trafega noutra fita. C´est la vie, mas ele é imune ao vírus.

Entretanto, (verdade já observada), a partir do minuto 50 e poucos (o filme tem 105), o caldo desanda, não por questões cinematográficas, inexistem dúvidas de que Soderbergh integra o rol dos diretores top de linha, o problema repousa no universo dos conceitos. Em outras palavras, o leque se torna muito amplo – o caos na América e o caos no mundo, tanques nas ruas, insatisfação popular, saques, distribuição de alimentos, Jude Law quintuplicando seus seguidores e debates pífios na mídia, Matt Damon em casa, tudo isso nos é dado em doses temerárias e de modo um tanto raso, senão displicente, deixando toneladas de pontas soltas na narrativa.

Outro dia um crítico extremamente competente disse em entrevista que o problema dos filmes modernos é que os personagens não evoluem. Touché. “Contágio” apresenta idêntico sintoma, com o agravante que uma história com tal raiz, progressiva por si só, perde-se num aguaceiro de comunicações desparelhadas e ou mitológicas, como por exemplo o controle do(s) estado(s) perante uma proposta dessas. Fala sério, há pouco tempo um simples jogo de futebol no Egito exterminou 75 indivíduos em questão de minutos.

Nicholas Carr, estrela das letras no primeiro mundo, escreve sobre tecnologia, cultura e economia. Seu livro mais recente “Os Superficiais: o que a internet está fazendo com nosso cérebro”, recebeu indicação ao prêmio Pulitzer 2011. O ponto de partida para este trabalho veio de um auto diagnóstico assim resumido: “preocupação com sua falta de concentração, sua crescente incapacidade de penetrar num livro e sua "cultura geral" ameaçada pelo famoso "mar de informação". Na visão do autor e com essas premissas em mente, estamos próximos de uma possível hecatombe civilizacional.

Eis aí um vírus, e pelo visto é contagioso.








 
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 10/04/2012
Reeditado em 19/07/2021
Código do texto: T3604782
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2012. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.