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Resenha do filme Bacurau (2019)

O filme é uma produção que retrata o sertão pernambucano, porém filmado em Parelhas-RN. Dirigido por Kleber Mendonça, o longa metragem tem uma proposta peculiar, com uma miscelânea única de gêneros, subgêneros e elementos. É ao mesmo tempo um drama, faroeste, suspense, ficção científica, ação, terror splatter e fantasia.
O filme apresenta algumas referências interessantes, a começar pelo nome que faz referência a uma ave noturna e também a linhas de ônibus lotação que transitam na madrugada de Recife. Para os telespectadores mais atentos, o ínicio do filme faz alusão à abertura de "Star Wars" com os créditos "subindo" em um céu estrelado do espaço sideral.
O enredo é sobre um povoado fictício de nome homônimo ao filme, localizado nos arredores do município de Serra Verde, na região do Araripe em Pernambuco. O filme retrata a realidade de forma crua e impecável, reproduzindo de modo perfeito o linguajar, sotaque, traços étnicos e costumes característicos da região. Neste sentido, Bacurau faz uma verdadeira ode a Pernambuco e ao Nordeste. A trama começa com o enterro de Dona Carmelita, senhora de 94 anos e figura icônica do vilarejo (Interpretada por Lia de Itamaracá). Alguns ex-moradores do lugar, como Teresa (Bábara Colen), retornam para prestar condolências à falecida. Após o velório, eventos estranhos passam a ocorrer como aparecimento de drones, buracos de tiros no caminhão pipa, falhas no sinal da internet, "retirada" misteriosa da localidade dos mapas e até assassinatos dos moradores sem nenhuma explicação. O suspense é constante, e a verdade por trás das atrocidades vai se revelando camada por camada, bem como a construção das personagens de destaque no filme; como Dona Domingas (Sonia Braga), Michael (Udo Kier), "Pacote" (Thomá Aquino), e vários outros.
Como proposta cinematográfica, Bacurau é um filme ousado e agressivo. Concatena de forma única e harmoniosa a fantasia, a ficção e o realismo. É preciso olhar as sutilezas que o filme passa para além da violência e suspense, como na cena em que Michael conversa com Domingas ao som de "True", de Spandau Balet, retratado "equivocadamente" como musica americana pela Domingas, mesmo a banda sendo britânica;  ou seja, um sutil sarcasmo ao fato de se atribuir como americano tudo que estiver em língua inglesa. Um olhar sobre a dura realidade dos povoados esquecidos no sertão. A necessidade de um código moral e de justiça diferente, típicos das localidades onde não há lei.  O filme nos faz refletir que em certas realidades e circunstâncias, onde a "inversão" de valores não é uma opção mas sim uma inevitável necessidade de sobrevivência. Nos faz pensar, que em certas situações, os únicos aptos a serem os 'mocinhos" são justamente aqueles que sempre foram os "bandidos".
O filme é riquíssimo em críticas, desde as mais sutis (discussões que remetem ao nazismo, racismo e eugenia) até mais contundentes e óbvias, como o descaso dos políticos (Prefeito) com as pessoas mais desfavorecidas. Enfim, Bacurau destaca-se por ser uma intensa profusão de elementos tão diversos e não-aleatórios, que se conectam de forma autoconsciente e terminam num desfecho surpreendente e sangrento, que deixaria qualquer fã dos filmes de Tarantino de queixo caído.
Rafalove
Enviado por Rafalove em 27/11/2019
Reeditado em 27/11/2019
Código do texto: T6804918
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rafalove
Recife - Pernambuco - Brasil, 38 anos
10 textos (512 leituras)
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Rafalove