“Sem Proteção” (The Company You Keep)

“Sem Proteção” (The Company You Keep)





O legal do “Sem Proteção” não está apenas na sua substância, mas nas coisas que suscita, ao se assistir. O filme abre com notícias televisivas do final dos 60, (no caso, iconografias...), de âncoras falando para as câmeras sobre as atividades de um grupo extremista chamado Weather Underground. E a primeira coisa que se pensa é: não tem jeito disso ser trucagem. Não que seja impossível. Simplesmente parece legítimo. E é.

Robert Redford dirige e atua esta mais do que bem intencionada produção e Shia LaBeouf, Susan Sarandon, Stanley Tucci,
Terence Howard, Nick Nolte, Julie Christie, Chris Cooper, Richard Jenkins, Sam Elliot, etc., também dão um toque especial numa louvável historinha pra boi pensar.

Entretanto, como já se disse, o grande minhocário não repousa na tela e sim por detrás dela, sendo que tudo vai depender do seu mergulho na reflexão.

Na tela, Robert Redford faz um advogado viúvo, com uma filha de 11 anos para criar, os noticiários falam da prisão de uma perseguida pelo FBI, fugitiva há 30 anos - Susan Sarandon, Shia LaBeouf faz um repórter com ética zero e Stanley Tucci, seu editor (com alguma ética), ambos farejam algo e no roteiro de Lem Dobbs as coisas são desvendadas e ganham novo rumo em 30 minutos. O filme tem perto de 120. Assim, em 30 minutos, Redford muda de vida e cai na estrada, a fim de provar sua inocência sobre um episódio ocorrido há 3 décadas pois, na verdade, ele não é aquele pacato advogado e sim um ex-terrorista.

“Nunca uma dissidência foi tão emotiva e intensa como a que teve ensejo contra a guerra do Vietnã”, palavras de um dos âncoras do período.

E mais, alertaram os extremistas do Weather Underground: já que a América não sai da guerra, vamos abrir uma guerra contra a América.

O trunfo de Redford, cujo nome do meio poderia ser Engajado, foi trazer à baila a existência desse grupo, não com o intuito de instigar acéfalos, mas de conhecer e refletir sobre posturas.

Inspirado na obra de Neil Gordon, a saber, autor, professor de literatura e editor do afamado The Boston Review, The Company You Keep é a um só tempo uma análise do passado e uma interrogação: o que é que se faz com ele (o passado) no eterno agora?

Em entrevista, Neil conta que passou 2 anos pesquisando pessoas que tiveram contato com a guerra do Vietnã, desde veteranos de farda até ex-ativistas do Weather e que a grande conclusão que ele chegou é que cada um tem uma versão dos fatos, mas, como se isso não bastasse, cada um acha seu ponto de vista o de maior relevância.

Ativismo, protestos, reivindicações, etc., estão no cardápio do momento, tudo muito salutar pela democracia – desde que haja algum critério, já que outro dia manifestantes bradavam palavras de ordem contra os bandeirantes... (Precisa explicar pra essa gente que coisas que estão na história permanecem nela, bonitas ou feias).

O fruto do trabalho de Redford&Jordan, no fim de contas, se traduz em mais um palitinho na abertura da mente, para que ela saia dos parâmetros: branco/preto, bom/ruim, feio/bonito/, magro/gordo, rico/pobre, homem/mulher, alto/baixo, etc., e entre na famigerada Compreensão Maior.

“Sem Proteção” leva fácil um 8, ele não sofre da doença dos planos histéricos e dos microplanos, tudo flui por ali, há uma narrativa a ser desvendada, Redford se esgueira pela América a fim de se encontrar com velhos camaradas de armas e montar o quebra cabeças para o espectador, são curiosas as aparições de Nick Nolte, Sam Elliot, Chris Cooper, Richard Jenkins e outros, o que eles tem em comum foi esse laço, chamado Weather Underground.

Enquanto trabalho de autor, o que acontece aí é um mix de ficção e evento histórico.

O Weather, de fato, foi pé na jaca total, explodiram prédios governamentais, assaltaram bancos, promoveram arruaças mil, e sim, usaram de violência (não a ponto de matar alguém), e, resumindo,
o autor não faz apologia a isso, porém, ainda em entrevista, ele comenta sobre a dificuldade de fazer uma análise superficial dos fatos.

Shia LaBeouf vai falar com a encarcerada Susan Sarandon.

Dado instante ela vagamente e diz que não consegue ver as coisas de modo tão claro.

LaBeouf contra ataca dizendo que ela está justificando a truculência do grupo.

Ela responde com firmeza que: “ficar em casa enquanto o governo cometia genocídio e não fazer nada, isso sim seria violência”.

Enfim, o que entrou mesmo para os anais como vozes de protesto significativo contra a guerra do Vietnã foram, de um lado a turma do Weather, de outro a turma do Martin Luther King.

Encerramos com o Martin:

“A maior fraqueza da violência é ser uma espiral descendente. Reagir a violência com violência só faz com que ela se multiplique, dando um lado mais sombrio a uma noite que não tem estrelas”.
Bernard Gontier
Enviado por Bernard Gontier em 03/10/2013
Reeditado em 11/05/2021
Código do texto: T4509691
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