COLUNA LITERÁRIA DA AIP

Análise do Poetrix ortografia de Anthero Monteiro

Dirce Carneiro  - Cadeira 26 - Patrona: Eliana Mora

 

ortografia

(Anthero Monteiro)

 

uma gaivota só

um til sobre a palavra

imensidão

 

 

O Poetrix do saudoso acadêmico português Anthero Monteiro é um dos mais celebrados poemas de todos os tempos no ambiente poetrixta.

Quando uma obra fala por si mesma as palavras sobre ela soam como pretensão e desafio.

Faço como homenagem a este que pertenceu ao rol dos pioneiros e foi membro de primeira hora da Academia Poetrix.

Minha leitura não esgota as possibilidades de análise diante de uma obra rica de sugestões.

 

MOMENTO HISTÓRICO: Consta da Antologia 501 Poetrix Para Ler Antes do Amanhecer. Na ficha técnica está escrito: “Melhores poesias publicadas por mais de 80 autores da primeira década da existência do Movimento Poetrix”. O Poetrix surgiu em 1999. O Livro data de 2011.

 

INTRODUÇÃO: Importante salientar que os poetrixtas da primeira hora não precisavam obedecer ao rigor métrico, nem à recomendação quanto ao uso de rimas.

O espírito de vanguarda também subvertia recomendações do manifesto quanto à independência dos versos, o que chamamos hoje de fatiamento de orações (ou frases) para compor o terceto. A independência dos versos evita que o terceto tenha as feições de prosa, o que acontece quando se desmembra uma oração ou frase em três partes, para formar o terceto.

Os que se notabilizaram fizeram Poetrix com um poder criativo admirável, de teor filosófico, humorístico e irreverente, lírico, de protesto ou de crítica.

Viviam a novidade poética e procuravam o verso que causasse espanto no leitor. Eu costumo dizer que eles perseguiam o Poetrix Eureka, buscavam uma sacada que tornasse seus poemas singulares e admirado pelos seus pares. Hoje essa admiração, nas redes sociais, seria manifestada por um comentário, o tão usado “Lindo!”; um comentário de texto bem escrito, ou o lacônico emoji de cara de espanto.

Com o tempo, novos minimalistas surgiram. Tercetos caíram no gosto de escritores. Até o haikai já se apresenta, na atualidade, como um terceto genérico.

Foi preciso ater-se à letra do cânone poetrixta para preservar a sua característica de poema original brasileiro minimalista, do contrário, seria, será e pode ser confundido com os mais dos mesmos tercetos existentes. Para isso, a Academia Internacional Poetrix aprovou o documento Diretrizes, em 2022. Uma atualização dos preceitos já existentes com a qual a AIP pretende manter a identidade do Poetrix, com todas as suas características, que fazem dele um poema singular, diferenciado, original.

Feitos os esclarecimentos, vamos ao poema de Anthero Monteiro:

 

O TÍTULOortografia (escrito em letras minúsculas)

Sendo o título elemento obrigatório no Poetrix, este se reveste de primordial importância. É o cartão de visitas do poema, o convite para a intimidade dos significados e para atravessar as entranhas do poema.

Ortografia sugere o ato de escrever certo. É sobre isto que o eu poético discorre ao observar o voo de uma gaivota. Escrever certo, na vida, na escrita...

Já temos aqui uma subversão, a modernidade do título escrito em letras minúsculas.

 

1º. Verso:

uma gaivota só

 Gaivota é ave que voa em grupo, assim como as andorinhas, que voam em bando. Descrevem, no seu voo, o formato de um V, como o símbolo matemático menor.  No caso das andorinhas, uma vai na frente, servindo de guia e vão se revezando. Tratando-se de gaivotas, o formato do voo em V serve para que as da frente amenizem o esforço das de trás e assim economizem energia, por causa da ação do vento. Há também o revezamento. Assim, conseguem voar longas distâncias e poupar a frequência cardíaca.

A gaivota do poema voa só, faz um voo solitário. Ganha a mais alta altitude e se escreve no espaço intamanhável. Apartou-se do bando. Assumiu o protagonismo do seu voo, ganhou distância das demais, até se tornar um sinal miúdo, alcançado pela visão humana.

Tendo-se assumido uma ave de altos voos, apartada do bando, torna-se solitária.  Significa que ela tem a capacidade de se orientar sozinha. É senhora do seu voo, do seu destino e faz a sua escrita à sua maneira.

 

2º. Verso:

um til na palavra

 O til é o arremate das palavras. A gaivota, ao longe, se inscreve no espaço como sugestão de asinhas miúdas. Quanto mais longe, mais se aproxima da perfeição, a palavra acabada.

 

3º. verso:

imensidão

Está pronta a ortografia, o poema se fecha com a gaivota escrita no espaço imenso, como um sinal miúdo, o til, alcançado pela visão. Arremata-se a palavra, sobre ela o til, miúdas asas colocadas, o último signo alcançado pela visão humana, uma gaivota que se perde da nossa vista, no seu voo solitário.

Temos  duas dimensões: O miúdo e a infinitude.

Assim é a gaivota ganhando o infinito, um desenho miúdo que a vista humana arremata com um til, visão de asinhas no limite do que se pode alcançar a olho nu.

 

CONCLUSÃO: O que estaria a cismar o eu poético a observar a trajetória da gaivota até ser um quase nada no espaço intamanhável?

Já de início, temos a sugestão de uma quebra de padrões: o título todo escrito em letras minúsculas.

O voo da gaivota é uma escrita, uma linguagem, um desenho. Nesse aspecto, podemos dizer que temos uma metalinguagem. O eu poético fala de fazer do seu jeito e de voar independente de regras, para tanto segue só: quem tem asas para acompanhá-lo?

Prestes a se perder de vista, assemelha-se a um sinal miúdo, o signo gráfico til, que colocamos como arremate nas palavras necessárias, no poema é a palavra imensidão. Nas pinturas, representa-se pássaros ao longe, com o til, aves resumidas nas suas asinhas.  

A gaivota apartada do bando, que por voar nas mais altas altitudes, é um ser solitário, não anda em bandos nem precisa que outros lhe digam o rumo a seguir. No final da sua trajetória, seu ser se resume ao quase nada de asinhas minúsculas, como o til. O ser é algo miúdo na imensidão.

Há outras sugestões no poema.

Ser miudeza no meio da multidão.

O poema também nos remete à pequenez humana diante do Universo. Também sobre a Terra, apenas um minúsculo ponto de luz suspenso na galáxia.

Ou seríamos todos nós - o arremate da criação - o til na palavra imensidão, o fim da palavra a se perder no infinito?

 

***

 

Dirce Carneiro

Agosto/23

Alterado em 05.08, reformulando conceitos

sobre as gaivotas