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MAIS QUE UM JANTAR COM AMIGOS

Às vezes, o que poderia ser um simples jantar pode ser mais revelador e desencadeador de emoções do que toda uma vida inteira. O filme, Jantar com Amigos, roteirizado em cima da peça homônima de Donald Margulies, (vencedora do Pulitzer), explora com sabedoria os aspectos virtuosos e viciosos da amizade.

Para compor a trama o diretor trabalha a amizade entre dois casais: Gabe (Dennis Quaid) e Karen (Andie MacDowell) e Tom (Greg Kinnear) e Beth (Toni Collette). A história inicia-se com o casal anfitrião - Gabe e Karen - preparando o jantar. Eles querem encontrar aquele “toque de tempero” que vai fazer a diferença na recepção dos amigos, Tom e Beth. O casal está demorando e eles chamam os filhos para sentar-se à mesa.

Finalmente, chega só a Beth. – “Onde está o Tom?” É a pergunta ansiosa.

A desculpa: - “Foi para a capital!”

A decepção: - “Mas, trabalhar, logo esta noite?!”

Após este impacto inicial o casal anfitrião começa a falar de sua viagem a Roma e a amiga está tão desligada que pensa que o casal está falando de Florença. Ela vive um dilema interior, está em crise no casamento e não consegue suportar a alegria, a animação, dos amigos.

Quando os filhos requisitam a presença do pai para colocar um filme para assistir com os coleguinhas - situação esta que Gabe entendia que o filho mais velho já estava em condições de resolver -, Karen, captando qualquer coisa de diferente com a amiga, lhe pergunta: - “Você está bem?”

Karen percebe que Beth não está correspondendo a todo o seu entusiasmo e quando lhe entrega um presentinho que trouxera de Roma, é a senha para Beth confessar o seu drama pessoal e disparar a chorar:

- “O Tom está me deixando...”

- “O quê?”

- “Sim, ele está saindo com uma aeromoça!”

A grande sacada do filme é fazer de uma situação informal (o jantar) o ponto de partida e o eixo principal de onde se desenrola toda a trama. Um casal serve de suporte psicológico para que o outro se analise. Beth despeja toda a sua frustração com o casamento e informa que Tom havia confessado na semana anterior que estava saindo com outra pessoa. E acrescenta chorosa: “Ele disse que era infeliz!”

Interessante perceber no filme que cada qual ficou do lado de seu amigo em particular. Karen saiu em defesa de Beth e Gabe de Tom. E, esta forma instintiva e intuitiva de cada qual defender o próprio amigo, suscitou a útil oportunidade de ambos fazerem uma avaliação em seu papel de marido e mulher dentro do casamento.

Karen esbravejou: - “Querida, não pode ser! Como ele pode fazer isso com você?” E, Gabe, por seu turno, quis saber: - “Vocês vão fazer terapia?” Ao que Beth respondeu: “Ele não quer!” E complementou: “Vamos nos divorciar. Ele está apaixonado por outra mulher...” Como sempre ocorre em casos semelhantes a este, há toda uma expectativa de saber quais razões originaram o desenlace: - “Você sabia que ele era infeliz?” Ela responde: “Ele disse que eu ignorei todos os sinais...”

Infelizmente, com o passar dos anos, a tendência de marido e mulher é se tornarem, no casamento, mais amiguinhos do que amantes. Quando isso ocorre, há um esfriamento no aspecto sexual e afetivo. O que abre brechas para se tentar suprir estas carências fora da relação conjugal. É fácil perceber quando isso ocorre, mas, nem sempre se quer enxergar os fatos, como bem deu a entender a Beth.

Para ela, a confissão foi aliviadora. “Sabia que me sinto bem melhor por ter contato a vocês?” Pensei que iria explodir!” O desabafo trouxe de volta o controle emocional que lhe faltava. Contar a Gabe e Karen suas desventuras foi uma terapia para Beth, que afirmou: “Vocês são meus melhores amigos, sabiam?”

Dificuldades no casamento sempre existiram, separações estão ocorrendo a todo instante, mas, saber lidar com as crises e buscar ajuda para tentar recuperar o que se perdeu ou, pelo menos, preparar-se para a tomada de decisões sérias de maneira melhor embasada é o que nem sempre se vê. O filme contribui de forma muito positiva a se fazer uma auto-avaliação da relação conjugal e como cada parceiro tem sido afetado pelo peso do tempo na relação. A intensidade do amor, do sexo, das brincadeiras, do lazer, vai ralentando com o tempo e o casal nem sempre se dá conta de que está faltando alguma coisa, embora, na prática, o relacionamento esteja mudado.

Ao tomarem partido por seus amigos que se separam, Gabe e Karen abrem-se para a experiência angustiante de terem que confrontar o seu próprio casamento e percebem que a situação que já estava acalorada entre eles, torna-se ainda mais tensa quando examinam com frieza  a quantas anda seu relacionamento. Quando a amiga se retira, após o jantar, a avaliação de ambos é que tudo tinha sido muito constrangedor.

A mais passional é a Karen: “Pode imaginar como seria passar toda a sua vida adulta com alguém e, de repente, descobrir que essa pessoa é um impostor?” “Nós não sabemos toda a história... Você está falando mal de alguém que até bem pouco tempo você gostava!” Gabe saiu em defesa do amigo, ao que retrucou Karen: “Ele não é a mesma pessoa de antes. Ele é um sedutor e se passava por um bom pai, marido, trabalhador...” “Mas ele só cometeu uma transgressão” “Eu não consigo olhar mais para ele. Ela é a parte lesada.”

O filme levanta a questão do relacionamento, discute o papel da afetividade dentro do casamento. Tanto Gabe quanto Karen têm oportunidade de conversar em separado com seus amigos e levantar questões importantes. Tom está consciente de que seu casamento com Beth estava faltando algo: “Não estou pedindo sexo 24 horas por dia, mas, só quero um pouco de afeto.” Para ele o casamento tinha acabado, no que retruca Gabe: “E como você sabe que tomou a decisão certa?”

Se é difícil para quem está de fora entender tudo o que se passa num casamento, por outro lado, nem sempre as partes envolvidas estão com a cabeça no lugar para tomar decisões sérias de forma imparcial. Na análise da situação conflitante e desestabilizadora por que passam  Tom e Beth, o filme propicia bons momentos para se avaliar a questão da afetividade entre um casal, a questão dos filhos, a questão da busca de um novo parceiro, os fatores motivadores de uma separação e como problemas não resolvidos, emoções não verbalizadas são acumuladas vindo a tornar-se explosivas em algum momento da relação.

O filme deixa passar a idéia de que o casamento acabara também por conta de um caso que a Beth tivera no início do casamento com um amigo de Tom. Pois é exatamente esta pessoa com quem ela vai se envolver após o casamento com Tom terminar. Saber deste fato é motivo de nova discussão entre Gabe e Karen: “Por que ela não me contou?” “As pessoas não costumam comentar seus casos...”

O clímax do filme é a oportunidade final que Gabe e Karen tem de avaliar e ajustar seu casamento. O diretor apimenta a expectativa com relação a separação introduzindo a expressão “sexo incrível”, como algo que se tornou possível com a formação de nova parceria tanto por Tom (com a agente de viagens Nancy) quanto por Beth (com o amigo da família). Indagado pela esposa sobre o que falara com Tom, Gabe, mostrou-se irritado com sua incapacidade de dizer qualquer coisa: “Fiquei triste ouvindo ele falar isso” (sexo incrível). O que fica evidente é que ele se desinteressou por aquela amizade: “E percebi que não gosto mais dele!”

Karen também está desolada: “Parece que toda a nossa história se foi. Não há mais o presente...” Quando tenta falar com Gabe de seu casamento, Karen se frustra: “Por que você não consegue falar nada sempre que falamos de nós?” E, acrescenta: “Você é reconhecido como articulado com os outros, mas sobre você não tem nada a dizer...”

Na verdade, Gabe e Karen constituíam um casal normal, que amadureceu, envolveu-se com o trabalho, cuidou da educação dos filhos, fazia excelentes refeições, mas que afastaram-se afetivamente um do outro. No auge da avaliação, deitados na cama, entre a leitura ou outra de um parágrafo de livro que cada qual lia, ela desabafa sua decepção com o relacionamento dos dois do ponto de vista da sexualidade: “Não tem saudades de mim? Não sente mais falta de mim?” E conclui não compreender que milagre os mantivera unidos: “Não sei como não nos perdemos também!”

É neste instante que Gabe se recorda do seu velho jogo de sedução e cortejamento, da velha fórmula de flertar com a namorada e a põe em prática. O filme termina de forma bem romântica, sinalizando que nunca é tarde para redescobrir o que se perdeu no caminho e ajustar o casamento pondo em prática o perdão, a busca, o encontro e que nunca se é velho demais para experimentar a alegria do amor entre um casal que verdadeiramente decidiu construir uma vida a dois.

O filme Jantar com Amigos tem aproximadamente 94 minutos de duração e é indicado para maiores de 14 anos por conta de algumas sugestões de sexo.  Muito bem produzido, com cenários bem elaborados e reminiscências marcantes no desenrolar da trama, vale ser conferido por quem queira permitir-se uma auto-avaliação em seu relacionamento conjugal. O casamento é algo muito importante para deixá-lo se perder pelas tramas envolventes do cotidiano.
Jess
Enviado por Jess em 08/09/2007
Reeditado em 08/09/2007
Código do texto: T643373
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Sobre o autor
Jess
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil, 54 anos
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