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FOLCLORE - MITOS BRASILEIROS


 
RELAÇÃO ÉTNICA  -  Três fontes essenciais:  indígena, europeia (Portugal - conquistadores por ordem de influência: do Minho, das Beiras, da Extremadura e do Alentejo) e africana.   -----   Mitos europeus:  Minho, mais poder e domínio, "senhores de Pernambuco" - para o Norte, logo ao descobrimento, minhotos tinham mais terras, engenhos famosos e vasta escravaria vermelha e negra, jesuíta FERNÃO CARDIM, visitando em 1585 e registrando luxo, fausto maior que na metrópole.  Lembranças da Galícia e lendas já esmaecidas no século XVI, raros os mitos fiéis à origem.  Elemento judaico emigrou e trouxe superstIções e pavores, daí muitas 'denunciações' posteriores em Pernambuco e na Bahia.  No Sul, inesgotáveis mitos das Beiras e da Extremadura. Toponímia alentejana nas cidades:  no Rio Grande do Norte, Entremoz, Arez, Portalegre como homenagem ao distante rincão.   -----   O colonial branco, responsável pelos mitos, os modificou em ação contínua, embora com vestígios de Portugal, país geográfica, histórica e etmologicamente um resumo da Europa, juntando-se mais lendas que especiarias das conquistas na Ásia e na África:  reexportação "made in Portugal";  daí, qual a fórmula inicial?   -----   O português plantou estacas da fazenda de criar, do sítio e do roçado, fez família, amou índias e negras, multiplicou mestiços e fundou amorosamente a raça arrebatada, emocional e sonora... que à noite contava-ouvia estórias de assombros:  lobisomens, mulas-sem-cabeça, mouras-tortas, animais espantosos, reis do mato etc., surgindo evocados do mistério, metamorfoseados pela beleza milagrosa dos mitos.  Juntaram-se o monocórdio dos urucungos (instrumento musical africano) monótono e gestas milenares, animais da floresta, cipós, lianas e flores.  A vastidão de matos-rios-chapadões-caatingas-litoral, nunca vazia de entidades poderosas e ardentes... deuses, duendes, protetores e maus, invisíveis e presentes na alma assombrada dos indígenas.  No cadinho de florestas e águas tropicais, um mito se transforma em outro...  floriam as lendas ornitomórficas e daí o conto folclórico brasileiro.   -----   O bandeirante português batia todo o Brasil e carregava mitos - herança inarredável e perpétua, os verdadeiramente "gerais", com linhas mestras, de origem peninsular - nenhum saci-pererê (ignorado no Norte e no Nordeste) ou Caipora (pouco definido em São Paulo e Minas Gerais), com o desafio de medir-se com o Lobisomem, trotando sexta-feira por todo o Brasil;  Mboi-tatá acendendo clarão por cidades, vilas e caminhos, mas sob as normas europeias do "feux-follets".   -----   Mitos de origem indígena:  Os tupi-guaranis foram preponderantes em situação social e geográfica, bem capaz de aliar-se, combater e fundir-se com o português.  Os gês no Leste, batizando quase dois terços do território, foram os primeiros para o contato - assistiram a primeira missa, testemunhas inconscientes do ato de posse e "ajudaram" a destruição de si mesmos - com as 'bandeiras, bateram sul e norte, matando e morrendo.  O idioma tupi era a língua de entendimento (= o aramaico em tempos antigos na Ásia, o inglês séculos depois / língua franca ou de contato) ; o nhengatu era a língua-boa, plástica e musical, codificada nas gramáticas, gabada nos púlpitos, recitada nos autos e nas orações milagrosas.  No século XVII, o padre ANTÔNIO VIEIRA notava que se falava o tupi naturalmente, era comum - elemento cultural necessário, indispensável, apenas secundário ao nhengatu, sonoro e dúctil.   "Até o começo do século XVIII, a proporção entre as línguas na colônia era mais ou menos de três (tupi) para um (português)." - TEODORO SAMPAIO.  "A língua portuguesa só passou a ter uso como língua geral em 1755, no Maranhão, lugar privilegiado." - AIRES DE CASAL.  Acompanhando o bandeirante conquistador, o índio  deu nome a labirintos amazônicos, rios, orlas;  cavou a terra e a língua indigena batizou rios, matas, montanhas, cidades, árvores, pedras, tudo......  Ao despedir-se da função histórica, o idioma incorruptível condenado ao desaparecimento cobriu o esplendor da terra, em regiões onde nem mesmo havia tribos de sua raça. marcando-a com a língua, como um sinal heráldico de passagem, posse e domínio - a toponímia brasileira deve ao tupi sua percentagem esmagadora porque sabiam a perpetuidade de esforço.  Mitos?  Os primeiros catalogados e logo confundidos e ajustados com os dos portugueses, completando-se ou avivando características além, não deformados por inteiro e sim popularizados velozmente.  Os portugueses aceitaram duendes das florestas tupis como seres normais, capazes das mesmas façanhas de seus 'trasgos' (seres encantados brincalhões como crianças, de Trás-os-montes, Norte de Portugal) e 'olhapins' (idem) - a teogonia tupi, nas noites escuras, passou das malocas para as casas-grandes, olhos espavoridos na treva cheia de curupiras e lobisomens.   -----   Mitos de origem africana:  O escravo veio humilhado e com amor infinito, na força religiosa dos mitos:   cerimoniais, dias de preceitos, ritos, orixás e danças, comidas e indumentárias - culto seria incompleto sem estes processos;   também a crônica aventureira e valente dos deuses vencedores dos raios e das mulheres.  São raros os mitos, na acepção folclórica do vocábulo, independentes de religião hierática (com escrita sagrada) e severa, e ritual com dogmas-roupas-cores-tradições.  "O africano só podia ser compreendido através da sua crença." - FROBENIUS.  A religião náo era um liame, mas a razão, o estado de espírito, a própria duração da vida natural - não isolar um mito do clima religioso negro, como os mitos de europeus e indígenas.  No folclore brasileiro, influência negra positiva em danças, diversões de conjunto, autos populares. (parte musical em determinadas danças de roda para homens,, especialmente as de parelhas soltas ou coletivas) e estórias - no mundo dos meninos, o negro foi todo-poderoso: contou  estórias, ressuscitou animais monstruosos, explicou tesouros, estrelas e casamento de astros, pavores noturnos... rara a figura do ciclo da angústia infantil que não tenha origem negra.  Mito geral não negro é o Quibungo, negro-velho pegador de crianças, gênero universal - não assombra e aparece como um antropófago, ação já modificada por outro mito, o de um gigante ou devorador de carne humana, cujo nome se perdeu;  nada original porque todo ciclo de monstros é antropófago.  Em livro que nos tenha vindo através de ingleses, portugueses, franceses ou norte-americanos não se avista o vulto do Quibungo... que surge na Bahia, centro de densidade africana, mas não emigrante - faixa limitada, regiões vizinhas não o conhecem.   -----   Sobre o 'catimbó' no Nordeste, é sensível e alta a influência indígena da pajelança.  O negro brasileiro não é determinante ou foco irradiante superior ao ambiente onde atua, mas sofre uma perpétua modificação - a mão do escravo que tudo fazia, passou por inúmeros mitos brancos - aparições assombrosas através dos lábios africanos, balbuciadores de estórias maravilhosas:  papel de 'tios' e 'tias' portugueses, papel pelo direito de servidão e devotamento, Scherezade-Preta.

                                        FIM
Rubemar Alves
Enviado por Rubemar Alves em 09/06/2018
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Sobre o autor
Rubemar Alves
Salto - São Paulo - Brasil, 51 anos
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