Resenha impressionista para "Seis Segundos de Atenção", de Humberto Gessinger

Gessinger na auto-análise da maturidade

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O Gessinger é o Gessinger. Então tudo que ele faz é perfeito. :-)

Este livro novo dele está melhor do que os anteriores em termos de conteúdo. A forma está semelhante: papel bonito, letra grande, títulos em página inteira. (Infelizmente, parecendo um jeito de 'engordar' uma obra que teria pouco de conteúdo para oferecer - o que não é verdade). Apenas na capa existe uma foto dele, colorida, mas em fundo preto. O autógrafo para a minha amiga Katiane veio já na capa! Achei lindo! O restante do livro é P&B. Acredito que essa identidade visual já antecipa que o texto surge do autoconhecimento, de "colocar o preto no branco", ou, nos capítulos pares alternados, "o branco no preto". :) O conteúdo também intercala crônicas e letras de canções.

As canções são do CD novo, Insular, com letras ótimas, claro, e bem identificadas com o momento atual de consciência da passagem do tempo para o autor, que este ano faz 50 aninhos. :-) Todas têm letra composta pelo Gessinger, e algumas têm a música composta por outro artista, como o Duca e o Bebeto Alves. A minha preferida é a da travessia ("A Ponte para o Dia"). Gostei muito mesmo. Também adoro as músicas que ele faz para a esposa dele, aquela sortuda. :)

As crônicas estão beeem mais caprichadinhas (comparadas às do "Mapas do Acaso", por exemplo, que parece livro experimental feito "só para vender"). Acredito que essa melhor qualidade reflete o esforço de ele publicar um blog (o BloGessinger) atualizado semanalmente. Parece que ele escreve como fala, o que traz o texto para muito perto do leitor. Como de praxe, ele fala só de si mesmo, mas para mim é claro que ele está falando da minha vida e de como eu vejo o mundo. :)

Alguns detalhes do livro chamaram muito a minha atenção...

* Algumas canções contêm palavrões ou expressões chulas. Sobre isso, ele fala já no primeiro capítulo, tentando se desculpar com a influência dos cariocas no tempo em que ele morou no Rio. Soa mal.

* Ele começa a usar mais expressões gauchescas, tanto nas crônicas, como nas canções. Adoro isso. Adoro mais ainda os ritmos gauchescos que ele adota nas canções. Ele, ou o artista que compôs a música. Parece que essa identidade gaúcha, que ele nunca deixou totalmente de lado, está voltando com tudo! ;)

* Gosto tanto da voz dele (que não mudou nada em quase trinta anos), que detesto quando a voz de outro artista 'canta junto'. Basta ele, e pronto, oras! :)

* Reparei que ele faz diversas referências explícitas a obras da literatura universal e de diferentes estilos musicais. Muito elegante e culto esse moço! :)

* Ele assume as suas auto-referências de maneira bem madura. Adorei essa defesa do 'DNA expresso' nas suas criações, que eu curto tanto.

* Ele passa o tempo todo, nas canções e nas crônicas, se auto-analisando. Coisa da idade, né? :-} Parece que ele já se auto-aceitou, e não fica mais se fazendo de falso modesto. Isto já é uma evolução na vida de um artista. (Mas se identificar com o elemento químico Mercúrio (Hg) parece beeem forçada. :P)

* Ele não deixou de falar dos momentos em que "deixou de ser criança", e eu fico pensando em como são esses momentos para um artista. Parecem momentos realmente esclarecedores.

Seja sobre as palavras, a ambiguidade e pluralidade das interpretações, o processo criativo, a emoção e a razão, a indústria cultural, a superficialidade das relações e da atenção do 'espírito do nosso tempo', ele consegue falar de detalhes do dia-a-dia refletindo sobre esses grandes temas. Ele é demais! =)

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MALANOVICZ, Aline Vieira. "Seis Segundos de Atenção (Humberto Gessinger) - resenha". Porto Alegre, 8 nov. 2013. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/4562307