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"A estrada" de Cormac McCarthy: uma distopia marcante por centralizar nas relações e dramas humanos

Livro “A estrada” de Cormac McCarthy, um dos mais importantes escritores dos Estados Unidos na atualidade. McCarthy nasceu em 1933 e, ao longo de sua carreira como escritor ganhou vários prêmios. Com este livro, ele conquistou o Pulitzer de Ficção em 2007.

Na história, um pai vive em um mundo pós-apocalíptico, ao lado de uma criança, seu filho, a quem tenta proteger, enquanto viajam ao longo de uma estrada em direção ao litoral onde esperam encontrar condições mínimas para viver. Possuem apenas um velho carrinho de compras, roupas em farrapos e restos de comida vencida que encontram durante a caminhada.

Ao contrário de outras distopias, “A estrada” possui algumas características interessantes. No que diz respeito à ambientação, nada de universos tecnológicos hostis e sujos, como visto na temática cyberpunk. Ela se aproxima de um contexto de devastação, mas, ao contrário de um “Mad Max”, por exemplo, há um toque crível. Na medida em que se lê, é possível acreditar no universo construído. O mundo é atingido por um acontecimento que altera, de forma rápida e catastrófica, o clima da Terra. A maioria das plantas morrem e, consequentemente, os alimentos se tornam escassos. Incêndios atingem o resto das florestas e matas. O céu é cinza e a luz do sol não passa completamente pelas nuvens. Árvores caem sozinhas, fracas devido à carência de energia solar. Cadáveres são encontrados pelo caminho. Faz frio. O resto da população vive em pequenos bandos que vagam a esmo, saqueando e, em alguns casos, apelando para o canibalismo devido à fome. Tudo relatado de forma crível, apesar do gênero distópico.

McCarthy não se preocupa em explicar o que aconteceu ao planeta. Não precisa, pois isso é secundário. O foco está na relação entre o pai e o filho. Apesar de todo o horror em seu entorno, o homem procura transmitir ensinamentos e esperança para o garoto. É carinhoso. A criança funciona como um estímulo para que ele continue a caminhada e é, concomitantemente, um vínculo para um mundo mais feliz e humano, que não existe mais. O filho é a esperança.

O filho, por sua vez, já nasceu nesse mundo devastado. E o pai serve como um porto seguro. O pai é a única coisa que difere da realidade desoladora. O pai é tudo.

Com uma relação tão próxima, como caminhar em uma realidade que, em qualquer momento, um perigo de vida pode surgir? O que seria do pai sem a esperança e humanidade representada no filho? E o que seria da criança sem a proteção e orientação num mundo hostil?

As relações humanas são fortes e capazes de nos manter caminhando na estrada que, por sua vez, pode ser entendida como uma metáfora para a própria vida. A estrada se inicia, vai de um ponto A até um ponto B, e termina. Ao longo de sua extensão, vemos belas paisagens, paramos, comemos, bebemos, curtimos o passeio e, a cada curva, pode surgir um perigo que pode acabar com a viagem de forma abrupta, precoce. A vida funciona da mesma forma e tal metáfora torna a ficção científica de McCarthy mais poderosa.

Interessante observar que, neste mundo onde relações humanas praticamente inexistem, os personagens sequer se tratam pelo nome. O autor não nomeia seus personagens. O nome próprio ajuda a dar unicidade ao indivíduo diante de uma coletividade. Ora, se não existe mais coletividade, substituída apenas pelo companheiro de estada, nomes se tornam obsoletos, desnecessários.

Distopias, quando são capazes de trabalhar bem o elemento humano, são capazes de comover e marcar, de forma permanente nossa existência. Lembro que, muitos anos atrás, fiquei particularmente comovido durante a leitura de “1984” de George Orwell e de “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley. Talvez, por ser pai, a leitura de “A estrada” mexeu muito com meus sentimentos. Num contexto real, a possibilidade da perda de um emprego ou de uma situação atípica que comprometa a vida, pode ser representada, numa analogia pessoal, com um mundo pós-apocalíptico. Eis aí uma das características que tornam a Literatura uma experiência tão única, especial.

Com leitura fluída, bom desenvolvimento de personagens, sem apelar para clichês do gênero, “A estrada” é uma excelente distopia e, de forma totalmente inesperada, se tornou uma das melhores leituras que fiz.

P.S.: Em 2009, dois anos após a publicação do livro, foi lançada uma adaptação cinematográfica do romance. O filme é bem fiel à obra e tem Viggo Mortensen no papel principal.

NOTA: 5/5 (excelente).

FICHA: McCARTHY, Cormac: tradução de Adriana Lisboa. A estrada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, 234 páginas. Título original: The road.
Manoel Frederico
Enviado por Manoel Frederico em 05/04/2021
Código do texto: T7224536
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Sobre o autor
Manoel Frederico
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Manoel Frederico