RESENHA DO FILME ; FORREST GUMP- O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Dirigido por Robert Zemeckis
, estrelado por  Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field- Oscar melhor filme, 1994
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Vi uma vez mais, na noite passada, um dos meus filmes favoritos, Forrest Gump, o Contador de Histórias. Lembro-me que a primeira vez que tive contato com a história do jovem meio idiota do Alabama, que por golpes do destino acaba sendo testemunha presencial e parte ativa de uma boa parte dos fatos históricos dos anos setenta e oitenta, foi a bordo de um avião, em 1995, numa viagem que estava fazendo aos Estados Unidos. Comprei o livro na livraria do aeroporto e durante as seis horas do meu vôo de São Paulo a Miami não tirei os olhos dele, tão interessante e comovente era a história desse cara e as histórias que ele contava.
Depois assisti ao filme e achei que a versão cinematográfica não fazia muito jus á criação literária. Esta era muito mais intensa, mais sensível, mais comovente. O filme não era mau, tanto que ganhou os melhores prêmios do ano, e faturou mais de 600 milhões de dólares, mas não sei, faltava talvez o estímulo ao espírito que só a literatura dá.
Depois assisti o filme mais umas quatro ou cinco vezes e ele acabou se tornando um "cult movie" para mim.
Lembro-me agora que a primeira coisa que veio á cabeça quando li Forrest Gump e depois que vi o filme foi a carrancuda figura do filósofo alemão Nietzsche, com suas idéias niilistas a respeito da existência humana. É que para Forrest, a vida era como uma caixa de bombons, nunca se sabe o que vem dentro dela. Isso era o que dizia a sua mãe, e ele repetia isso para todo mundo. Isso quer dizer que a vida não se vive segundo um padrão de valores pré-existentes, ou fixados para dar um sentido á ela, como diziam os idealistas, mas sim, que o homem criava seus próprios valores conforme as escolhas que fazia. Ou seja, o sentido da vida era aquele que o homem lhe dava, e no fim descobria que isso também não tinha sentido algum, porque tudo se consumia num processo sem qualquer propósito. Isso é que diziam os niilistas, e por isso, eles viviam de acordo com sabor dos ventos, não importando para onde ele os levasse, mas somente aproveitando as sensações que as experiências lhes traziam. Não é toa que a cultura dos anos setenta, especialmente o movimento hippie tenha se inspirado no niilismo existencialista de Nietzsche, Kierkegaard, Husserl e outros, e tenham adotado como seus principais gurus o casal Jean Paul Sartre e sua esposa Simone de Beauvoir.  

Aliás, Forrest Gump é um filme hippie por excelência. Ele é um hippie inconsciente e sua amada Jenny uma hippie engajada. Os dois são protótipos do existencialismo. Ela procura por uma razão para viver, ele vive sem precisar de nenhuma razão. Para ele a vida é natural, leve, fluída, como uma pena levada pelo vento; para ela a vida é uma procura insana por um significado, uma justificativa para tantas angústias e desejos. Forrest e Jenny são os dois extremos do niilismo existencialista. Numa ponta o descompromisso com qualquer ideologia, de outro lado a necessidade mórbida de encontrar alguma coisa com que valha a pena se comprometer. Em meio a tudo personagens que se perdem e se encontram nessa procura, como o tenente Dan e o pescador de camarões Bubba, que morre em meio a uma guerra para a qual foi mandado sem saber porque, mas para ela vai como se estivesse indo pescar camarão.
Forrest Gump é um filme carregado de simbolismos. Retrata a própria sociedade americana na busca de um sentido para sua própria saga como nação. Por isso os clichês da vida do personagem, que se cruza com diversas personalidades, em momentos históricos memoráveis. Forrest é uma pena levada pelo vento. O vento é o destino e o tolo rapaz do Alabama, cuja vida está fadada a cruzar com várias celebridades que marcaram a história contemporânea, como Elvis Presley, John Lennon, Mao Tse Tung, John Kennedy, Martin Luther King e outros, não sabe porque tudo aquilo acontece com ele nem se pergunta porque. Tudo para ele é natural. Ele está nos lugares em que as coisas acontecem porque sucedeu estar ali naquele momento. Nada está pré-determinado nem está provido de qualquer sentido metafísico que valha a pena um único sentimento ou pensamento para compreender. Nem mesmo a morte merece qualquer maior preocupação do que simplesmente contemplá-la em sua atividade predadora. “Porque tem que morrer? ele pergunta á sua mãe em seu leito de morte.”Porque é uma conseqüência natural da vida” responde ela. “ As pessoas ficam velhas e morrem”. Tudo assim tão simples. O destino são as leis naturais e o que acontece aos homens é uma decorrência da sua aplicação.


Quando as coisas se complicam Forrest Gump sai correndo. Fazia isso quando os meninos mais fortes que ele queriam molestá-lo; correu quando precisou,  para salvar a própria vida, e a dos amigos,  em plena guerra do Vietnã, onde os ventos do destino o levaram sem que ele tivesse a menor noção da razão de estar ali. E quando o vazio da vida o assaltava ele corria. Sem nenhuma razão. Correu durante três anos e acabou se transformando em guru dos “niilistas”, dos que procuram em qualquer novidade um sentido para suas vidas vazias. Atravessou correndo o país de sul a norte e de leste a oeste. Quando achou que não tinha mais sentido correr parou e disse para a multidão que o seguia: “vou para casa.”

Forrest Gump poderia muito bem ser um herói de Sartre, tanto quanto o Roquentin de “A Náusea”, mas sem o pessimismo e a amargura daquele personagem. O jovem idiota do Alabama é claramente, um existencialista, no sentido de que ele vive uma vida extremamente episódica, cheia de nuances e acontecimentos fortuitos, mas sempre com uma enorme sensação de desorientação e confusão, face a um mundo aparentemente sem sentido e absurdo. Ele achava que tudo acontecia por não ser muito inteligente, ou seja, quase um idiota, e o mundo, para os idiotas, dizia ele, devia ser assim mesmo: incompreensível, ininteligível, impossível de ser manipulado pela razão e pelas ações humanas. Por isso mesmo tudo era natural, até mesmo participar de uma guerra sem causa no Vietnã, ou salvar a vida do grande inimigo dos Estados Unidos, o comunista Mao Tse Tung.
A vida, segundo a ótica dos existencialistas, Sartre principalmente, é vista como sendo uma penosa jornada entre o Ser e o Nada. Ou seja, tudo que fazemos, fazemos não porque existe um destino, uma “ordem divina”, ou um processo organizado no universo onde o ser humano cumpre um papel predeterminado, como sustenta a maioria das religiões, mas sim porque precisamos justificar uma existência onde a nossa atividade pensante nos obriga a procurar um sentido para as nossas ações. Isso significa dizer que fora da existência humana, ou seja, além daquilo que fazemos para “Ser”, só existe um “Nada” que é preenchido por essa ilusão. Assim, como diz Nietzsche, o homem torna-se o único criador de valores, e a vida, como nada existe além dela na duração de um tempo que nunca acaba, vive se repetindo em ciclos, num eterno retorno.
Nesta noite, talvez porque eu estivesse propenso a divagações filosóficas, consegui enxergar em Forrest Gump muitos traços de existencialismo e niilismo, coisa que não havia notado antes, a não ser aquela propensão sartreana de tentar encontrar nos acontecimentos da vida uma justificativa para a própria vida. O epílogo do filme sempre me deixou uns fumos de tristeza, até porque ele é realmente comovente, quando o herói abestalhado, depois de enterrar o grande e único amor de sua vida(morta talvez por ter contraído AIDS em consequência da vida niilista que levou), passa a criar o filho que teve com ela, gerado numa relação fortuita, tanto quanto todos os atos da sua vida. Tudo naturalmente, sem precisar de nenhuma razão.
Mas de tudo isso fica, talvez, a mensagem final, que a mim, pelo menos, me diz que ainda que a vida seja uma jornada sem sentido e que nada resta depois dela, os valores que criamos durante essa jornada são sim, carregados de significado e valem a pena ser vividos. Seja o que for que nos aconteça, sempre terá valido a pena viver. E isso é que dizem Forrest pai e Forrest filho, quando olham, um para o outro e dizem: “amo você, pai; também amo você, filho”. Se a vida for, como dizia Nietzsche, uma eterna repetição de si mesma na eternidade do tempo, que ela seja feita de intensos momentos de amor. Depois disso, talvez nem a certeza de que existe alguma coisa mais além da vida terá afinal, qualquer importância.  
 
 

 
 
FORREST GUMP, NIETZSCHE E SARTRE


João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 08/11/2012
Reeditado em 09/11/2012
Código do texto: T3975722
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