O limiar de Lyman

Te quero num chão de estrelas
Nua como a lua
E tão fugaz quanto um cometa...
Te quero numa explosão de gametas
Fundindo na supernova
Que a relatividade prova na sua ciencia imperfeita.

Coberta de éter
E da matéria impura
Vertendo o desejo imaturo;
Seminal como um buraco negro...

 
Dudu Oliveira
 
 
O limiar de Lyman: Dudu Oliveira
 
Desde o primeiro contato, O limiar de Lyman de Dudu Oliveira atraiu a minha atenção, embora de forma que me pareceu vaga. Bonito, pensei, diferente também, ainda muito relacionado a meu gosto temático e meu interesse por Física. Por um ou dois dias, esqueci-me do poema. Mas, sem que eu percebesse o texto ficou na periferia do meu pensamento, e um som ecoou por muito tempo. Não era o nome, porque estou habituada a nomes pouco comuns; era a evocação distante. Sem muita demora, o distante tornou-se próximo, presente e premente. O texto ressurgiu com toda força e me atraiu para uma releitura, que ora apresento, sem antecipações, para que o leitor tenha contato com uma parte do mistério e da atração que senti.
 

 A RELEITURA

 

 O poeta está diante da entrada, de uma porta, talvez aberta, talvez fechada; de uma situação que depende de transpor um limite, cruzar um limiar. É desse ponto de vista que ele expõe sua imagem. Ele quer Lyman  Num chão de estrelas, contra um fundo desprovido de outros enfeites que não sejam as estrelas; mas também contra uma moldura digna de uma pessoa jovem e muito bonita ou de alguém a quem se quer muito bem; uma estrela. Depois de definir o onde vem a manifestação do como. Esse querer manifesta-se de um modo especial. Ele a deseja despida, exposta, desguarnecida de atavios, vazia de afetação; ela e quer simples e ,sincera, sem disfarces. Ao mesmo tempo em que a compara com a lua em sua ausência de cobertura, pode-se entender que pensa em Lyman orbitando ao redor dele. Também espera dela que seja fugaz como um cometa, alguém que chega e vai embora rapidamente; algo efêmero ou, embora não haja uma relação direta com o significado da palavra, alguém que seja impermanente e imponderável e, considerando o verso seguinte, também um ser que quase não se pode deter, pegar, tomar, pela ausência de densidade. A próxima descrição menciona uma explosão de gametas, uma explosão de células germinativas que acabam resultando em um elemento de extrema densidade: Fundindo na supernova. Para esse verso minha leitura é: no mais alto grau da tensão provocada pelo desejo ainda contido, o da fêmea no cio, pronta para copular. Esse estado é ao mesmo tempo real e intangível. Que a relatividade prova na sua ciência imperfeita, traz um deslocamento do sentido que destrói o poder da assertiva. Não é a ciência imperfeita que prova a relatividade. Por esse deslocamento, provar pode adquirir o sentido de experimentar, testar. Essa relatividade poderia ser entendida como a forma relativa, casual, acidental, imperfeita e incompleta de conhecimento (ter ciência), que o poeta pode experimentar acerca de Lyman. Pelo levantamento, o número de palavras com conteúdo semântico é bastante superior, na proporção do total de vocábulos utilizados. Nesse primeiro aspecto, o significante fornece adequado suporte ao significado, reforçando-o. A partir deste ponto, rumo ao desenlace, o como recebe maior especificação: sobre Lyman, o único abrigo, a única proteção aceitável é o espaço celeste, absolutamente transparente, algo que impede qualquer dissimulação. Contudo, ele a quer feita da carnalidade lúbrica, sensual, sem pudores, transbordando, jorrando, (vertendo, aludindo ao gotejar), expressando o desejo precoce, incontido, de domínio; da busca prematura do prazer. A expectativa é a de que ela seja fértil no que tem a oferecer e irresistivelmente atrativa.
 
No limiar de Lyman discorre sobre algo pretendido, uma cena evocada imaginária, um episódio descrito. Não há a ocorrência de muitos adjetivos, como se poderia esperar; é o contrário que ocorre. A explicação para isso pode ser o poder de evocação imagética dos substantivos escolhidos; de cada um deles. O primeiro verso Te quero num chão de estrelas tece de forma tão marcante o pano de fundo, dispensando o uso excessivo de adjetivos. A sequência:  nua, lua, cometa, explosão, gametas, supernova, relatividade, ciência, éter, desejo,  apresenta palavras que podem prescindir de adjetivação porque fazem parte de um cenário celeste, de algo suficientemente grandioso. Mas há duas palavras que recebem qualificação. Excluo buraco negro por entender que representa uma denominação da ciência. São elas: ciência (imperfeita) e desejo (imaturo). Pela seleção realizada, tendo sido ou não da intenção do autor, leio: a maturidade está para o desejo, assim como a perfeição está para a ciência...
 
Tendo como fundo um plano alegórico, desenrola-se a criação do poeta com o recurso de figuras, em dosagem exata para as proposições do tema, entre elas o Paradoxo e a Metáfora. Estes dois, axiais para ampliar as possibilidades de interpretação do texto. Sobrepor a relatividade à ciência e chamá-la de imperfeita, é questionar a relatividade e a ciência; o ser humano em sua passagem pelo espaço-tempo; mas é ainda, questionar o espaço-tempo; em suma, é indagar sobre as direções que ciência e pensamento tomam. Esse paradoxo também representa uma incerteza do poeta: a de não poder provar que a explosão sensual de Lyman seria verdadeira. O poeta pretende que ela seja um buraco negro seminal. Um fato que não está no texto que recolhi na Wikpédia, mas que é do conhecimento de muitos, é que o buraco negro, segundo os físicos teóricos, suga tudo ao seu redor. A imagem desenhada, então é a de ser engolido, sugado por Lyman, de uma forma seminal, isto é proveitosa, prazerosa.
 
No título, temos os dois substantivos começados por uma consoante líquida, portanto uma consonância, uma forma de aliteração, e também uma evocação sonora, uma consonância não explícita: Lyman/imã. Não encontro aspectos relevantes para citar outros aspectos. Vale dizer que há harmonia e fluidez na distribuição dos fonemas surdos e sonoros, na utilização das bilabiais, linguodentais e vibrantes que são as que mais interpõem obstáculos na emissão. O que há de relevante nesse plano é a identificação que pode ser feita de Lyman como um imã, bem como a digamos dureza ou firmeza da afirmação quero-te, impressão conferida pela oclusiva velar surda, uma consoante dura.
 
É justamente destas duas últimas constatações que me ocorreu a possibilidade de uma leitura interpretativa, uma das possíveis. Quem é Lyman, essa força que imanta o poeta; uma forma feminina, diante da qual ele se coloca de maneira firme, quase brusca em meio a um ambiente de imagens suaves e belas. É a estrela desejada entre estrelas; é a mais desejada das estrelas, pois o poeta sonha com ela uma união íntima. Mas a união com esse feminino é vista pelo poeta como algo ameaçador, descrito como um sorvedouro, algo que pode causar seu desaparecimento, sua anulação. Certa brusquidão é a defesa masculina contra a anulação pelo feminino. Impõe separação, distância. Embora ele a queira sensual, espera que se possa provar que  entregar-se a ela,
não anula sua masculinidade. Que o mito da mulher devoradora seja relativo e que se possa provar que está errado; outro som que o nome me evoca é o de Lilith woman a fêmea devoradora. que Lyman seja o feminino que não anula. Que a relatividade prova na sua ciência imperfeita,  é o paradoxo
que o poeta apresenta a si mesmo numa tentativa de auto-convencimento: não há perigo, o mito é falso. Mas, se o poeta está diante de si mesmo, pergunto novamente, quem representa em seu imaginário a Lyman que ele percebe como lúbrica e impudica, dona de tamanha força, ainda uma anã branca antes de tornar-se um buraco negro, pois a idéia está implícita no processo, não está presente no poema. As estrelas anãs brancas compõem sistemas duplos ou binários (pode haver outros), como é o caso de Sírius A e Sírius B, conhecidas e descritas em seu movimento celeste pelos Dogons, mesmo sem o uso de telescópios. Há uma teoria que diz que uma se alimenta da energia da outra. Há muito mais, mas isso é o que importa para a minha dedução. Um sistema binário em que duas estrela estão em troca de energia. O que ocorre é que um dos enfoques teóricos para a ocorrência de uma supernova é a absorção da menor pela maior, que concentra tal densidade de energia, que leva à explosão,  gerando uma supernova. E foi pela omissão, que entrevi a Anima. Ao autor os segredos de seu texto, mas chego finalmente à ideia de que o autor tece uma imagem onírica, um símbolo do caminho até a Anima, com a qual todo poeta por sua sensibilidade está em contato, mas que poderia ser uma ameaça ao Animus. Assim, ele permanece no limiar. A maturidade está para o desejo, assim como a perfeição está para a ciência...
 

 
Nilza A. Hoehne Rigo
 
Consultas:
Dicionário: Aurélio
Wikipédia
Gramática: Rocha Lima