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MITO E RELIGIÃO NA GRÉCIA ANTIGA- JEAN PIERRE VERNANT

MITO E RELIGIÃO
NA GRÉCIA ANTIGA

     Jean-Pierre Vernant, foi um historiador francês nascido em Toulouse em 1914 e morreu em Sèvres em 2007. Iniciou seus estudos em filosofia em 1937 e, em 1948, se dedicou a antropologia da Grécia antiga. Foi diretor de estudos na École des Études em 1958, criando assim em 1964 au Centre de Recherches Comparées Sur les Sociétés Anciennes. Ocupou a cadeira de estudos comparados de religiões antigas de 1975 a 1984. Detém o título de honoris causa em diversas universidades, como a de Chicago, Bristol, Nápoles e Oxford. Escreveu diversas obras e a que será analisada nesta resenha será o livro MITO E RELIGIÃO NA GRÉCIA ANTIGA, escrito em 1987 e traduzido para o português em 2006.
     Já na introdução, o autor deixa irrefutável a importância que os deuses gregos tiveram na sociedade, e ainda como os deuses se faziam presentes no dia a dia. O autor  faz um alerta para termos cuidado ao interpretar a religião da Grécia arcaica com as religiões ocidentais cristãs dos tempos atuais, mesmo que seja tentador fazer tais comparações, ainda que se utilize vez o outra semelhanças entre essas religiões tão díspares. Entretanto adverte que nenhuma religião é simples, homogênea e única. No livro em questão, Jean-Pierre Vernant faz uma análise simples e objetiva em cinco capítulos, esmiuçando a religião grega na antiguidade clássica.
     O primeiro capítulo aborda o mito, rituais imagem dos deuses, onde trata sobre as tradições religiosas, que, segundo o autor era o pilar da religião grega assim como da sociedade em geral. Essas tradições eram passadas de geração em geração por meio de ritos caseiros, pois se trata de uma religião sem livro sagrado, casta sacerdotal, sem clero especializado e sem igreja. Segundo o autor, os rituais eram transmitidos através de um vasto repertório de histórias que eram conhecidos desde a infância e, para tanto existiam agentes encarregados da oralidade para essas histórias ganharem repercussão nas gerações seguintes, eram os poetas. Os poetas tinham uma importância muito grande para a divulgação dessas memórias, pois eram eles que cantavam as peripécias de deuses, semideuses e heróis. Essas histórias eram cantadas ao som de instrumentos musicais durante banquetes, festas oficiais, concursos e jogos, transmitindo assim, feitos de tempos remotos. Para os ouvintes essas histórias não eram uma simples manifestação artística, nem um privilégio para poucos e sim uma construção de memória social que conservava o saber e o orgulho da cidade ,tornando assim evidente que a religião grega era um tesouro trazido até os homens pelos próprios deuses da cidade que representavam.
     No que diz respeito a decifração do mito, Jean-Pierre Vernant trás uma análise acerca da composição do fabulário grego, fazendo uma comparação ou separação do mito e do rito, real e imaginário, ideologia e ideoplastia fazendo um elo natural ao sobrenatural, onde o mito é inegavelmente mais explícito ,tornando assim o objeto que cada deus controla se manifestar em sua imagem.
     O segundo capítulo diz respeito ao mundo dos deuses. Mundo esse onde habitam todos os deuses de forma peculiar, visto que se reagrupam em uma rede variadas de combinações não obedecendo a um modelo uno de valores privilegiados compondo um quadro múltiplos e variados entre si, e esse mundo, o Olimpo tem um líder, Zeus. Ao focar Zeus como o centro dos Olimpianos, o autor o distingue dos outros deuses, posto que, Zeus tem um papel muito peculiar no Olimpo, pois é pai e rei, o soberano mesmo que delegue os mares a Poseidon e o mundo dos mortos a Hades, não constituem uma trindade, visto que Zeus é o modelo de conduta usado pelos gregos, a figura da perfeição. É o pai dos deuses e dos homens, não por ter gerado ou criado todos, mas porque exerce uma autoridade absoluta como o pater tem sobre sua família ou povo, se fazendo presente em toda parte.
     O terceiro capítulo fala sobre a religião cívica, assim como sobre os deuses, semideuses e os heróis. Toda cidade tem suas divindades com a função de preservar os cidadãos, autenticando uma comunidade, unindo todos no mesmo espaço cívico, inclusive as áreas mais afastadas, como as rurais. Entre as contribuições mais significativas está a construção do templo, independente do habitat humano ou palácio, delimitando uma área sagrada, separando-o assim do espaço profano. O deus reside no templo através de sua estátua, contrário as altares domésticos, porém não os substituindo. Outra novidade relevante, segundo Jean-Pierre Vernant, foi a reutilização das construções micelianas, onde após reformadas serviram para homenagear personagens lendários construindo uma distinção dessas figuras dos demais cidadãos. Isso está associado com a presença subterrânea do defunto, tendo que ser buscado, as vezes, em lugares distantes. Essa adoção dos heróis tem um significado religioso, tanto por seu distanciamento como culto divino, quanto os ritos funerários, os heróis são nesses casos mortais que, de certa forma se igualaram de forma honrosa aos deuses, muitas vezes ajudados por eles. Os deuses gregos são perfeitos fisicamente, porém assim como os humanos, têm desejos físicos e esses desejos fazem com que as  divindades convivam com os mortais de forma amistosa, dividindo a mesma refeição, a mesma bebida e até o mesmo leito. Dessas relações surgem os semideuses, seres que por muitas vezes tem duas agruras. Mesmo os semideuses e heróis, apesar de duas honras, poder e domínios não interferem com os deuses, muito menos intervém com eles.
     No quarto capítulo o autor trás os ideais dos homens aos deuses. O sacrifício. Esse capítulo é reservado aos rituais de sacrifício, o repasto de festa, como Prometeu, condenou os homens a morte e a necessidade de religação dos homens com os seres divinos e ainda o que tornou o homem diferente dos outros animais. O culto do sacrifício serve para oferecer aos deuses uma vítima animal em sua honra, não o corpo físico do animal, e sim, o cheiro e o perfume da queima de sua carne, porque diferente dos homens ,os deuses não tem a necessidade de se alimentar fisicamente por serem superiores. A lenda conta que numa época remota onde deuses e homens viviam no mesmo plano onde não havia nem fome, nem pestes ou cansaço físico. Prometeu que fora o primeiro a fazer um sacrifício, tentou enganar Zeus e com isso a ira do deus recaiu sobre os homens que foram obrigados a comer outros seres para sobreviver e ainda tiveram que aguentar todas as intemperanças que havia sobre a terra, parte desse castigo foi a criação de Pandora, a primeira mulher, com a qual o homem se viu obrigado a se relacionar fisicamente para perpetuar a espécie. Para amenizar um pouco o sofrimento humano, Prometeu lhe entrega o fogo para assim cozinhar a carne ,tornando o homem diferente dos outros animais selvagens. Por ser mais fraco que os raios de Zeus, o fogo humano tem que ser constantemente reacendido e essa é a única relação dos deuses com os humanos. O sacrifício feito por Prometeu foi usado como exemplo pelos mortais.
     No quinto e último capítulo, Jean-Pierre Vernant, fala sobre o misticismo grego, os mistérios, Dionísio, o estranho estrangeiro, o orfismo e a busca da unidade perdida. O misticismo grego é marcado pelo contato direto e pessoal com os deuses, associado a uma busca de imortalidade bem aventurada após a morte, pois a parcela do divino permaneceu presente em cada um. Os mistérios eleusinos eram ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas em Elêusis, localizada próximo a Atenas. Esses ritos eram exemplares, por seu prestígio e seu brilho, constituindo um conjunto cultural bem definido e organizado sob o controle e a tutela da cidade, ficando contudo a margem do Estado por ser iniciático, secreto e tendo seu recrutamento aberto a todos os gregos, baseando se não no estatuto social, mas ,na opção pessoal dos indivíduos.
     Já o culto a Dionísio, ao contrário do eleusinos, fazia parte integral da religião cívica, posto que as festas em sua homenagem eram celebradas da mesma forma que as outras dentro do calendário sagrado. É o deus da loucura divina venda mania, por sua maneira de apossar dos fiéis através de um transe coletivo, introduzindo na religião uma experiência estranha por se tratar de um deus estrangeiro. Dionísio é o deus que mais aproxima os deuses dos homens e os homens dos animais. No delírio e no entusiasmo a criatura humana desempenha o papel de deus, se vê despido de sua própria essência.
     O orfismo, diferente de rito, seitas e religiões é a negação aos rituais com sacrifícios de animais, visto que no orfismo o culto está ligado exclusivamente a Orfeu, que segundo a literatura grega foi um poeta que foi ao Hades e voltou. Nessas práticas são utilizados técnicas de curas e receitas de purificação para uma vida de salvação, para tal, o vegetarianismo é a prática mais relevante no orfismo para a salvação da alma após a morte.
     O livro MITO E RELIGIÃO NA GRÉCIA ANTIGA é, portanto, uma obra de boa leitura, visto que Jean-Pierre Vernant é um analista brilhante e trazem sua escrita ,um manual sobre as tradições, rituais e religião na Grécia antiga de forma objetiva e direta de forma satisfatória.

Joey Rascunho
Enviado por Joey Rascunho em 04/07/2018
Código do texto: T6381000
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Sobre o autor
Joey Rascunho
São Paulo - São Paulo - Brasil
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