Capítulo VI
 
A origem do monoteísmo
 
1. Foi em razão da iniciativa desse faraó Akhenaton, de unificar o culto dos deuses do Egito e subordiná-los todos ao culto de Aton, que a antiga Fraternidade dos Irmãos de Heliópolis, cuja Loja Mãe era sediada nos santuários de Karnac, entrou em conflito com Akhenaton.1 Razão pela qual, no décimo quinto ano do seu reinado, ele deixou Tebas, sua capital, e fundou a cidade de Khut-Aton.  2 Para onde levou sua corte e seus tesouros, abandonando os santuários de Carnac e Luxor, onde eram praticados os cultos a Amon-Rá, o deus de Tebas e principal divindade do Egito.[1]
 2 Depois de declarar Aton o ùnico Deus a ser adorado no Egito e proibido qualquer menção ou adoração a outros deuses, Akhenaton retirou dos Irmãos de Heliópolis todos os seus privilégios; 1 E declarou fora da lei seus ritos e cerimônias; 2  E ao sujeitá-los ao poder de Moisés, como Sumo Sacerdote da nova religião, ele atraiu o ódio dos membros daquela poderosa Fraternidade. 
 
Guerra religiosa
 
3. Os sacerdotes de Heliópolis, Carnac e outros santuários do Egito não aceitaram Moisés como seu superior, porque ele era hebreu. 1  E eles diziam que o Deus de Moisés e Akhenaton era, na verdade, o Deus dos hebreus.2 Assim, eles logo conclamaram aos principais chefes dos estados egípcios para que reunissem exércitos e fizessem guerra contra aquele faraó.3  A quem chamavam de herege e cultor de deuses estrangeiros pois o deus de Moisés era o deus de Israel. 4 E disseram ao povo que se o Deus de Israel reinasse sobre os corações e mentes do povo do Egito, logo os filhos de Israel estariam dominando o país, pois eram grandes em número e muito fortes em seus corpos e espírito.[2]
4.  E naqueles dias uma grande guerra aconteceu por todo o país do Egito.1 Ela durou por mais de três anos e muitos foram os que morreram porque o povo se dividiu, uns apoiando a nova religião e outros lutando para defender a antiga. 2 E em todas as cidades as pessoas combatiam com muita fúria e coragem pelas crenças que professavam.
5. Perdida a guerra, porque fo-ram muitos os que se levantaram contra aquele faraó e seu Sumo-Sacerdote Moisés, o faraó Akhenaton foi morto por um de seus cortesãos. 1 No seu lugar subiu ao trono seu filho Tut-Ank-Amon, um menino de dez anos de idade.2  O seu governo procurou restabelecer a paz no país  revivendo a religião nacional de muitos deuses.3 Mas não conseguiu fazer as pazes com os Irmãos de Heliópolis, porque estes queriam restabelecer o culto de Amon-Rá como o principal do país.4 E porque este Tut-Ank-Amon se recusou a perseguir e prender os seguidores de Aton, os partidários dos Irmãos de Heliópolis  envenenaram o jovem rei no sétimo ano do seu reinado.[3]
6.Este Tut-Ank-Amon é aquele que foi sepultado em uma suntuosa tumba no Vale dos Reis com um enorme tesouro e todos os seus serviçais. [4]
7. E depois disso os egípcios fizeram rei a um general de nome Horem-heb, que logo começou a perseguir e massacrar os seguidores da religião de Moisés e Akhenaton.   1 Também devolveu os privilégios da Irmandade de Heliópolis, a qual  se fez novamente muito poderosa e voltou-se contra Moisés.2 Este, para salvar a própria vida fugiu para o deserto do Sinai, onde se refugiou no oásis de Madian, que fica nos pés do Monte Horeb.[5]
8. Isso ocorreu no ano de 1332 antes do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo.[6]
9. E foi nesse ano que o faraó Horem-heb baixou decreto tornando escravos os filhos de Israel.1 E depois concentrou-os na Terra de Gósen, mandando-os trabalhar nas pedreiras e olarias do país, fabricando tijolos, tirando pedras, desbastando-as e facejando-as, para usá-las nos grandes templos e edifícios que ainda hoje existem  no país do grande rio Nilo.[7]

Os mistérios hebraicos

10. Foi em Madian que Moisés conheceu Jetro, sheik dos madianitas, tribo descendente de Ismael, o filho de Abraão com Agar.[8]
1 Em Madian também se adorava Adonai, o Deus inominado de Israel.[9]
2 E lá também casou-se com Séfora, filha de Jetro, com quem teve dois filhos.[10]
9. Cinco anos morou Moisés em Madian, aprendendo a pastorear e a ensinar aos habitantes de Madian as artes da metalurgia e da produção de artefatos de cobre e bronze  e da fabricação do ouro artificial.1 No Egito o ouro artificial era usado para banhar os vasos e utensílios que se viam nas casas das pessoas ricas, o que fez aquele oásis ganhar fama como terra dos forjadores.
10, Com Jetro de Madian Moisés aprendeu que a verdadeira natureza do Grande Arquiteto do Universo é espiritual. 1 E que Ele não tem nome conhecido entre os homens porque é puro Espírito.2 E a quem Ele revela o Seu verdadeiro Nome, concede também um poder que não pode ser confrontado por nenhum rei na terra.
11. E esse eram os Mistérios da religião de Israel. 1 Jetro ensinou-lhe também que foi por graça desse poder que Adão, a quem Ele fez do barro da terra e animou soprando-lhe no ouvido o Seu Sagrado Nome, tornou-se alma vivente.2 E pelo poder desse Nome, Adão também nomeou e deu vida e qualidades a todas as espécies de criaturas sobre a terra, fazendo animais de duas, quatro e mais patas a uns, aves do céu a outras, e também os répteis que andam com seus ventres no chão, os peixes e outros animais aquáticos que vivem nos rios e mares e as  miríades de insetos que andam na terra e voam pelos ares. [11]
12. E todas as espécies vivas lhe ficaram sujeitas, porque, entre elas o Senhor havia escolhido o homem para governá-las.1 Por isso deu-lhes uma consciência e uma inteligência capaz de pensar por si próprio.2 Mas até então o homem não sabia como usar sua inteligência para a prática do mal. 3 Porque ele era todo virtude e conhecimento, vivendo em um mundo perfeito, de harmonia e paz.

O pecado do homem


13.  Mas um dia Adão desobedeceu ao Grande Arquiteto do Universo comendo um fruto da Arvore do Conhecimento.1 Essa Árvore simbolizava o conhecimento do Nome Sagrado de Deus e a proibição de sua utilização para propósitos outros que não aqueles que o próprio Deus inspirava.2 Essa desobediência, como dizem os textos sagrados, lhe foi inspirada por sua companheira, a qual foi ardilosamente enganada pelo Anjo Rebelde, que havia liderado uma rebelião contra Deus.[12]
14. Como castigo dessa desobediência o Grande Arquiteto do Universo retirou de Adão e de sua companheira Eva a memória do seu Nome Sagrado.1 E tanto eles quanto a sua posteridade perderam a sabedoria que os permitia pronunciá-lo.2 Essa sabedoria os fazia semelhante aos anjos, e sua perda fez com que a maioria dos animais se tornassem inimigos do homem e passassem a atacá-lo.3 E também os anjos, que antes se comunicavam com os homens na mesma língua não mais os entendessem.[13]
15. E assim a Palavra Sagrada (que é o verdadeiro Nome de Deus), ficou muito tempo perdida, e só foi comunicada muitos anos mais tarde a um homem chamado Enoque, em quem o Grande Arquiteto do Universo encontrou mérito entre os homens.1 E desde então, somente uma vez em cada  geração, se nascida na terra uma alma de mérito, essa palavra a ele é revelada.[14]
16. Essa sabedoria perturbou muito o espírito de Moisés que não mais deixou de pensar no Nome do Deus desconhecido dos hebreus, que conferia tanto poder ao seu conhecedor.1 Pois ele não era apenas o poder regenerador do sol, como os egípcios pensavam. 2 Ele era um espirito, que não tinha forma nem nome conhecido, e seu poder excedia a todas as forças do universo.3 Ele era o Criador de todas as coisas, inclusive do sol. 4 Ele inspirava os homens em suas ações e pensamentos. 5 Ele comandava uma legião de anjos que serviam de mensageiros entre os homens e Ele. 6 Ele era como um Supremo Arquiteto que pensava os planos do universo e os comunicava aos anjos para que eles instruíssem os homens para construí-lo. 7 Por isso Ele era o Grande Arquiteto do Universo.

A iniciação de Moisés

17. Todos os dias Moisés ia pastorear os rebanhos de seu sogro Jetro nos pés do Monte Horeb.1 E ficava a olhar para o cume do monte que se ocultava em meio às nuvens que nunca se dissolviam.2 Porque se dizia que o Grande Arquiteto do Universo costumava visitar às vezes aquela montanha e quando os trovões ribombavam e os relâmpagos iluminavam o cume era porque Ele estava lá.

18. E estando um dia Moisés a pastorear, aconteceu que algumas das suas ovelhas abandonaram o rebanho e saíram a buscar melhores pastos nas cercanias da montanha.1 E saindo Moisés a procurá-las, eis que viu de longe as luzes que brilhavam no cume do monte, porque em baixo não podia vê-las por causa das névoa.
19. Subiu, pois, Moisés o monte, seguindo a claridade que saia do seu cume.1 E quando chegou ao topo viu que as luzes que tanto o atraiam saiam de umas sarças que ardiam como fogos vivos, mas que não se consumiam como madeiras que se colocam no braseiro para alimentá-lo.2 E estando ele a admirar o que via, eis que uma Voz falou de dentro da chama que brilhava como a superfície do sol mas não emitia nenhum calor, porquanto era um fogo frio.
20.  E a voz lhe disse:1 “Moisés, cobre o teu rosto para que não suceda ficares cego com a minha luz. 2 Descobre também o teu braço direito e descalça  as tuas sandálias porquanto o solo em que pisas é sagrado.[15  3 “Eu te escolhi entre os varões da terra para ser iniciado nos meus Augustos Mistérios e nesta sabedoria entrarás meio nu, meio vestido, para que saibas que a tua natureza é dupla, feita de carne e espírito.”
21. “Sim, carne e sangue tu és, mas também consciência e espírito, para que possas viver entre os seres do mundo e depois voltares para Mim, que te dei a vida, depois de cumprires a tua missão.”
22.”Porque todos os seres humanos tem uma missão a cumprir na vida.” 1 “Para isso nascem e morrem.”
23. E estando Moisés a cismar do que seria aquilo que a Voz lhe dizia eis que falou novamente o Grande Arquiteto do Universo:
24. “Eu sou Aquele que tu adoravas na face do Sol quando ainda vivias no Egito e adotavas as crenças daquele povo. 1  As nações da terra me cultuam em todas as coisas que existem no mundo e me dão miríades de nomes.2 Mas é a Mim que eles veem na face do abismo e na imensidão do céu. 3 É a Mim que os todos os povos da terra oferecem sacrifícios e levantam altares e preces.4 É a Mim que em vão procuram, recitando hinos e chamando por nomes que não são os meus, porque meu Nome é apenas Um e Eu o comunico apenas a quem Escolho” [16]
26. “Quem és tu, Senhor, que falas de dentro de uma chama que não queima e de um fogo que não tem calor, e o queres de mim?”, perguntou Moisés, tapando os olhos com os braços para protegê-los da intensa luz que emanava do arbusto luminoso.[17]
27. “EU SOU O QUE SOU,” disse-lhe O Grande Arquiteto do Universo.1 “EU SOU Aquele que comanda a tua mente para que ela transforme em pensamentos as coisas que vês, escutas e sentes.” 2” Que faz a tua língua transformar em palavras os teus pensamentos e faz os teus nervos e músculos praticarem as obras que a tua mente ordena que faças.”3  “EU SOU O Que faz com que tudo exista e tenha vida e movimento.”
28. “Mas EU não SOU a mente, nem os pensamentos, nem as palavras, nem a vida e o movimento.”1 “Não SOU nada que tu adoras embaixo do sol, mas sim a razão de eles existirem.” 2 “Não SOU o Sol, nem a Lua, nem as estrelas, nem qualquer coisa viva ou outra qualquer que possas figurar em tua mente, mas sim a razão do porque elas existem dentro dela.” 3 “Por isso são vãs todas as figurações que de MIM fazem, como vãos são os Nomes que me dão.”[18]
29. “Mas por ora, deixa de lado tua curiosidade e faz o que Vou te ordenar.”1” Todo homem tem sua missão e a tua será tirar o povo de Israel do Egito e fundar com ele um Loja dedicada a Mim.1 “Porque o Meu Oriente é toda a humanidade e o meu Templo é todo o universo.”2 “Mas é preciso que ela tenha uma organização e uma identidade, para que sirva de modelo para as demais nações da terra.” [19]
30. “Dar-te-ei um povo inteiro por Irmandade e todo o contorno da terra como Templo.”
1 “E no devido tempo nela se construirá o Meu Templo particular.”[20]
31.“Quem sou eu para cumprir  tão grande e nobre missão?” perguntou, temeroso, Moisés. 1 “Pois sou fugitivo em terra estranha e se voltar ao Egito, condenado e procurado que sou, certamente serei morto”. 2 “Pelo meu Sagrado Nome o teu poder será maior do que todas as forças do Egito,” disse o Grande Arquiteto do Universo. 3 “ Eis que o dou a ti, e esse Nome é Palavra Sagrada que a nenhum outro, que por Mim não seja indicado, a repetireis.”4 “E Ele a comunicou aos ouvidos de Moisés, que nesse momento teve seu rosto iluminado por uma estranha luz.[21]
32. E esse foi o momento em que o Moisés foi iniciado nos Augustos Mistérios do Grande Arquiteto do Universo.1 E foi por Ele encarregado de fundar a Fraternidade dos Filhos de Israel, a primeira e verdadeira Loja do mundo a congregar os chamados Irmãos Obreiros da Arte Real.
33.  Mas os ritos de iniciação a que Moisés foi submetido pelo Grande Arquiteto do Universo foram proibidos de ser escritos ou relatados por quem quer que seja e permanecem ocultos até o dia de hoje.
 
 
[1] Khut-Aton significa “Horizonte de Aton”, pois se dizia que era ali que o sol nascia.
[2] Como a Bíblia registra em Êxodo, 1: 9: 10: “Eis que o povo dos filhos de Israel é numeroso e mais forte do que nós. Vinde, oprimamo-lo com astúcia, para que ele não se multiplique, e, se sobrevier alguma guerra, eles se unam, com os nossos inimigos, e depois de nos vencer, saia deste país.”
[3] Bonnechi, Ed. – Art. and History of Egipt. Edição inglesa. Florença, 1994.
[4] O jovem rei Tut-Ank-Amon foi assassinado aos dezoito anos de idade e sua história era pouco conhecida até sua tumba ser encontrada por Howard Carter em 1928. Os tesouros que ela continha constituem o maior achado arqueológico de todos os tempos e encontram-se hoje no museu do Cairo.
[5] Êxodo, 2:15
[6] Esta data está baseada na informação contida em Reis, 6;1 segundo a qual o Êxodo teria ocorrido 480 antes do início da construção do Templo de Jerusalém. Estima-se que a construção do Templo de Salomão tenha sido iniciada em 1112/1113 a.C.
[7] Horem-heb reinou de 1335 a 1308 a C.
[8] Ver Gênesis, 21:18
[9]Adonai, o Senhor.
[10] O nome Séfora é um termo cabalístico(séfira), que significa manifestação do Senhor no mundo das realidades sensíveis.
[11] Gênesis, 2:19
[12] Gênesis, 3:1 a 5- Essa interpretação do texto bíblico foi inspirada em ensinamentos cabalísticos. Ela está metaforicamente registrada na Bíblia em Gênesis 3:14, como a maldição da serpente.  Segundo uma tradição cabalística, o verdadeiro nome de Deus é fonte de poder e quem o conhece torna-se capaz de realizar grandes prodígios. Essa seria a fonte de poder dos grandes profetas e personagens bíblicos como Moisés, Elias, Salomão, Jesus, etc. 
[13] A memória dessa perda ficou registrada no mito da Torre de babel
[14] Conforme a tradição cabalística. Ver a esse respeito a Lenda de Enoque, utilizada na maçonaria como alegoria que simboliza ensinamentos arcanos de grande relevância. Enoque é citado na Bíblia como o homem que foi arrebatado por Deus ainda em vida.
[15] Por isso a maçonaria adotou a tradição de fazer o neófito entrar no Templo, para sua iniciação, meio nu, meio vestido, com um pé descalço.
[16] Essa é a descrição de Deus conforme é visto pela Cabala e também pela tradição vedanta, expressa nos versos da Baghavad Guita.
[17] Êxodo, 3:6
[18] Cf. a tradição expressa pela Baghavad Guita.
[19] Utiliza-se aqui a linguagem maçônica, onde Loja significa a reunião dos Irmãos, congregados para um propósito e Oriente é a potência á qual uma Loja maçônica é filiada. Templo é local onde os Irmãos se reúnem.
[20] Referência ao Templo de Salomão, cujo arquétipo é venerado pelos maçons como maquete arquitetônica do mundo.
[21] Acontecimento narrado no Livro Sagrado


DO LIVRO O TESTAMENTO DO MAÇOM- NO PRELO