Como contar um conto


            Como contar um conto é o nome do livro que acabei de ler. Trata-se da publicação de uma Oficina de roteiros dirigida por Gabriel Garcia Marques na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba. É um dos muitos livros que tenho há anos e que por qualquer razão nunca foram lidos.Especulando, já que não me lembro bem, foi comprado sem prestar atenção em mais nada a não ser no título e no nome do autor. Muitas vezes faço isso, vou empilhando livros e comprando e só vou  analisá-los em casa. Devo ter imaginado que  com ele eu aprenderia a escrever contos, que é algo que eu gostaria de fazer bem. Quando vi que a proposta era ensinar a fazer roteiros para a televisão, deixei-o no canto mais escondido da estante onde o encontrei há pouco tempo e o coloquei-o em uma de muitas filas de livros para ler.

 

            Bem a Oficina de Roteiros funciona do seguinte modo: cada um dos alunos leva a sua história e a coloca a apreciação do grupo que vai sugerindo modificações sob a supervisão de Garcia Marques. 10 roteirista entre os quais dois brasileiros participam do grupo que mais se parece com uma roda de amigos contando casos, mas são apenas  sete as jornadas de trabalho. O dono da idéia, depois da rodada livre de papo, mas obedecendo ao que se decidiu que seria o roteiro, o prepara sozinho.

 

           Embora o livro não tenha a magia dos romances de Gabo, apresenta momentos de puro encantamento: um desses momentos ocorre  quando ele narra o encontro que teve com uma foto, publicada na revista Life: é uma foto do enterro de Hiroito. Nessa foto está a nova imperatriz do Japão, a mulher de Akihito. Chove. Ao fundo estão os guardas vestidos com capas brancas e, mais longe ainda, a multidão com seus guarda-chuvas e outros objetos protetores na cabeça. No meio da foto, vestida de negro da cabeça aos pés e com um grande guarda-chuva negro aparece a Imperatriz, muito magra e solitária. Encantado com a foto Gabo percebeu que dali poderia tirar uma história . E guardou na cabeça a imagem da foto e a idéia de que ela daria uma história. Aos poucos ele foi transformando a foto para encontrar a sua história. Paulatinamente foi jogando no limbo do inconsciente partes da foto: as pessoas, os guardas, até que por fim descartou até a imagem da imperatriz. Só sobrou o guarda-chuva.  E ele sabia que um dia contaria essa história. Eu não sei se ele já a contou, mas  esta história me fez lembrar de um poema que escrevi: Depois da Chuva. Nesse poema, despretensioso, eu  peguei como mote a história de uma sombrinha. Coloquei-o aqui no Recanto e me impressionei  com a quantidade de leituras que teve . Mas não foi esse o único episódio acontecido durante a leitura desse livro que vai deixar marcas na minha literatura. Obcecada com certos acontecimentos trágicos, eu não tirava da cabeça uma antiga lenda árabe sobre um homem que fugindo da morte vai exatamente parar onde ela o espera. Pensei, e ainda penso em escrever uma variante: um personagem correndo atrás da morte que foge dele. Ainda não escrevi porque não encontrei o tom certo, mas lendo o livro deparei-me novamente com a história da Morte em Samarra, na quarta jornada de trabalho. Ela é lembrada exatamente porque uma das histórias apresentadas para se transformar em roteiro tem exatamente essa idéia básica. É a história de um homem insignificante que, ao descobrir que tem pouco tempo de vida, decide viver. Mas é exatamente aí, nessa busca pela vida que ele  encontra  a morte.

 

            E assim por diante, em cada jornada de trabalho, as histórias vão sendo lançadas e transformadas, com o objetivo de roteirizar um filme de trinta minutos para a televisão. Roteiros para a televisão não fazem parte do meu objetivo literário mas não posso negar que uma das jornadas inspirou meu conto Olhe para frente Margarida., aqui também publicado. Não vou destrinchar  nem o roteiro de Garcia Marques nem o meu texto, só digo que não foi plágio. Foi inspiração. Se alguém sentir necessidade de comprovoção basta ler o meu conto e também o livro. O meu exemplar, embora querido, vou guardar apenas na memória dessas situações que o ligaram perenemente a mim. Vou dá-lo de presente para o Allan Calisto, um jovem brilhante que trabalha comigo, para que faça bom uso dele em suas oficinas de teatro com o seu grupo Perereca. Provavelmente fará  melhor do que eu. Não há dúvida que Gabriel Garcia Marquez é um grande mestre e beber em sua fonte só fará bem a quem quer aprender.