Fogos de artifício - do livro Vila Piloto de Jupiá


A atenção de todos voltou-se para as detonações que começaram a estrugir sem trégua por trás do mato, além da Avenida Perimetral. O espetáculo pirotécnico, atração sempre aguardada com entusiasmo e ansiedade por aquela gente simples de Vila Piloto, havia sido preparado na área da construção do malogrado hospital. Girândolas de mil tiros enchiam o ar de fumaça e estampidos, enquanto morteiros de luzes e canhões de confetes iluminavam o céu com suas explosões vermelhas de estrôncio. Nem bem desapareciam as fagulhas verdes da árvore de natal desenhada contra o céu escuro e já as águas luminosas de uma cascata branca maravilhavam os presentes, arrancando-lhes gritos de estupefação. De repente o fragor arrefecia. Parecia que ia acabar. Cessava. As faces afogueadas dos espectadores sustinham por um momento uma expressão interrogativa e então, outra poderosa bomba de pólvora negra estremecia o chão e o bombardeio recomeçava. Rojões de todo calibre e salvas intermináveis voltavam à carga, chuvas de ouro pintavam o céu de amarelo, foguetes subiam, uns girando, assobiando outros, vários se dividindo em tiraços de arrebentar os tímpanos, alguns criando inacreditáveis rabos de pavão na tela negra da noite, tochas se incendiando nas alturas e irradiando clarões multicolores sobre os rostos de olhos arregalados e boquiabertos da plateia em êxtase. Nas barracas, nas quadras de esportes, no campo de futebol e em toda a área da festa o movimento diminuira. O serviço de atendimento tinha sido suspenso por falta de pedidos durante os fogos e assim todos, inclusive Etelvina, Francisca e Joana da Barraca Nordeste olhavam para cima, rindo e aplaudindo a magia dos efeitos calidoscópicos dos sais incandescentes.


 
HFigueira
Enviado por HFigueira em 16/12/2011
Reeditado em 17/12/2018
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