A volta do filho pródigo, resenha

 

A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO, resenha

Miguel Carqueija

 

Resenha do livro “A volta do filho pródigo”, de Henri J. M. Nouwen. Subtítulo: “A história de um retorno para casa”. Edições Paulinas, São Paulo-SP, 7ª edição, 1999. Título original: The “return of the prodigal son”, Doubleday, 1992. Tradução: Sonia S.R. Orberg. Capa: tela de Rembrandt.

 

Sacerdote, o autor fala da profunda impressão que lhe causou uma pintura do consagrado Rembrandt sobre uma passagem marcante dos Evangelhos, a parábola do filho pródigo (Lc. 15, 11-32). Como se sabe, havia um homem rico e sua propriedade rural. Ele tinha dois filhos. Um dia o mais moço quis ganhar o mundo e pediu ao pai sua parte na herança. Recebeu-a e foi embora. Chegando em outro país, dissipou sua fortuna com farras e vida libertina. Reduzido à miséria arranjou um serviço de guardador de porcos, mas nem podia comer da ração dos mesmos (sic).

Então o moço caiu em si, reconheceu sua ingratidão e voltou para casa. Pediu perdão ao pai, disposto a ser apenas um empregado, mas o velho pai não fez caso disso e mandou fornecer roupas e calçados para o rapaz e que também organizassem uma festa. Ora, o filho mais velho chegou e não gostou nada do que viu, tratando de se queixar ao pai.

“Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio este teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!”

O pai, porém, responde com sagacidade:

“Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!”

O autor do livro ficou profundamente impressionado com a tela de Rembrandt, que “estava perto da morte quando ele pintou o seu Filho Pródigo. Provavelmente foi um dos seus últimos trabalhos. Quanto mais leio sobre a pintura e a contemplo, mas a enxergo como o capítulo final de uma vida tumultuada e sofrida. Juntamente com sua obra inacabada “Simeão e o Menino Jesus”, o Filho Pródigo retrata a percepção de sua idade avançada — uma percepção em que cegueira física e profunda visão interior estão profundamente ligadas”.

Nouwen busca estabelecer analogias entre ele próprio e os três personagens da parábola: o pai, o filho mais velho e o mais novo (o pródigo). O pai, como se sabe, é o retrato da bondade protetora, do amor paterno. O filho pródigo é o imaturo, irresponsável, a quem os castigos acarretados por seu próprio comportamento acabaram por modificar, é a figura do pecador arrependido. Quanto ao filho mais velho equivale ao fariseu, que se presume correto porque cumpre suas obrigações, mas friamente; no fundo é um egoísta.

O quadro original, comprado em 1776 por Catarina, a Grande, encontra-se num museu de São Petersburgo, e para lá se deslocou o autor afim de vê-lo e estudá-lo de perto. A tal ponto foi impressionado pela cena!

Comenta o autor no capítulo 6:

“O pai não deseja somente a volta do filho mais jovem, mas também a do mais velho. O mais velho também precisa ser encontrado e conduzido de volta à casa da alegria. Responderá ele ao apelo de seu pai ou ficará emperrado em sua amargura? Rembrandt também deixa a decisão do filho mais velho aberta a questionamento.”

Realmente, enquanto o mais novo se distanciou do pai fisicamente, o mais velho está distante de outra maneira, espiritualmente. A riqueza da parábola de Cristo, reproduzida no quadro de Rembrandt, é muito bem analisada neste belo livro.

 

Rio de Janeiro, 17 a 19 de março de 2024.

 

 

A tela de Rembrandt.