MACEDO, Thales Miranda (1980-2014). Re-talhos. Márcio Adriano Moraes (organizador). Montes Calros: Gráfica Editora Millennium Ltda. 2021.

 

Ramos e Talhos

 

Quem sou? se no poema, o eu lírico se personifica numa voz social, na essência humana clamante do poeta, é muito mais que “um grão de areia neste imenso mundo”. É um eco que, a partir de sua escrita, deixou grafado o seu anseio de ver um mundo mais humano, numa atração tal ímã, Imano. Reflexos do “eu” que se espelham no mundo, em sua generalidade social, e nos seres, sobretudo nos mais íntimos, família e amigos, são as poesias de Thales Miranda de Macedo.

 

O poeta que aqui traça sua lira bebeu nos dramas humanos o seu insumo, sobretudo em si mesmo. O tempo, a natureza, os questionamentos sociais, as reflexões humanas e espirituais são algumas das temáticas que perpassam sua verve poética.

 

A primavera da vida, a infância que nos revela, em seus versos, que “pintada de sol/ era a essência/ da felicidade intensa”, é um mundo existente, porém já não mais vivente. Está na memória em lembrança saudosa lá no seu lar. Suas Raízes está na herança cultural de sua terra, que “tem congado, boi-janeiro,/ fogueira no São João,/ quadrilha na rua”; está no Recanto do Jequi, com suas Águas Formosas, que lhe formaram e lhe deram Coragem para crescer. Nesse processo, dores e amores, como a Descoberta de uma nova espécie, a mulher, experiências, vivências e reflexões vão se amalgamando. É a chegada de uma juventude ansiada que, nem sempre, se concretiza como esperado, e o adolescente se cega, Adolescego. E vão ficando para trás amigos que se perdem na estrada, e outros que se enveredam por curvas distintas. E há uma Jovem Juventude que pinta a cara, que se encontra no mundo e levanta as mãos como bandeiras em prol de seu lugar social. Fato é que não há como parar o tempo, todos crescemos, e a infância fica lá num espaço que só é visitado com a recordação. “Porém, temos que aceitar o nosso destino/ de deixar de sermos meninos,/ mas não se acaba a esperança,/ pois, mesmo com o corpo de um homem,/ ainda temos a alma de uma criança.” Eis, então, os Frutos da vida: na infância, o verde; na juventude, a vaidade; na velhice, o arrependimento.

 

E nessa trajetória, o poeta nos alerta para não deixar, principalmente no interior familiar, que o mundo se torne mudo; isto é, que as pessoas não substituam as prosas humanas por telas televisivas ou qualquer falas mecânicas. A vida é uma Corrida que deve ser caminhada e bem vivida, porque ela, a morte, chega; mas não mata o homem de imediato. Inevitável fato, sim; mas o que foi feito durante essa caminhada é que será lembrado. E se as pegadas deixadas forem memoráveis, o homem não morrerá, pois se do pó viemos, a ele voltaremos, “mas no entrelaço da lembrança/ ainda damos o nó;/ e só nos sentiremos falecidos/ quando formos esquecidos”.

 

E uma das marcas que devemos deixar neste mundo é justamente o olhar para ele como ele o é natural, em sua efervescente natureza, a qual temos de preservar e salvar da extinção. O poeta nos alerta de que o progresso ganancioso vai aos poucos matando a natureza. Seu grito é certeiro, sem ela não poderemos viver plenamente. “Na simplicidade do natural/ somos irmãos de cada ser.” Como os saveiristas que se harmonizam em seus saveiros, homens do mar, Capitães da maré, que se enlaçam e dele, para ele, com ele vivem. Além das águas salgadas do mar, também as doces dos rios que nos saciam, como o Jequitinhonha, largo e cheio de peixes, dessas Minas e Bahia. E o alerta para o desmatamento, para a “peste” que esse colonial rio das virgens enfrenta em seus meandros.

 

A voz social de Thales ganha amplitude em sua poesia. Perpassando por várias imagens, o poeta apresenta um olhar clínico do mundo, essencialmente do Brasil, marcado por problemas que vão desde o menino de rua até o vírus da corrupção política. A Esperança futura resiste no peito-poeta que se orgulha de ser brasileiro, mas que lamenta pelas cores azul, verde, amarelo serem manchadas de preto. Surge, então, Dois mundos, marcados pela distância econômica: o outro rico e o eu pobre. A voz lírica, coerente com a luta contra os preconceitos, sempre fala pelo menor, pelos pequenos que são, cada vez mais e sempre foram, pisoteados pelos grandes. Seus personagens que batalham na vida é o sertanejo, que já cantado por João Cabral, enfrenta a morte em qualquer idade, “mata até gente não nascida”; é o trabalhador, confundido com ladrão; é o aidético que encontra resistência dos outros no convívio social, sendo que o melhor remédio é o carinho e o abraço fraternal; é o homossexual com seu Relógio de Vênus; é o aluno, cuja educação é negligenciada por professores sem um ideal, que “empurra a matéria com a barriga”; é o Aborígine urbano que se torna um selvagem capitalista; é o negro que teve as correntes quebradas, mas que ainda vive em grades; é a meretriz, esse Botão-flor: “menina-mulher,/ túmulo-barriga,/ menina prostituída”; o drogado, com seu vício pela morte lenta. E aqueles que se julgam os grandes, na denúncia poética de Thales, são Os menores, já que o poder que possuem é dado pelo povo, o verdadeiro “senhor da nação”.

 

Em seu Raio X, o poeta vê aquela que, talvez, seria a arma mais poderosa para mudar a sociedade sendo, cada vez mais, desprezada, a educação. Para os políticos, o que importa é saberem a letra “x” do alfabeto; “um povo alienado,/ de votos comprados”. E na luta pelo poder, pela dominação, não hesitam em lançar o Pássaro de ferro que rapta as pessoas, deixando nos que ficam esta realidade: “de tudo isso,/ só uma coisa é fato:/ tenho uma família,/ mas só neste retrato.” Eis o homem, que com o Poder da mão constrói arte e destruição.

 

Para combater esse Mal que mata, “Jesus é a chave”. Thales, como cristão, vê na devoção a Nossa Senhora uma Pedra angular; ele, assumindo-se como um nada, o qual Deus ama, pecador consciente que busca o perdão do Senhor. A fé é a luz, são as Velas que iluminam a escuridão que encontramos diante de nós.

 

Essa busca pelo perdão não deve ser apenas direcionada a Deus, que a todo pecador arrependido se prontifica, mas também às pessoas que maculamos. Ao redor, o primeiro acalento, a família: pai, mãe, irmãos; estão as pessoas que mais nos amam. Ao Grande homem, o pai, mesmo que seja o álcool a sua Kriptonita, é do filho a seta que norteia. À mãe, mulher rendeira, o Pedido de perdão de um menino-homem que cheio de razão acreditou que a vida poderia ser vivida sem suas mãos. E o irmão? O irmão é o escudo; na infância, a capa protetora, a força, o herói. E, ao lado deste, os amigos que guardam segredos, Raridade em nossas vidas.

 

A palavra é para o poeta a sua forma de se formar e de se deixar no mundo. No olho do lápis, “a escrita modela o palpite,/ sangrando no papel branco/ o risco do grafite.” A palavra “destrava lavra” é “libertação explosão criação”. A palavra escrita é proteção, é guarita ante esta humanidade náufraga. “O viver é hostil e adverso”. O Verso real é pranto que assinala o desencanto num mundo cuja “crueldade não tem vírgula”. Não há como se falar de amor se o capital cala. As palavras são usadas como punhais por homens que usam Máscaras.

 

E, dessa forma, mesmo que a Batalha da vida seja dia a dia, chega para todos o Adeus, “difícil de dizer/ quando a afeição/ não para de crescer”. O vento leva tudo, como um Sopro do peito. Amigos se tornam um “faz-de-conta” ou um “era uma vez”, sem o “para sempre” dos contos de fadas.

 

E a poesia se torna o externar íntimo do poeta. Uma intimidade que só ele, em sua Incógnita, compreende ou busca compreender, já que seu ser é louco, incompreendido pelo meio que vê as partes e não o todo. O corpo de ontem não é o mesmo de hoje, estranho. Um sentimento nauseabundo, de ofuscante revelação, numa pugna interior, e a vida se torna seu instrumento. Logo, fecha os olhos num Infinito mergulho na imaginação do seu ser, adubado no passado pueril, para com “asas ardentes” aquecer seu coração. Porque, na verdade, nesta Terra estranha, não sabe se comunicar, se expressar, pois só consegui ir até onde o pensamento alcança, e insistente está no mar da lembrança. Contudo, nesta realidade Sem vigas, o eu lírico não pode negar o passo primeiro, ainda com medo, ainda com visão embaçada, é preciso soltar-se das lembranças e continuar sua caminhada.

 

Nos testemunhos poéticos, Thales deixa evidente seus questionamentos, uma interrogação pela “sede de saber,/ no deserto do porquê,/ da nossa existência,/ do nosso viver,/ da origem e destino,/ do nosso ser.” Sua luta é pela paz, essa Gota diante de um mar de egoísmos e guerras que assinalam os Seres humanos que negam a Polpa em prol da casca.

 

Uma contagem regressiva se instaura em seus Passos, nos quais números e palavras procuram se harmonizar. O 12º Dia chega para agradecer a Deus, aos pais, ao mestre, aos pacientes, até às doenças, aos seres, ao ser... a Medicina, num jogo de cara ou coroa, sua sina.

 

Entretanto, num desalento externado por este mundo repleto de defeitos, surge um Pavão prepotente, cuja plumagem não é apreciada, a morte aparece como rota, já que o mundo não lhe deve merecer. Os Desejos de opostos se encontrarem se tornam anseios que não se vislumbram. A lua e o sol são amantes que só se encontram num Eclipse, instantes rápidos e raros em suas passagens. Como encontrar vida e morte? Antíteses uma da outra, em que somente na metáfora poética se enlaçam.

 

Como afirmou o poeta Thales, não se morre aquele que deixa sua memória para os vivos. E a memória do poeta vive não somente na lembrança dos que o conheceram, mas viva nestas palavras que nele se inscreveram. Apesar de atestar a Medicina sua sina; fato é bem verdade que seu fado foi a Poesia. Duas décadas de palavras em Re-talhos se formando numa grande colcha que se apresenta àqueles que dela desejarem se aquecer. Esta sua lira é feita de “talhos” que vão no “ré” (passado) para ir se costurando, formando uma teia em que nos prendemos humanos.

 

E o convite do poeta para a vida, para a construção, para o presente, para o fazer acontecer, pois “toda hora é hora/para uma atitude,

para uma ação,/ para uma manifestação.” “Não perca nenhum minuto,/ não deixe o pensar ficar oculto,/ suba na árvore e colha o fruto,/ sem preguiça, erga a sua mente,/ pois o tempo segue em frente./ Liberte o seu mundo/ pela sua ignorância escravizada,/ deixe que se expanda/ e agora ser melhorado./ E mãos à obra com animação,/ reúna os pedaços do seu passado,/ os re-talhos da criação,/ costure uma nova vida,/ sem rancor nem aflição.

 

Nos ensina Thales que o Verdadeiro tempo é a engrenagem da vida que não para, ainda que, por vezes, esqueçamos de lhe dar a devida graxa. Então, “Seja como for/ não mate o seu interior,/ despreze a idade

e o julgo exterior,/ viva o seu tempo,/ pois o seu espírito é o momento.”

 

Eis a lição em verve poética que nos deixa Thales Miranda Macedo, com suas poesias “Ramos”, de fôlego na composição de longas estrofes; e de “Talhos”, de aforismos diretos e certeiros para reflexão existencial humana.