A ALMA DO MUNDO

"A arte, a religião e a filosofia diferem quanto à forma, seu objeto é o mesmo." Hegel

A ALMA DO MUNDO -- A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos (Record, 2017) , de Roger Scruton, é uma pequena obra-prima sobre um dos mais relevantes temas que se possa abordar tendo em vista o processo civiizatório ocidental como um todo, seus problemas atuais e as questões atreladas a esse mesmo tema, suponho.

Os capítulos :

1. Acreditar em Deus

2. Em busca das pessoas

3. O que há no nosso cérebro

4. A primeira pessoa do plural

5. Encarando um ao outro

6. Encarando a Terra

7. O espaço sagrado da música

8. Em busca de Deus

O enfoque dado à religião enquanto fenômeno cultural fundador da civilização é amparado em vasta bibliografia, de Mircea Eliade e Durkheim a René Girard, por exemplo, e apenas para ficar em poucos (e incontornáveis) nomes. A legitimidade da religião desde uma perspectiva estritamente racional é colocada sob escrutínio honesto, trazendo tanto a Crítica da Razão Pura, de Kant, e os Diálogos Sobre a Religião Natural, de Hume, como também superando-os, de certo modo, se assim pode ser dito, em Hegel.

Scruton é essencialmente filósofo mesmo quando o objeto em questão é a pura teologia, lembrando a abordagem fria e exata de um Kierkegaard, em alguns momentos, e tende a reconhecer os limites da leitura que determinado sistema implica, aqui e ali, deixando claro quando a explanação não dá conta do problema por completo, quando há pontos cegos. A segurança de suas assertivas, por outro lado, está bem fundamentada no domínio dos clássicos na literatura e na filosofia, um background consistente em história da arte e religiões comparadas, bem como a sólida refutação a certa "hermenêutica da suspeita", como o queria Paul Ricoeur referindo-se a Marx, Feuerbach, Freud, Agamben, entre outros.

É uma leitura densa, exige compromisso do leitor com a possibilidade de lidar com o desconforto de submeter certezas fáceis ao crivo de inteligências agudas em seus melhores momentos. A recompensa do leitor corajoso é o privilégio de tomar contato com uma das mentes mais atuantes nesses tempos negros, de confusão mental metódica vendida como paliativos de espíritos agonizantes.

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Israel Rozário
Enviado por Israel Rozário em 29/11/2019
Código do texto: T6807003
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