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Resenha do Livro - "A Língua de Eulália"

RESENHA DE LIVRO

Título: A Língua de Eulália – Novela Sociolinguística
Autor: Marcos Bagno

Resenha apresentada por Eliene Carla Jardim (acadêmica do curso de Letras) à Universidade Claretiano.


          O livro “A Língua de Eulália” é leitura indispensável para nós, acadêmicos do curso de Letras, visto que o tema desenvolvido relaciona-se diretamente com a nossa formação. A obra tem como principal objetivo desfazer o preconceito linguístico que muitos apresentam devido falta de conhecimento sobre a origem de nossa língua portuguesa. O autor sugere ainda uma postura diferenciada aos professores de Português, onde estes passem a entender e a respeitar a carga social e linguística que uma criança já possui ao ingressar na escola; e desta forma, que o professor não haja como um “juiz” decretando o que é certo ou errado em nossa língua; mas sim, que oriente o uso das variedades linguísticas conforme a situação e contexto apropriados.
          A pesquisa linguística do autor Marcos Bagno é apresentada nesta obra através de personagens fictícios que interagem entre si. Os principais personagens são:
          - Tia Irene, professora aposentada que agora se dedica a projetos de alfabetização, além de escrever artigos para revistas e também livros da área de Linguística.
          - Vera, estudante de Letras, sobrinha de Irene, que juntamente com suas amigas Sílvia e Emília, vem passar as férias no sítio de sua tia no interior de São Paulo, em Atibaia.
          - Sílvia, estudante de Psicologia, amiga de Vera.
          - Emília, estudante de Pedagogia, também é amiga de Vera. O autor deixa claro que a escolha do nome “Emília” é uma homenagem à personagem de mesmo nome, do grande autor Monteiro Lobato. A Emília desta obra inclusive tem traços de personalidade semelhantes à boneca de pano criada por Lobato em 1920.
          - Eulália, amiga de Irene, reside no sítio junto com a professora. Eulália é uma pessoa simples e com pouco estudo, e é justamente sua maneira de falar que desperta a atenção das visitantes. A partir daí se desenvolve a história, com a Professora Irene explicando às estudantes sobre as variedades da língua portuguesa, classificadas como Português não padrão (PNP), da qual Eulália faz uso.
         
          Logo no início da história as três estudantes acham engraçado o fato de Eulália fazer uso de palavras como: “os probrema”, “os fósfro”, “precurá os home”, entre outras. Professora Irene começa então a lhes explicar que essa maneira coloquial de falar segue um raciocínio lógico, havendo inclusive regras próprias; o que caracteriza uma das variedades da língua portuguesa. Ou seja, o livro nos mostra que a língua Portuguesa não é única, e isso é apenas um mito; visto que há um imenso número de variedades que são classificadas de acordo com:
          - Diferenças Fonéticas: pronúncia;
          - Diferenças Sintáticas: organização das frases;
          - Diferenças Semânticas: significado das palavras;
          - Diferenças no uso da Língua.
          A obra cita que as diferenças acima apontadas se dão conforme a variedade geográfica, ou seja, o Português falado no Nordeste difere muito do Português falado no Sul do país. Sem contar as diferenças existentes entre o Português falado no Brasil e o Português falado em Portugal.
          Mas ao lado das variedades geográficas, temos também as variedades de gênero, socioeconômicas, etárias, urbanas, rurais, de nível de instrução, etc. O livro a “Língua de Eulália” nos mostra que cada variedade equivale a uma língua completamente diferente, e no entanto, todas elas são “Português” – não havendo portanto certo ou errado, apenas “variedades”. Uma excelente comparação é apresentada através da personagem Emília, quando aponta que cada pessoa tem uma letra, um jeito de escrever, que é algo único e exclusivo; mas que ao mesmo tempo pode ser lido e entendido pelos demais. Ou seja, apesar das inúmeras variedades, todas elas são entendidas e reconhecidas como Língua Portuguesa.
          O autor Marcos Bagno, através da personagem Irene, explica que a norma padrão da Língua Portuguesa é apenas mais uma das inúmeras variedades de nossa língua, e que esta foi escolhida como “padrão” devido a fatores que não são apenas lingüísticos, mas também são sociais, econômicos, políticos e culturais. Assim, o triângulo formado pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – cidades com classes sociais privilegiadas – passou a ser o modelo a ser imitado, ou seja, o que chamamos hoje de “norma padrão” ou Português Padrão (PP). Como conseqüência disto, surgiu uma visão de que as variedades de outras regiões – como a região nordestina que é economicamente pobre, mas culturalmente rica – seria uma maneira errada de falar. A leitura do livro “A Língua de Eulália”, porém, deixa claro o absurdo existente nesta forma de pensar e julgar, pois esta idéia leva ao desprestígio da cultura de outras regiões e cria uma postura preconceituosa; a qual dever ser revista, a começar pelos educadores.
          Um detalhe interessante apresentado por Marcos Bagno, é que os Estados do Paraná, São Paulo e Minas Gerais não são áreas pobres em termos econômicos e sociais, tendo a agricultura como fonte de riqueza; mas mesmo assim as variedades lingüísticas das cidades do interior destas regiões são chamadas de “falar caipira”, o que demonstra um preconceito muito antigo e a falsa idéia da superioridade do urbano sobre o rural.
          O autor, em seu livro, nos apresenta suas pesquisas através da personagem Professora Irene, e nos mostra que muito do que é chamado de “caipira”, é na verdade resquício de um português arcaico, ainda da época da colonização portuguesa. Como exemplo disso o autor nos apresenta palavras, tais como “frechas”, “frauta”, “pranta” e “Ingrês” que podem ser encontradas nas obras do grande poeta português Luiz Vaz de Camões.
          A obra nos apresenta ainda uma pesquisa sobre as influências das línguas européias, como o italiano, o espanhol e o francês; tendo em vista que os estados do sul receberam um grande número de imigrantes da Itália que vieram para o Brasil e se fixaram trabalhando na agricultura. Como exemplo é possível citar a palavra francesa “abeille”, pronunciada “abéy”, e a palavra “abelha” que no Português não padrão (PNP) pode ser ouvida como “abêia”.
          Outro fator a se considerar é que o Português, assim também como o Italiano, o Espanhol, o Francês, etc; são línguas originárias do latim, e devido a isso surgem as diferenças de pronúncia que recebem influência do latim vulgar, além é claro das transformações ocorridas ao longo dos séculos. Um exemplo destacado no livro é a palavra “telha”:
         
          Tégula > teg’la> tegla> teyla > telya> telha >>> têia
         
          Se as palavras se transformam ao longo do tempo, não será de se admirar que no futuro seja considerada “correta” (padrão) a forma “têia”, visto que nos dias atuais a mesma já é pronunciada em muitas variedades do português não padrão. Como “Tia Irene” explica às três jovens estudantes da história, as transformações começam pela forma falada e só depois passam à forma escrita. Ou, em uma frase de Tia Irene: “A língua voa, a mão se arrasta”.
          Outras explicações também apresentadas neste ótimo trabalho realizado por Marcos Bagno, é o fato da formação dos sons dentro de nossa boca. Para falar o ditongo “au”, nossa língua passa pela vogal fechada “o” no “meio do caminho”, e assim se torna mais fácil falar “sodade” do que “saudade”. Visto que a língua é viva e está sempre se transformando, não será de se admirar se no futuro esta palavra “sodade” vier a se tornar a forma padrão. Mais um exemplo é a palavra “autre” que se transformou em “outro”. O mesmo ocorre ainda com as palavras “beijo”, “cheiro” e “peixe”, que são pronunciadas como “bêjo”, “chêro” e “pexe”, tudo devido à proximidade dos sons no interior da boca no momento da formar os fonemas. E cabe ressaltar que o som fechado já é aceito na língua espanhola, onde fala-se “beso” e “otro”; o que mostra que a mesma transformação e aceitação poderá vir a acontecer em nossa língua portuguesa um dia.
          A explicação acima também vale para as consoantes, como na palavra “iglesia” (com L) que devido à forma falada veio a se transformar em “igreja”, e hoje esta forma com “r” é aceita como “correta”, ou seja, como forma padrão.
          Outras transformações que já foram aceitas pelo “Português padrão” (PP):

LATIM PORTUGUÊS
Abdômen Abdome
Examen Exame
Regimen Regime


          Observe que nas palavras acima a letra “n” no final já não é mais utilizada. Assim, não será surpresa se um dia forem também aceitas as palavras “onte”, “garage” e “home” – já utilizadas na variedade não padrão (linguagem falada).
          Tendo em vista todas estas explicações apresentadas nesta obra, e percebendo que há regras lógicas e racionais, fica claro ver como o preconceito lingüístico é algo que “não garante a si mesmo” quando pensamos nas possíveis mudanças lingüísticas a longo prazo, e por esse mesmo motivo tal preconceito deve ser evitado. Cabe a nós professores tal enfrentamento, a começar por adotar uma postura diferente em sala de aula junto aos alunos. Assim, quando ouvirmos um aluno pronunciar algo diferente do que nos diz a norma padrão, não devemos corrigi-lo e automaticamente taxar sua maneira de se expressar como “errada”, mas sim investigar o porquê daquele aluno trazer esta palavra ou pronúncia em sua bagagem cultural; e claro, orientá-lo e capacitá-lo para utilizar a norma padrão quando necessário, de acordo com os contextos e situações apropriadas.
          Nós educadores devemos sim orientar quanto ao uso da norma padrão, mas nunca usá-la para desmerecer este ou aquele indivíduo por sua maneira de se expressar ser diferente do que nos dizem os gramáticos tradicionalistas. É preciso que a forma padrão não seja a “língua do patrão”, como nos sugere a personagem Irene. Que a língua não seja obstáculo ou ferramenta de exclusão social, mas sim, que saibamos reconhecer e respeitar a carga cultural e social que é reconhecida através do “falar” de uma pessoa. Que os educadores não ensinem através das críticas ou do “certo X errado”, mas sim que entendam e transmitam aos seus alunos a complexidade dos fenômenos da língua, as lógicas e regras existentes por trás de cada variedade lingüística, entendendo que falar diferente não é falar errado.
          Finalizando, destaco que o nome da personagem Eulália foi escolhido pelo autor por ser uma palavra grega que significa: “a que fala bonito”, “a que fala bem”, “a que fala certo” – o que demonstra o tratamento especial do autor com cada detalhe desta obra que indico a todos.


REFERÊNCIAS:

BAGNO, Marcos. “A Língua de Eulália – Novela Sociolinguística”, 13ª edição – São Paulo, Editora Contexto, 2004.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlia –“Emília”, consultado em 02/04/2013 às 16:58 hrs
Lady J
Enviado por Lady J em 05/05/2013
Código do texto: T4275480
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Sobre a autora
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Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
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