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ANÁLISE CRÍTICA DO CONTO "A CARTOMANTE"

Galerinha jovem: Agredeço o interesse pelo texto,mas se possível nunca esqueçam de colocar como referência no final da sua produção.Beijos e congratulações a todos e a todas.



APRESENTAÇÃO

    Este presente trabalho é fruto de uma constante leitura e reflexão acerca das obras de Machado de Assis. De acordo com as discussões feitas sem sala de aula neste semestre foi proposto pelo professor uma análise critica de uma determinada obra machadiana.        DEmodo que viesse a produzir um diálogo entre meus conhecimentos e alguns autores como Alfredo Bosi; Nádia Battella, Afrânio Coutinho entre outros, a análise será em torno do conto “A Cartomante”, que nos mostrará mais uma vez a eloqüência; a intertextualidade; a mesquinhez social; o adultério; amores proibidos tão bem mostrados por Machado em suas obras tanto romance quanto crônicas, contos, poesia e teatro.


































INTRODUÇÃO

Na segunda metade do século XIX uma nova tendência literária começa a “gritar” suas idéias contrapondo as concepções romanescas vigente na época. Dentro dos parâmetros das leis da realidade, fundamentadas em concepções biológicas, físico-químicos e sociais o Realismo surge como defensor de uma literatura realista, Istoé, a literatura que expõe abertamente a mesquinhez da sociedade; os sentimentos amorosos sem esconder os devaneios e loucuras amorosas.
Enquanto o Romantismo se caracteriza na subjetividade da realidade, no escapismo, isto é, na fuga do espaço urbanizado com seu caos e capitalismo; o Realismo baseava-se nas idéias de racionalidade, concreticidade e objetividade. As propostas realistas buscavam cada vez mais estar perto da burguesia e do caos capitalista pra explicar, denunciar, desnudar e criticar um ambiente modelado por falsidades medos.
A ênfase nas relações entre o homem e a sociedade burguesa, atacando suas instituições e seus fundamentos ideológicos são características intrínsecas do Realismo, sendo que tal realização somente aconteceu porque houve no Brasil, escritores além do seu tempo como Aluísio Azevedo e Machado de Assis que maravilhosamente nos deixou grandes obras com temáticas vivenciadas após um século.
Em destaque devido o eixo norteador deste trabalho, fica importante abordarmos a relevância que Machado tem em nossa literatura, pois este soube penetrar nos mais pequenos e profundos segredos e lugares da alma sem jamais revela-los como,mas sugeri-los.
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1889 e veio a falecer em 1908 no Rio de Janeiro. Assis desde pequeno lidou e vivenciou os dramas da alma e do meio, pois veio de uma família muito pobre, ficando órfão ainda pequeno e como não bastasse era mulato e gago. Embora os fatos cronológicos da vida de Machado não tenha tido um saldo positivo, este soube aproveitar do sofrimento a capacidade de analisar, criticar e refletir o que via, tornando-se assim um grande escritor literário.
Machado realiza em suas obras uma ruptura aos padrões tradicionais da narrativa, seu enredo é não-linear, ou seja, não apresenta uma ordem cronológica dos fatos, do espaço; usa constantemente a analise psicológica, destruindo as ilusões românticas. Suas obras sugerem do leitor uma atenção rebuscada e muita curiosidade.

A exemplo no conto “A Cartomante”, o escritor narra uma a história do triângulo amoroso entre Vilela, Rita e Camilo, evidenciando o adultério, tema abordado em várias histórias do autor. Mostra a visão objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas. O autor faz uma análise psicológica das contradições humanas na criação de personagens imprevisíveis, trabalhando com insinuações em que se misturam ingenuidade e malícia, sinceridade e hipocrisia.
 O conto sem final feliz foi publicado por Machado de Assis em 1896 em Várias Histórias. O livro é representativo da segunda fase do escritor, que abandonou o Romantismo para inaugurar o Realismo.
Assim este conto é o objeto de estudo desta análise, já que como tantas outras relatam de forma sutil e intrigante aspectos tão presentes em nossa sociedade.























O conto começa focalizando a figura de Rita primeiro através do narrador e, a seguir, através de própria fala da personagem. Esposa de Vilela, grande amigo de Camilo, ela está tendo um caso amoroso com o segundo. Este caso é que lhe desperta a necessidade de recorrer a uma cartomante. Camilo, evitando despertar suspeitas no amigo, ultimamente escasseara suas visitas ao casal e Rita, insegura, duvidava da sinceridade de seu amor.
Sendo o narrador onisciente, ou seja, aquele que sabe de tudo, Machado de Assis provoca no leitor uma curiosidade demasiada, pois estrategicamente o narrador cede aos personagens espaço no enredo do conto, o que poderíamos pensar realmente na abertura, no entanto, é próprio do narrador que modela construir e desconstruir num jogo de ilusão óptica, até que ponto o leitor está preparado para enfrentá-lo e criar suas próprias assertivas.
A respeito do narrador onisciente fulando de tal salienta que “em toda história há uma voz que narra. No cenário da ficção, a figura do narrador deve ser entendida fundamentalmente como categoria textual á qual cabe a tarefa de enunciar o discurso... Sendo assim, a narrativa constrói-se através de uma série de convenções que se revelam a partir do ponto de vista escolhido”.
O interessante é que Machado de Assis aborda neste conto  o adultério, a traição, a busca astrológica e a  paixão proibida de forma literal como cada uma é  entendida pelas análises objetivas,isto é, o que há na ‘A Cartomante” como em tantas outras obras é a ruptura aos padrões romanescos, nos quais a mulher e o homem sofriam de amor e/ou reprimiá-os por ter medo. A inadaptação á vida e á sociedade conduziam-nos ao escapismo, às fantasias, ao sonho e ao culto da morte.
Rita, a personagem principal da trama, é construída ao longo do texto como uma mulher corajosa e amante da paixão, pois enfrenta não somente o medo de Camilo (amante), mas a sociedade vigente para viver uma profunda e alucinante paixão. ”... Rita estava certa de se amada, Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir lisonjeado”. De fato Assis não usa de restrições para expor fielmente os desejos carnais mais íntimos de uma pessoa,ao contrário, os liberta de maneira sutil e questionante.
Segundo Nádia Batella (1985, p.77), [...] os contos de Machado traduzem perspicazes compreensões da natureza humana, desde as mais sádicas às mais benévolas, porém nunca ingênuas. Aparecem motivadas por um interesse próprio, mais ou menos sórdido... Mas é sempre um comportamento duvidoso, que nunca é totalmente desvendado nos seus recônditos segredos e intenções...
 Sendo assim, em “A Cartomante” o narrador faz uma retomada ao passado, quando expõe a situação a qual se conheceram,sendo que está retomada surge quando o leitor já está ciente do que aconteceu. Uma traição. “[...] É o senhor”? Exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor. Neste trecho podemos perceber que a voz da personagem cedida pelo narrador, já nos mostra o perfil de uma mulher além do tempo; desinibida, comunicativa e a mais velha do triângulo amoroso. A mulher realista que enfrenta seus medos; desfruta de paixões, luta pelo que quer sem medo de sofrer as conseqüências.
Dessa forma o momento da retomada ao passado que mostra a primeira complicação está no tratamento solidário quando a mãe de Camilo veio a falecer. [...] “Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela... Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios... Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muitas vezes os dele, que os consultavam antes de fazê-lo ao marido”...
Por outro lado, há em Camilo um momento estático porque reconhece em sua consciência que aquela paixão proibida feriria o seu melhor amigo, mas a sua epiderme já estava tomada pela a de Rita e mesmo que ele tripudiasse contra os desejos nascidos da alma, já pertenciam aRita.[...] “Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente,foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo,e pingou-lhe oveneno na boca...
“Mas neste momento especial de ações e reações mutuas entre o par amoroso, permanece uma zona velada, porque as personagens não explodem, ou não deixam explodir até o final a sua intimidade” (p.81). Seguindo a citação de Nádia Battella esta atitude de tentar sugerir, mas não dar caracteres psique dos personagens, é uma outra característica especifica de Assis na qual o autor provoca numa sugerida ironia fina e implacável.
Representados como seres de baixa consistência moral e mesmo intelectual, até o drama existencial dos dois. Brevíssimo. "Adeus, escrúpulos!" é o comentário irônico do narrador que anuncia a consumação do adultério.
Começam, então, a ser enviadas cartas anônimas a Camilo, chamado, nelas, de "imoral e pérfido". Imoral por violar a convenção social da fidelidade no matrimônio, pérfido por desconsiderar a sinceridade do amigo. As cartas anônimas fornecem uma visão crítica do comportamento do casal: com esta nova visão, o idílio de esquecimento em que ambos se recolheram é perturbado. Na caracterização de Camilo, medo e covardia são reiterados. Na de Rita, leviandade e inconseqüência.
 Fica instaurado assim a partir das cartas anônimas o clímax do conto. Em desespero Rita vai ao encontro da cartomante para restitui-lhe a confiança mesmo sabendo que seu romance com Camilo um dia traria muitos conflitos para os amantes e o esposo (Vilela).
A visita à cartomante é um importante recurso caracterizador da personagem. Rita fica convencida da verdade do que a adivinha "lê" nas cartas: Camilo continua a amá-la. Este, incrédulo e irônico, ouve, "por outras palavras" que há mais mistérios no céu e na terra do que supõe a nossa filosofia. E como ele ainda graceja, Rita arremata (em discurso indireto): “Se ele não acreditava paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita”.
Nesse momento o narrador passa a caracterizar psicologicamente Vilela, o esposo traído, que de repente ganha espaço e vida na obra. No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora. Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; porque em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.”.
O percurso até a casa de Vilela torna-se agora um martírio para Camilo, é o drama psicológico, a consciência em efervescência pelo adultério cometido, a covardia de enfrentar seus erros e assumir o mau caráter que foi.
A recepção que permeia as obras de Machado é, em si, para leitores curiosos e críticos um ‘quebra-cabeça literário’, pois ao passo que este tenta criar no leitor a habilidade de raciocinar, investigar pistas, também o faz de ‘bobo’, isto porque, há entre o escritor, o narrador, personagens e a obra como um todo estratégias para ‘prender’ a atenção do leitor, que muitas vezes entra no diálogo do narrador como em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “caro leitor se não tem paciência pra ler, feche o livro”.
Como sabemos, a cartomante é um tipo de mulher que conhecedora dos anseios e medos que afligem uma sociedade, aproveita da situação para tirar proveito de pessoas inflexíveis. Assim, como uma cartomante, o narrador dispersa a atenção do interlocutor, ele cria um ritual e altera seguidas vezes a ordem do baralho e seguidas vezes mostra esta ou aquela carta como a responsável pelo sentido atribuído aos dados do mundo.
Tais elementos são elaborados de forma a permitir que o conto se torne significativo: segundo Cortazar, “um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e ás vezes miserável historia que conta”.
Seguindo a trama o narrador agora prepara um ambiente de acasos, justamente para incutir no leitor mais dúvidas e curiosidades. O leitor passa a usar dos flascback numa tentativa de não ser persuadido pelo narrador. Mas a covardia de Camilo é tamanha que o próprio leitor começa acreditar nas supostas atitudes. [...] “Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tilburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo e esperou...” antes era uma ingenuo na vida moral e pratica,mas a partir daqui Camilo havia se tornado um homem sem caráter e valores.
Avistando a casa da cartomante Camilo tomou-se de um impulso desesperado; vinha em sua memória lembranças passadas, as palavras de Vilela e sem redargüir [...] “eu por si na calçada, ao pé da porta, disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu e escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés... trepouteu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer”... s era tarde, a curiosidade eomedo pungia no sangue de Camilo, necessitava de uma ilusão, de uma palavra imediata para encarar o fato.
“A cartomante fé-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo” A cartoonte pega um baralho e começa sua atividade. Fica evidente aqui, que oestado ao qual Camilo se encontra é de desespero, sendo assim, foi bem mais fácil para a cartomante buscar na ansiedade de Camilo as respostas que ele desejavao âmago da alma ouvir.
Após as palavras amáveis e otimistas da cartomante, Camilo encontra “coragem” para seguir viagem e ir ao encontro de Vilela. Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais”.Daí a pouco chegou á casa de Vilela e sem pestanejar o marido traído com dois tiros acerta Camilo que também cai estirado no chão com a amante morta já alguns minutos.
Segundo Nádia Batella(1985,p.68) “ Embora vários elementos concorram para a criaçõa de um conto, parece que o destino de sucesso ou fiasco depende menos destes elementos que do modo como são tratados pelo cotista, ou seja: o que decide se um conto é bom ou ruim é o procedimento do autor, e não propriamente este ou aquele elemento isolado.
As obras de Machado como A Cartomante e tantas outras não deixam a desejar quando se tratam de requinte literário e mistérios,pois sendo magnânimo no que escreve, denuncia,critica, despi uma comodidade social: a mulher que trai, o amante que trai seus valores e melhor amigo e um homem que traído por duas vezes,vê-se no direito de fazer justiça ao seu modo.




























CONSIDERAÇÕES FINAIS


O plano literário de Machado de Assis ainda é alvo de muitos críticos, no entanto, este de maneira única proporcionou a literatura brasileira um vasto acervo de textos que em pleno século XXI não estão dispersos da realidade, já que é tão comum ouvirmos e lermos através dos novos escritores contemporâneos temas que Assis instaurou na literatura,ou seja,despir a realidade mesquinha e burguesa relatando seus segredos e falcatruas mais íntimas.
A cartomante é um conto curto, mas que não falta com a denuncia da realidade. Realmente houve uma traição entre Camilo e Rita, o que consequentemente fez de Vilela, um homem até então passivo, um esposo traído que procura no assassinato, salvar sua honra.
Tendo em vista os fatos que construíram o enredo desta trama, esta obra é dentre tantas outras uma contribuição incomensurável para os estudantes de letras, enquanto estudiosos da literatura como também para o público interessado em conhecer um pouco mais de Joaquim Maria Machado de Assis.

















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COUTINHO. Introdução À Literatura No Brasil. 15ª ed.;Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil,1990

CASTELLO, deraldo. Machado de Assis – Crítica. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1959.

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. 2ª ed. São Paulo: Ed. Ática, 1985.


Dani Drummond
Enviado por Dani Drummond em 09/04/2009
Reeditado em 26/08/2012
Código do texto: T1531088
Classificação de conteúdo: seguro

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